# O segredo nas botas do meu marido

Trabalho como veterinária clínica há dezoito anos num consultório de bairro em Curitiba, na Vila Izabel, e já perdi as contas de quantas vezes um tutor entrou pela porta dizendo "minha gata enlouqueceu". Geralmente é ansiedade, é dor, é território. Mas teve um caso, há uns dois anos, que ainda conto para os estagiários quando dão plantão comigo.

Quem trouxe a história foi a Marisa, professora aposentada, sessenta e um anos, cabelo tingido de ruivo e aquele jeito de falar rápido de quem já não tem paciência para rodeios. A gata dela, uma vira-lata cinza e branca chamada Píter — nome de macho porque, quando a adotaram, juraram que era gato —, tinha acabado de ter a primeira ninhada. Quatro filhotes.

Marisa tinha preparado tudo direitinho. Caixa de papelão grande forrada com toalha velha, no quarto de hóspedes, longe do corredor, longe do barulho da rua. Píter pariu ali mesmo, sem drama. E na manhã seguinte a caixa estava vazia.

— Achei os quatro na sapateira — ela me contou, sentada na cadeira do consultório com uma bolsa de tricô apertada no colo. — Não no cesto de roupa, não debaixo da cama. Dentro das botas de cano curto do meu marido. Uma em cada bota, os dois pares que ele usa pra trabalhar na oficina.

O marido de Marisa, Osvaldo, tem uma borracharia perto do Mercado Municipal, e usa bota de couro o ano inteiro por causa do trabalho pesado. Duas botas velhas, gastas, ficavam sempre encostadas na porta de entrada, cheirando a graxa e a couro curtido havia anos.

Marisa recolheu os filhotes, devolveu para a caixa. Uma hora depois, Píter tinha carregado os quatro de volta para dentro das botas.

— Ela ficava me encarando, sabe. Tipo assim: "eu decido, não você."

A família tentou de tudo. Trocaram a caixa de lugar, puseram no quarto do casal, depois na sala. Forraram com cobertor macio, depois com pano mais fino. Fizeram uma casinha fechada, tipo toca, achando que o gato queria escuridão e aconchego apertado. Nada resolveu. Píter voltava sempre para as mesmas duas botas.

E olha que não faltava opção: chinelo da Marisa do lado, tênis do neto que ficava de vez em quando lá, sandália havaiana jogada perto da porta. A gata nem chegava perto. Só as botas do Osvaldo.

Numa tarde, cansados, esconderam as botas dentro do armário do quarto, achando que assim a gata desistiria e aceitaria o lugar arrumado. Foi pior. Píter sentou embaixo do armário fechado e começou a miar sem parar, um miado agudo, insistente, o tipo que corta o silêncio da casa inteira. Arranhava a porta do móvel, chamava, não sossegava. E o pior: começou a amamentar mal de tanta agitação, os filhotes ficando inquietos também.

Tiveram que devolver as botas para o lugar de sempre. Foi aí que Marisa entendeu que não era manha.

— Falei pra ela: "faz o que você quiser, mulher, eu desisto." Corredor cheio de calçado e ela só quer as bota do meu marido. A gente já não sabia mais o que pensar.

Foi nessa consulta que perguntei o óbvio, aquilo que às vezes o dono não para pra reparar de tão dentro da rotina que está:

— Quem manda na casa, na cabeça do Píter? Pra quem ela corre quando se assusta? No colo de quem ela dorme à noite?

Marisa não hesitou:

— Do Osvaldo. Sempre foi dele.

Contou que desde filhote, com poucas semanas de vida, a gata tinha escolhido o marido. Dormia no peito dele. Esperava na porta na hora em que ele chegava da oficina, sempre por volta das sete da noite, cheirando a pneu e óleo de motor. Seguia atrás dele pela casa toda, feito sombra. E olha que Osvaldo vivia repetindo que não gostava de bicho em casa, que gato dava trabalho, que preferia cachorro. A gata ignorava completamente a reclamação — amava o homem e ponto final.

— Ela meio que escolheu ele como chefe da casa — Marisa riu, meio sem graça. — E ele realmente é, aqui em casa quem resolve as coisas importantes é ele. Acho que ela sentiu isso.

Ali a ficha caiu pra mim inteira. Faltava só explicar por que isso desaguava justamente nas botas.

Pra um gato, cheiro não é detalhe, é o mapa inteiro do mundo. A gente se orienta pelos olhos: vê a sala, os móveis, o rosto das pessoas. O gato lê o espaço majoritariamente pelo faro. O cheiro conta pra ele quem passou ali, onde é seguro, o que é familiar e o que merece desconfiança.

E o cheiro mais forte, mais constante de uma pessoa fica exatamente onde ela toca por mais tempo, com mais insistência. Na roupa. No calçado. Sobretudo no calçado de trabalho, suado, usado todo santo dia, ano após ano. As botas do Osvaldo carregavam o cheiro dele mais concentrado que qualquer outro lugar da casa.

E esse homem, pro Píter, não era só mais um morador do apartamento. Era o protetor principal. A figura mais confiável do universo felino dela.

Junte as duas pontas e o comportamento faz sentido total. Gata recém-parida procura o lugar mais seguro pros filhotes — não o mais bonito, não o mais prático pro humano, o mais seguro segundo a lógica dela. E, na cabeça de Píter, seguro era onde tinha mais cheiro da pessoa em quem ela mais confiava.

Ela não estava escondendo os filhotes dentro de bota por capricho. Estava escondendo debaixo do cheiro do protetor dela. Isso, pra uma espécie que nos primeiros dias de vida dos filhotes normalmente não deixa ninguém chegar perto — nem o dono mais querido —, é o grau máximo de confiança que um gato consegue demonstrar.

Quando Marisa contou tudo isso pro Osvaldo, ele só resmungou, típico dele. Disse que estavam inventando história. Ficou calado um bom tempo, de costas pra ela, olhando pela janela da cozinha, enquanto ela terminava de guardar a louça do almoço. Aquele homem que vivia dizendo "eu não gosto de gato" tinha as mãos paradas na pia, a esponja largada de lado, a torneira ainda pingando — e não precisou dizer mais nada pra Marisa perceber.

A família parou de brigar com a gata. Puseram uma caminha grande perto da sapateira mesmo, ali no corredor de entrada. Dentro, colocaram uma camiseta velha do Osvaldo — ele usou por três dias sem lavar, de propósito, só pra impregnar o cheiro dele no tecido. Píter cheirou, rodeou, pensou um pouco. E carregou os quatro filhotes pra lá.

As botas, finalmente, voltaram a ser só botas.

— Agora ele não larga esses filhote de jeito nenhum — Marisa me contou, na consulta de retorno pra vacina dos bichanos, as mãos ainda ocupadas guardando a carteirinha de vacinação na bolsa. — Fala assim: "se ela confiou os filho dela em mim, eu tenho responsabilidade." Aquele que não gostava de gato, viu só.

Marisa já ia saindo pela porta, a bolsa de tricô debaixo do braço, quando parou um instante:

— Ela enxergou nele o que ele mesmo não queria admitir que tinha.

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