— Sabe do que eu sinto falta? — o Artur falou no microfone, com a voz arrastada pelo uísque barato. — De uma mulher que não cheire a naftalina e cera de assoalho. Alguém jovem. Viva.
Aos sessenta e dois anos, na festa do aniversário dele, no salão de festas do Clube dos Funcionários, em Campo Grande. Fiquei parada, o garfo de metal entre os dedos. Um pedaço de quindim espetado nos dentes do garfo — lembro exatamente da gema amarela tremendo, do furinho deixado pela calda de ameixa. Ele estava de camisa azul aberta no colarinho, suando, as bochechas manchadas de vinho. O microfone chiava. Alguém riu alto — o Nivaldo, do almoxarifado, bateu a palma na mesa de fórmica branca. Outra mulher fez um “ah” falsamente escandalizado. Eu não senti raiva. Só um ruído branco, como quando desligam o rádio da cozinha no meio do jornal.
Meu coral estava encostado na parede ao fundo. Onze senhoras de blusa de renda branca, que ensaiamos durante três meses para cantar “Tocando em Frente” naquele aniversário. A dona Sebastiana, de setenta e quatro anos, ex-professora do Colégio Estadual Joaquim Murtinho, baixou a bolsa de couro até o chão. Devagar. Como se a alça tivesse ficado pesada demais. A dona Iracy, setenta e oito, sentou na cadeira de plástico e alisou a saia de linho com as duas mãos. Ela não me olhou. Nenhuma delas falou. Aquele silêncio das mulheres do cerrado quando sabem que a fila do posto de saúde vai demorar.
Eu larguei o garfo. Levantei. Contornei a mesa comprida, passei pelas travessas de farofa, pelas jarras de suco de caju. Cheguei perto do coral.
— Meninas, vamos embora. Me desculpem.
Dei as costas para o Artur sem ouvir o resto da frase dele. A dona Sebastiana pegou a bolsa devagar. A dona Iracy apoiou a mão no encosto da cadeira e se levantou. As outras — a Zilá, a Maria da Penha, a Geralda, a outra Zilá, a Cidinha, a Olívia, a Neusa, a Terezinha, a Rosa e a Fátima — me seguiram até o corredor. O chão de cimento queimado cheirava a desinfetante de eucalipto. No guarda-volumes, uma senhora de coque entregou as chaves numeradas. Ninguém disse nada. A dona Iracy, que normalmente fala dos netos e do preço do feijão, estava calada. Isso doía mais que o microfone.
— Vistam os casacos. Vou chamar dois táxis.
Saí pela porta dos fundos. Chuviscava. Maio em Campo Grande, vento frio descendo da serra de Maracaju, assobiando entre as mangueiras do estacionamento. Chamei um sedã para quatro e uma van para as outras sete. Quando voltei, elas já estavam de casaco, encolhidas perto da parede. A dona Sebastiana usava uma capa de gabardine azul. A Fátima, um casacão de lã, mesmo de noite. Aferi o relógio: 23h50.
— Fátima, Zilá, Maria da Penha e Neusa, primeiro carro. O resto, no segundo.
A dona Iracy segurou meu pulso com os dedos frios.
— Rosana, a gente entende. Não esquenta a cabeça com a gente.
Eu queria que ela tivesse me xingado. Ter me dito que eu era uma idiota por ter casado com aquele homem. Mas não — ela entendeu. Todo mundo entendeu. Fiquei na calçada até os dois carros sumirem na avenida Afonso Pena. Quando voltei ao salão, o Artur já tinha tirado a camisa e enrolado no pescoço, dançando um pagode com o Nivaldo. Ele me viu da pista de dança e acenou, feliz, como quem diz “cadê a cerveja?”. Eu não sentei de novo ao lado dele. Peguei minha bolsa na cadeira, passei a mão no ombro da Marina, minha nora, que trabalhava num banco na capital. Ela me ofereceu um copo d’água. Eu recusei.
— Fica mais um pouco, mãe — ela sussurrou.
— Fica você, querida. Eu vou dormir no apartamento da dona Iracy.
Fui embora sozinha. O Artur chegou às três da manhã, bêbado, e caiu no sofá sem encostar em mim. Na segunda-feira, eu já tinha arrumado as malas. Peguei um táxi para a casa da minha amiga Terezinha, a regente assistente. Quando ele acordou, mandei uma mensagem: “Acho melhor conversarmos outro dia. Estou na Terezinha.”
Ele respondeu às 11h: “Rosana, para com isso. Sabe que eu brinquei. Você é a mulher da minha vida.”
Eu li a mensagem três vezes. Escrevi: “A minha vida com você acabou no microfone.”
Fiquei três dias fora. Depois voltei para buscar minhas coisas. Peguei as roupas, os documentos, os dois álbuns de fotografia e a minha caneca azul de cerâmica com as iniciais R.R. escrita pela minha sobrinha. Deixei a cafeteira, as panelas, a televisão, o ventilador. Ele não estava. Fui embora sem olhar para trás.
A gente vendeu a casa de três quartos no bairro Tiradentes. Ele comprou um apartamento no Santo Antônio, perto do quartel. Eu aluguei um kitnet na Vila Glória, com janela para o quintal e um pé de jabuticaba. Meu salário de professora aposentada cobria o aluguel e sobrava para o café. Contei para a minha mãe, em Corumbá, aos setenta e nove anos. Ela ficou em silêncio no telefone. Depois soltou o ar pelo nariz.
— Eu sempre soube, Rosana.
Um ano passou. O coral mudou o nome de “Vozes do Cerrado” para “Esperança”. Continuamos os ensaios às terças e quintas, no salão da igreja Santo Antônio. Em junho, fomos bem num festival em Dourados: terceiro lugar. O Artur mandava mensagem no meu aniversário, no Natal. Eu respondia “obrigada”, “feliz ano novo”. Nada além.
Na terça-feira de maio, num dia abafado, eu ensaiava o arranjo de “Tocando em Frente”. As janelas basculantes estavam abertas, e dava para ouvir os pássaros no pé de sibipiruna da praça. Foi quando vi o vulto no corredor. O Artur, de calça jeans e camisa xadrez, segurando uma pasta de papelão pardo. O carro dele, uma caminhonete prateada, estava estacionado na porta da igreja. Ele tinha ganhado a licitação da prefeitura para reformar o telhado do salão.
Parei o ensaio com um gesto. Fui até a porta.
— Rosana… — ele começou, o pé direito riscando o chão.
— Artur, a administração da paróquia é no fundo. O padre Wilson atende depois das 16h.
Ele abriu a pasta. Tirou um documento.
— Na verdade, eu vim te entregar isto. Para você assinar.
Eu não estendi a mão. Abri a minha bolsa. Tirei uma pasta branca, fina, que eu carregava há dois meses. Entreguei a ele.
— Isso é para você.
Ele pegou com a mão esquerda, confuso. Abriu. Dentro tinha a sentença do juiz da 1ª Vara de Família. O pedido de partilha da oficina que ele tinha colocado no nome do irmão, o Mauro, dois meses antes da festa. Eu descobri quando vi o extrato do banco dele esquecido em cima da mesa da cozinha. A oficina, a Auto-Mecânica Art, valia cento e oitenta mil reais, segundo a avaliação da perícia. Eu não queria metade. Eu queria a minha parte justa para o coral.
— O juiz determinou que cinquenta por cento da oficina devem ser transferidos para mim. Eu não vou ficar com ela. Vou vender e doar o valor para o projeto “Música na Praça”, que atende idosos da Vila Glória. Já está tudo acertado com a assistência social.
O Artur ficou olhando a folha. O maxilar dele tremeu. Ele tentou sorrir.
— Rosana, isso é ridículo. Você não vai fazer isso comigo.
— Já fiz. Assinei na frente do tabelião ontem. A sua cópia está aí.
Ele amassou a ponta do papel. Ficou parado, o ventilador de teto da sacristia batendo nas costas dele. A gota de suor escorreu da testa até o queixo.
— Você… depois de vinte e seis anos… me tira a oficina?
— Não tiro nada, Artur. Só não pago mais pelos seus erros. E o dinheiro vai para quem você humilhou em rede de som. A senhora Sebastiana vai ter o remédio de pressão dela, e a Iracy não vai mais precisar pedir fiado na farmácia.
Ele fechou a pasta branca. Ficou com ela na mão, parado, como se o papel queimasse. Eu virei de costas e voltei para o salão.
A dona Sebastiana afinava o violão. A dona Iracy bebia água numa garrafinha de inox. Subi no tablado de madeira, peguei o diapasão.
— Do início, meninas. A partir do “caminhar é pera”.
Elas se ajeitaram nas cadeiras. Eu levantei a mão. O Artur continuava parado na porta, a pasta branca encostada no peito. A luz da tarde batia nas costas dele.
— E atenção na entrada da segunda voz — eu disse. — Um, dois, três, já.
O coral atacou. “Caminhar é pera, eu sei…” A voz delas subiu, encheu o salão de madeira, vazou pelas janelas abertas. O Artur ficou mais um instante, depois se virou e sumiu no corredor. Não ouvi os passos dele. Só a música. E o cheiro de chuva chegando da serra.
