A sombra do cafezal não refrescava ninguém

Bastou a poeira baixar no terminal rodoviário de Guaxupé para eu entender que aquilo não era férias. Dona Filomena, minha sogra, nos recebeu com um sorriso magro e um balde de plástico na mão. O balde não era para a gente. Era para o milho das galinhas.

— Chegaram na hora boa, a água da mina tá fraca e preciso de braço pra puxar mangueira.

Olhei para o Eduardo. Meu marido carregava a mochila do Enzo, nosso filho de oito anos, e olhava para o chão de terra batida como se visse ali a planta da própria cova. Eu ainda estava sentindo o cheiro do ar-condicionado do ônibus interestadual e já sentia o suor escorrendo pelas costas. Enzo puxou minha blusa e apontou para um pé de jabuticaba carregado, os olhos brilhando. Pelo menos a natureza cumpria o que prometia.

O combinado era simples: passar janeiro na roça, respirar ar puro, comer fruta no pé. Economizar. Eduardo tinha ficado seis meses desempregado e o novo emprego numa oficina mecânica de Ribeirão Preto só começava em fevereiro. A sogra ligou com a voz mansa: “Vem, Laurinha, traz o menino, aqui é sossegado, não gasta nada”. Sossego não gasta nada, pensei. Mal sabia eu que a cobrança vinha em serviço braçal e humilhação servida no jantar.

A casa era grande, mas torta. Assoalho de tábua corrida que rangia, telhas coloniais com goteiras remendadas com panela velha no forro. Na cozinha, uma estante abarrotada de compotas de goiaba e conservas de pimenta biquinho. Dona Filomena governava aquele território como um capataz. Aos sessenta e sete anos, viúva do seu Agenor, carregava nas costas a narrativa de mulher guerreira que ninguém ajudava. Ali descobri que “ninguém” era um exagero. O Rogério, irmão mais novo do Eduardo, morava num sobrado a três ruas de distância, casado com a Sandra, e vivia repetindo que “a mãe não pode ficar sozinha”. Repetia, mas não aparecia para carpir. Aparecia para fiscalizar.

Na primeira manhã, às cinco e meia, Dona Filomena bateu na porta do quarto abafado. O ventilador de teto girava tão lento que mais espalhava o calor do que aliviava. O cheiro de café coado no pano de prato entrava por baixo da porta.

— Acorda, Laurinha. A horta não espera o sol esquentar. O Enzo pode ir tratando das galinhas. Menino da cidade também precisa criar calo.

Enzo virou na cama, o cabelo grudado na testa. Eduardo continuou roncando. Eu o chamei e ele resmungou qualquer coisa sobre ter dirigido por cinco horas. Pois bem. Calcei a sandália e fui. Naquele dia capinei até a palma da mão formar uma bolha d’água entre o polegar e o indicador. Mostrei a mão para o Eduardo na hora do almoço, enquanto comia um feijão tropeiro amargo. Ele olhou para a minha mão, depois para a colher dele, e disse: “compra uma luva na vendinha”. A mãe dele ouviu e soltou um risinho curto: “luva é coisa de madame”. Eu não era madame. Eu era uma assistente administrativa que nunca tinha segurado uma enxada na vida, mas estava ali, comendo calada.

A rotina foi piorando. Pela manhã era a horta, depois o milho, depois os coelhos. À tarde, lavar roupa no tanque de cimento e estender no varal de arame farpado, com cuidado para não rasgar o jeans do Enzo. Dona Filomena me olhava de lado enquanto eu esfregava as camisas do Eduardo, como se avaliasse minha força. Enzo, coitado, já não falava mais em cachoeira. A jabuticaba ele chupou escondido, atrás do galinheiro, porque a avó disse que “fruta é para a Geleia de Natal, menino não é passarinho para bicar”.

Na quarta noite, o jantar foi interrompido pela chegada triunfal do Rogério e da Sandra. Ele veio com um pacote de pão de queijo congelado e uma melancia. Sandra segurava a melancia como quem carrega um troféu.

— Olha aí, a turma do asfalto! — Rogério gritou, já se sentando na cabeceira da mesa. — E aí, Laurinha, já sabe diferenciar o pé de alface do de rúcula? A Sandra aqui também era assim quando chegou.

Sandra sorriu, o sorriso mais falso que nota de três reais. A mulher era magra, quieta, mas tinha um olhar de quem catalogava cada passo meu para depois fazer relatório. Ela serviu o próprio prato sem pedir licença e se sentou no meu lugar. Eu fiquei de pé, segurando o prato do Enzo, esperando alguém perceber que faltava uma cadeira. Ninguém percebeu.

— Eduardo, você precisa ver a caixa d’água — disse Rogério, de boca cheia. — Tá entupida de folha. Aproveita que tá aí e sobe amanhã. Já que vocês não pagam aluguel…

— A gente paga sim — deixei escapar, antes de pensar.

A mesa ficou em silêncio. O garfo da Dona Filomena parou no ar. Eduardo me encarou com um pavor súbito no rosto, como se eu tivesse xingado a santa.

— Paga como, Laurinha? — a sogra perguntou, com uma calma que era mais perigosa que um berro.

— Compramos as passagens, trouxemos mantimentos, estamos trabalhando todos os dias na sua horta. Sem a gente, a senhora ia ter que pagar um peão para fazer o que eu e o Eduardo estamos fazendo.

Rogério deu uma risada alta, jogando a cabeça para trás. Sandra cobriu a boca com o guardanapo, mas dava para ver que ria junto. Dona Filomena, essa não riu. Ela passou a ponta da unha na beirada do prato, tirando um resto de gordura, e disse sem levantar os olhos:

— Trabalho de filho é obrigação. Obrigação não se cobra. E o menino, hein? O Enzo precisa aprender a respeitar os mais velhos. Tira ele já dessa mesa.

Enzo era a última gota d’água para mim. Meu filho estava quieto, desenhando um carrinho num guardanapo, sem encostar em ninguém. Ele levantou os olhos, assustado, e já ia descendo da cadeira.

— Fica, filho.

— Como é que é?

— A senhora está falando com uma criança de oito anos que passou a tarde varrendo cocô de coelho. Ele está cansado. Ele fica. Se alguém quiser se levantar, que seja por vontade própria.

Rogério se levantou. Não por vontade própria, mas porque queria impor presença. Ele era um homem grande, barrigudo, com as mãos grossas de pedreiro.

— Aqui nessa casa quem manda é minha mãe. Não vem com esse papinho de cidade não que aqui a gente come quieto.

— Quieto do seu jeito? Falando alto e apontando dedo na cara dos outros?

— Laurinha!

Foi o Eduardo quem gritou. A primeira coisa que meu marido fez em dias foi gritar comigo. Ele estava pálido, suando mais do que sob o sol da horta. A mão tremia em cima da mesa.

— Vamos sair um pouco, vai. Vamos conversar lá fora. Para com isso, Laurinha, você está estragando a noite.

A noite. A noite que já era um desastre de suor, insultos velados e um menino amedrontado. Saí da mesa com o gosto de fel na boca. Não saí para conversar. Saí para buscar a bolsa no quarto.

Eduardo veio atrás, pisando duro nas tábuas soltas do corredor. Ele estava transtornado, não de raiva, mas de medo. Medo do irmão, medo da mãe, medo de se posicionar. Eu estava enfiando as poucas roupas na mochila quando ele tentou segurar meu braço.

— Você vai me ouvir, Laurinha? Meu irmão é exaltado, mas ele é família. Você quer me deixar mal aqui? A mãe vai ficar magoada, a gente precisa desse teto até o serviço começar. Não temos dinheiro para voltar agora, você sabe.

— Então fica você.

— Você não vai arrastar o Enzo para a estrada à meia-noite. Isso é maluquice. Pelo amor de Deus, amanhã você pede desculpas e a gente se entende.

— Desculpas por quê? Por defender meu filho? Ou por não abaixar a cabeça?

Ele não respondeu. Apertou os lábios e olhou para o carpete surrado do quarto. Aquele aperto de lábios falou mais alto que qualquer discurso. Era um homem que se escondia atrás de mim, mas nunca, jamais, daria um passo à minha frente. Peguei a mochila e a lanterna de celular. Enzo me encontrou na porta da sala, com os olhos vermelhos, segurando o guardanapo do desenho.

— O vovô Agenor deixava eu mexer no rádio. A vovó não deixa nem eu pegar uma fruta.

Aquilo foi o estopim que nem eu sabia que existia.

Segurei a mão do menino e saí. Não foi uma fuga, foi uma evacuação. Andei os setecentos metros até a rodoviária no escuro, sentindo o cheiro de terra molhada e o latido dos cachorros. O guichê estava fechado, mas um motorista de van que fazia linha para São Joaquim da Barra estava encostado, tomando uma cerveja quente.

— Moça, não tenho horário agora não, mas se quiser esperar na praça, às quatro e meia eu passo.

As quatro horas mais longas da minha vida foram sentadas naquela praça, num banco duro pintado de verde, olhando para um coreto pichado. Enzo dormiu apoiado na minha coxa. O ar estava parado, abafado, e um besouro enorme ficou zumbindo em volta do poste. Eduardo não apareceu. Nem mandou mensagem. O irmão e a sogra provavelmente comemoravam a retirada da intrusa. Mas a história não terminava ali.

Chegamos em Ribeirão Preto às sete da manhã, sujos e famintos. A casa estava vazia, mas era minha. Pelo aluguel atrasado, o senhorio tinha deixado um aviso extrajudicial colado na porta, mas a chave ainda girava na fechadura. Coloquei o Enzo para tomar banho. Depois abri o aplicativo do banco.

A reserva de emergência que eu guardava havia cinco anos, desde que tinha vendido meu Chevette velho, estava parada na poupança. Dez mil, quatrocentos e trinta e dois reais. Não era muito, mas era o que me separava da dependência. Da primeira vez que vi aquele número, pensei que fosse para uma doença, um acidente. Mas o acidente era o casamento que eu vivia. A doença era um marido que não me defendia.

Pela primeira vez na vida, não liguei para o Eduardo para consultar. Mandei um e-mail para o proprietário: “Seu Aloísio, o aluguel atrasado será pago integralmente hoje à tarde, mais o próximo mês adiantado. Peço desculpas. O contrato ficará apenas no nome de Larissa.” Depois, fiz três transferências seguidas. A primeira para quitar as contas da casa. A segunda para uma adega na avenida do Café. De lá, na mesma tarde, um motoboy saiu com uma entrega especial para Guaxupé — um vinho tinto chileno, o mais caro da prateleira, noventa e sete reais a garrafa. Encomendei quatro. O comprovante ia grampeado no sacolé térmico, junto com um único post-it escrito à mão: “Pelo trabalho no cafezal. Hora extra de doméstica, 98 horas de serviço. R$ 25 a hora. Saldo devedor zerado.” Assinei embaixo e coloquei a data.

Às sete horas da noite, o celular desandou a vibrar. Dona Filomena mandou um áudio que eu não abri. Rogério mandou um texto em caixa alta, com erros de português e ameaças de processo. Eduardo, esse ligou quatorze vezes. Na décima quinta, atendi.

— Laurinha, você enlouqueceu? O Rogério disse que você mandou vinho e um recibo debochado. A mãe está passando mal, a Sandra teve que ir lá socorrer.

— Não foi deboche, Eduardo. Foi acerto de contas. Eu e o Enzo trabalhamos de graça e ainda fomos humilhados. Agora está quitado. Você quer voltar? A casa está aqui. Mas o Rogério e a sua mãe só entram no nosso apartamento no dia em que me pedirem desculpas na frente do nosso filho. E de joelhos, se for preciso.

Do outro lado da linha, ouvi a voz de Dona Filomena ao fundo, aos prantos, dizendo que nunca mais punha os pés na casa da “vagabunda”. Eduardo começou a chorar também, um choro baixinho, abafado, como se tivesse enfiado o rosto no travesseiro.

— Você me colocou numa saia justa… vai me deixar sozinho aqui?

— Você já estava sozinho, Eduardo. A diferença é que agora eu também não estou mais. A kombi da sua mãe sai amanhã às duas da tarde. Você decide se volta ou fica aí sendo sombra dos outros.

Desliguei. A casa estava em completo silêncio, exceto pelo ruído do PlayStation que Enzo jogava, aquele barulho de corrida, de freiada, de carro batendo na mureta. Sentei no sofá e fiquei olhando para o lustre da sala, que piscava por conta de um mau contato.

No dia seguinte, o ônibus das duas da tarde parou na rodoviária. Eduardo desceu com a mesma mochila com que havia subido. Não nos abraçamos. Ele entrou em casa, depositou a mochila no chão e se sentou na poltrona, olhando para as próprias mãos. Estavam sem bolhas. Só eu tinha calos. Ele estendeu a palma e eu coloquei sobre a mesa um envelope pardo: dentro, os papéis do divórcio que eu havia impresso naquela manhã, num dia de papelaria aberta e coragem fechada. Não havia raiva. Só o peso de um trabalho que, enfim, terminava.

O telefone tocou de novo. Era Dona Filomena. Ela deve ter calculado o preço da passagem que pagara para o filho voltar. Eu atendi, mas não disse nada.

— Você acha que vai me tirar o filho? — a voz dela era um fio rouco, envelhecido de repente.

— Eu não tiro ninguém de ninguém, dona Filomena. Mas o Enzo não vai mais catar cocô de coelho para ter o direito de comer uma fruta. Isso eu garanto.

Encostei o telefone na mesa e esperei o primeiro pingo de uma chuva de verão estourar na janela. Enzo veio correndo, assustado com o trovão. Eduardo levantou da poltrona e fechou a vidraça. Ninguém disse mais nada. Só a chuva lavou o dia, e o resto ficou quieto.

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