# O prazo de vinte e dois dias

Comecei a contar os dias no calendário da cozinha, um risco de caneta por manhã, como quem marca a validade de um iogurte. Vinte e dois riscos até o dia em que peguei minha filha, joguei duas mochilas no banco de trás do Onix e saí da casa da minha sogra sem olhar pelo retrovisor.

Vou explicar do começo, porque a versão que ela conta por aí é bem diferente da minha.

Eu e o Rodrigo somos colegas de trabalho — nos conhecemos há oito anos numa construtora em Curitiba, ele na parte de orçamentos, eu na de compras. Cargos parecidos, salários parecidos. A conta do apartamento sempre foi dividida meio a meio, sem drama. Nossa filha, a Cecília, tem quatro anos, e a rotina dela era repartida do mesmo jeito: quem estava livre levava na escolinha, quem estava livre buscava. Sábado era parque do Barigui, domingo era pizza em casa. Uma vida sem grandes sobressaltos.

Isso até dona Marlene, minha sogra, ter o primeiro AVC em março. Três semanas depois, veio o segundo, mais forte. Quem já passou perto disso sabe o que sobra de uma pessoa depois: ela quase não fala, só resmunga sons que não formam palavra nenhuma. Não consegue se vestir, não consegue ir ao banheiro sozinha. Precisa de alguém do lado o tempo inteiro.

O problema é que, na cabeça do Rodrigo, esse alguém só podia ser eu.

Ele decidiu isso sozinho, sem me perguntar nada, no mesmo fim de semana em que fomos buscar a mãe dele no Hospital das Clínicas. Enquanto eu ainda segurava a bolsa da dona Marlene com as fraldas geriátricas dentro, ele já estava dizendo que eu precisava pedir demissão.

— Amor, você não acha que está exagerando? — falei parada no corredor do hospital, ainda de jaleco descartável. — Por que eu tenho que apagar minha vida inteira pela sua mãe?

— Sério isso? E o que você sugere, que eu troque a fralda dela?

— E por que não? — respondi, e acho que foi aí que ele entendeu que eu não estava brincando. — Você é filho dedicado, não é? Ela vivia dizendo isso pra todo mundo, que o filho dela era uma joia.

— Eu não vou fazer isso porque eu sou homem e ela é minha mãe. Não é certo.

— Então contrata uma cuidadora.

Ele bufou como se eu tivesse sugerido vender o apartamento dela.

— Cuidadora ganha em torno de dois mil e oitocentos por mês, sabia? De onde vem esse dinheiro?

— Metade sai da minha conta, metade da sua. Como sempre foi.

Ele não respondeu. Fechou a cara e ficou olhando pro corredor, como se a resposta estivesse escrita na parede branca do hospital.

Mudamos para o apartamento dela, na Vila Izabel, porque não dava pra deixá-la sozinha nem um turno. Eu, que morava havia dez anos no apartamento que herdei dos meus pais lá no Bacacheri, agora dormia num quarto de hóspedes com cheiro de álcool em gel e pomada de assadura. E, sem perceber, fui virando enfermeira, cozinheira, fisioterapeuta amadora — tudo junto, sem hora pra entrar nem pra sair.

No começo eu não reclamei. Fiquei um mês inteiro me dividindo entre o trabalho, a Cecília e o cuidado com dona Marlene. Dormi em cadeira de plástico dura no corredor do hospital, três noites seguidas, enquanto ela ainda estava internada. Aprendi a trocar sonda, a moer remédio pra misturar na papinha, a virar o corpo dela de duas em duas horas pra não formar escara.

E cadê o obrigado? Não teve. O que teve foi meu gesto de boa vontade virando, num piscar de olhos, minha obrigação permanente.

Um dia voltei com a Cecília da escolinha — ela estuda perto da Praça Osório, e eu costumo passar lá pra buscar antes de ir pra casa da minha sogra — e o Rodrigo estava esperando na porta com aquela cara de quem guardou raiva o dia inteiro.

— Você saiu e não deu comida pra minha mãe. Tive que fazer eu mesmo.

— E você tem duas mãos, Rodrigo. Eu já falei da cuidadora.

— Eu já disse que não vou contratar ninguém. Primeiro que é caro, segundo que não quero minha mãe se estressando com estranho dentro de casa. Você não tem pena dela não? Se fosse sua mãe, você faria isso com ela?

— Se minha mãe adoecer, eu vou dar um jeito de ajudar — respondi, tirando o casaco da Cecília. — E não vou te obrigar a largar seu emprego pra isso. Tenho pena da sua mãe, sim. Mas isso não significa que eu vou largar meu trabalho pra virar cuidadora dela em tempo integral.

Foi nessa conversa, parada na cozinha com a chaleira apitando atrás de mim, que eu decidi. Peguei a Cecília, as duas mochilas, e fomos embora pro Bacacheri.

Ele ligou onze vezes naquela noite. Gritou tanto que tive que afastar o celular do ouvido — dava pra ouvir a voz dele do outro lado da sala, onde a Cecília já dormia. No dia seguinte, no trabalho, fiquei sabendo por uma colega do RH que ele tinha pedido três dias de banco de horas.

Fiquei imaginando quanto tempo ele ia aguentar.

A resposta veio em nove dias.

Ele me ligou de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes — a voz baixa, quase sem fôlego, pedindo pra eu ir até lá "só pra ajudar com uma coisa". Fui, porque afinal era mãe dele, e eu não sou de pedra. Encontrei o apartamento com cheiro de comida queimada, roupa suja empilhada no corredor, e dona Marlene com uma fralda que já devia estar trocada há horas. Ele estava sentado no chão da cozinha, encostado no armário, com os olhos vermelhos.

— Eu não aguento — falou, sem me olhar. — Não sei fazer nada disso direito. Ontem ela engasgou e eu não sabia o que fazer, fiquei desesperado.

Eu me abaixei do lado dele, mas não fiz o que ele esperava, que era assumir tudo de novo ali mesmo.

— Rodrigo, eu te avisei nove dias atrás. Não é falta de amor por ela. É que uma pessoa sozinha não dá conta disso, com ou sem parentesco.

No dia seguinte liguei pra uma empresa de home care que uma colega do trabalho tinha indicado, a mesma que cuidou do pai dela depois de uma cirurgia de quadril. Marquei uma cuidadora com experiência em sequela de AVC, plantão de doze horas, R$ 3.200 por mês. Levei o orçamento impresso, coloquei em cima da mesa da cozinha, do lado do pote de açúcar, e disse:

— Metade sai da minha conta, metade da sua, como sempre foi entre a gente. Eu volto a passar aqui nos fins de semana, levo a Cecília pra ver a avó, ajudo no que puder. Mas não vou morar aqui nem largar meu emprego.

Ele assinou o contrato da cuidadora sem discutir. Assinou também, sem eu pedir, os papéis de partilha da nossa separação de fato — porque a essa altura já tinha ficado claro pra nós dois que o casamento não ia voltar a ser o que era antes daquele mês de março.

Hoje moro de novo no Bacacheri, com a Cecília, no apartamento que era dos meus pais e que continua no meu nome, só no meu nome. A cuidadora, dona Ivone, cuida da Marlene de segunda a sábado, e Rodrigo assume o domingo. Levo a Cecília lá uma vez por semana, geralmente no sábado à tarde, pra ela ver a avó — que já consegue apertar a mão da neta e, às vezes, esboça um sorriso torto quando a menina mostra o desenho que fez na escola.

Rodrigo me ligou semana passada perguntando se eu não queria "repensar tudo, voltar como era antes". Eu estava com a conta de luz aberta no celular, pagando o boleto do apartamento, e respondi que não. Não porque não goste dele. Mas porque já vi no que dá deixar alguém decidir minha vida achando que amor se mede em quanto a gente se apaga por outra pessoa.

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