Esperando na porta alheia

A mortadela vinha desaparecendo da geladeira fazia três dias. Primeiro achei que tinha comido e esquecido. Depois sumiu metade do pacote de queijo fatiado. Na quarta manhã, flagrei meu filho de seis anos, Bento, com a porta da geladeira aberta, partindo um pedaço de mortadela e enfiando no bolso da jaqueta.

— Bento.

Ele parou. Subiu os ombros até as orelhas, como se isso o tornasse invisível.

— Eu num peguei.

— Você tá com um pedaço na mão.

— Não é pra mim — disse, no tom de quem já tinha explicado tudo. Limpou o nariz com o punho e completou: — É pro Pêssego.

Quem era Pêssego eu descobri cinco minutos depois, quando o menino me puxou pela manga do roupão, atravessou a rua e parou em frente à casa da esquina, a do portão verde.

A casa estava vazia desde meados de março. Os Ferreira se mudaram rápido: num sábado entraram dois carros e uma caminhonete, os rapazes carregando sofá, caixas, uma bicicleta de criança e um colchão enrolado. A Vera ainda gritou por cima da cerca que o marido tinha arrumado emprego em Belo Horizonte e que a casa ia ser vendida, então se os vizinhos vissem gente estranha com corretor, era isso.

Gente estranha passou. Um casal de Juiz de Fora veio medir a laje. Um homem de camisa polo perguntou quanto custava trocar as telhas. E no batente, bem na frente da porta, ficava um gato.

Laranja, com meias brancas nas patas da frente e a orelha esquerda um pouco torta. Ele sentava de costas para a rua, virado para a maçaneta. Não para as pessoas. Não para os carros. Para a maçaneta da porta que ninguém mais abria.

— Ele fica lá o dia inteiro — disse Bento baixinho, como se estivesse na biblioteca. — Eu vejo da janela do meu quarto.

Quis dizer algo adulto, razoável. Que gato se apega a lugar, que ele ia arrumar casa nova, que não valia a pena se preocupar. Mas bem nessa hora o gato levantou a cabeça com o barulho de um carro passando na rua de trás. Ele se inclinou para frente inteiro. O carro passou reto. O gato baixou a cabeça e se ajeitou do mesmo jeito. E eu não disse nada.

O Bento vinha pedindo um gato havia dois anos. Mais. Pediu no aniversário de cinco, pediu no Natal, pediu numa terça-feira comum, na fila do correio. Desenhava gatos nas margens do caderno de matemática, fazia gatos de massinha, todos iguais: cabeça redonda, quatro palitos, rabão.

Eu recusava com calma, como ensinam nos grupos de mães.

— Bento, gato dá trabalho.

— Eu cuido.

— Você não guarda nem os brinquedos.

— Do gato eu cuido.

— Ração custa caro. Uma ração boa, de sessenta reais o pacote de três quilos, dura um mês.

— Eu paro de pedir salgadinho.

Aí eu travava, porque não tinha argumento. Ele estava disposto a trocar tudo: salgadinho, sorvete, desenho à noite. Uma vez trouxe o cofrinho dele e colocou na mesa da cozinha. Na primavera, arrumando a cama, achei debaixo da cama dele uma caixa de tênis. Dentro, uma toalha dobrada em quatro, uma bolinha pequena e um peixe de plástico.

— O que é isso?

— A cama.

— De quem?

— Uai, mamãe — disse ele meio impaciente, como se eu estivesse perdendo o óbvio. — Do gato. Ele precisa de algum lugar pra dormir quando vier.

A caixa ficou debaixo da cama até abril.

A gente começou a ir naquele batente todo dia. Primeiro eu levava a vasilha sozinha, enquanto o Bento estava na escola. Depois passamos a ir juntos depois do almoço. O menino carregava a garrafa pet com água e ficava todo orgulhoso, porque água é o mais fácil de derramar.

O gato não deixava a gente chegar perto. Ele se afastava três passos, sentava e esperava a gente colocar a comida e recuar. Só então se aproximava. Comia rápido, sem levantar a cabeça, e voltava pro lugar dele, na frente da porta, encarando a maçaneta.

Bento conversava com ele de longe. Agachava, punha as mãos nos joelhos e contava as novidades.

— Pêssego, hoje teve mingau na escola. Horrível. Você não ia gostar.

O gato piscava.

— Pêssego, você num tá com frio? De noite tá gelado.

De noite esfriou mesmo. Junho em Barbacena é úmido, venta forte, amanhece com névoa e a grama fica branca. A gente já tinha ligado o aquecedor, eu tinha tirado as cobertas do armário, comprado uma jaqueta nova pro Bento. E o gato continuava sentado no concreto.

Dona Zélia, a vizinha da casa de trás, falou pra mim por cima da cerca o que eu já desconfiava:

— Eles nunca levaram ele. Apareceu lá três anos atrás, de rua. A Vera falava: ele é de rua, acostumado, num vai a lugar nenhum. Num vai a lugar nenhum. Palavra boa. Conveniente.

A gente levou pro batente uma caixa de papelão, daquelas de micro-ondas, grande, com fundo duplo. Eu forrei com uma manta velha, virei a abertura pra parede e coloquei um tijolo em cima pra não voar. O gato deu duas voltas. Cheirou a quina. Espiou lá dentro como quem inspeciona um apartamento vazio. E deitou do lado. Não dentro.

— Por que ele não entra? — Bento quase chorou.

— Acho que tem medo de não ver quando eles voltarem.

Foi a resposta mais honesta que eu consegui. E me arrependi, porque na noite seguinte o menino sentou na mesa, tirou uma folha do caderno de matemática e escreveu em letras garrafais, com o S espelhado:

SE VOCÊS VOLTAREM LEVEM O GATO ELE ESPERA JÁ FAZ TEMPO

Fomos colar o papel no portão verde com fita adesiva. Ficou lá três dias, até a chuva derreter.

A caminha eu encomendei pela internet numa segunda à noite, quando o menino já dormia. Simples, redonda, com bordas altas e fundo pelado. Custou oitenta e nove e noventa no Mercado Livre. Bento acompanhou a entrega como quem acompanha reforma de apartamento. Perguntava de manhã, perguntava no carro, perguntava antes de dormir. Quando chegou a mensagem de que a encomenda estava na agência dos Correios, ele se arrumou em dois minutos, sendo que normalmente a gente procura o outro tênis pela casa inteira.

A caixa ele carregou sozinho. Era maior que ele e tapava a rua, então ele andou meio de lado e quase caiu duas vezes. A gente colocou a caminha dentro da caixa de papelão, ajeitou as pontas da manta. O gato observava de longe, de baixo de uma moita de azaléia, com uma cara que não dizia nada bom.

— Vamos — eu disse. — Na nossa frente ele não vai.

A gente se afastou até o portão e esperou. O gato se aproximou da caixa. Cheirou a borda por um tempão. Colocou uma pata, depois a outra. Amassou o fundo pelado, como gato faz quando quer testar. E de repente deitou. Não deitou desconfiado, de lado, pronto pra fugir. Deitou de verdade: enrolou o corpo, cobriu a cara com o rabo e fechou os olhos. A porta ficava a um metro. Ele nem se virou para ela.

Bento apertou meus dedos e falou bem baixinho:

— Mãe, ele tá dormindo.

— Tá.

— Então ele não tá mais esperando?

Fiquei parada, encarando aquele vulto laranja na caixa, e na garganta tinha uma coisa que eu não sabia explicar pro menino. Que às vezes um bicho deixa de esperar não porque ficou feliz. Mas porque as forças acabaram.

Na noite de quinta caiu uma chuva daquelas de verão, mas em pleno inverno. Água no quintal, tambor no parapeito. Acordei às duas da manhã. A luz do corredor acesa. Bento estava na porta da rua, de pijama e galocha no pé descalço.

— Onde você vai?

— Ver o Pêssego. O papelão vai molhar.

— Bento, é noite.

— E daí? — ele me encarou. — Pra ele tanto faz.

Fomos juntos. Eu com um guarda-chuva grande e a caixinha de transporte que dona Zélia me emprestou. O menino com um resto de mortadela na mão.

O gato estava sentado na caixa, com as patas encolhidas. A manta embaixo estava seca, mas as paredes de papelão já estavam moles. Ele nos viu. Eu coloquei a transportadora no chão, abri a portinha e recuei, sem muita esperança.

Ele levantou. Se espreguiçou. Passou por mim, pelo menino, pela porta aberta da caixinha — e parou. Virou pra tal porta uma última vez. Ficou um tempão no aguaceiro, encarando a maçaneta. Depois entrou sozinho.

Em casa, sumiu atrás da máquina de lavar e ficou lá até de manhã. Eu não forcei. Coloquei água e ração do lado, e fui deitar. O Bento dormiu com um olho aberto, tenho certeza.

Às sete ele me acordou puxando o ombro e soprando no meu ouvido:

— Mãe. Mãe! Vem. Bem quietinha.

O gato estava no quarto dele. Não na caminha nova, que a gente tinha trazido do batente e posto perto do aquecedor. Não na cama. Ele dormia dentro da caixa de tênis, em cima da toalha dobrada em quatro, do lado do peixe de plástico. A mesma que esperava debaixo da cama desde a primavera.

Bento se agachou, apoiou o queixo nas mãos e ficou uns cinco minutos parado. Depois falou baixinho, com aquele tom prático de criança de seis anos:

— Pronto. Agora você tá em casa.

O gato não acordou.

No dia seguinte eu liguei pra clínica veterinária da Rua Getúlio Vargas. Marquei pra quinta. Fomos eu, Bento e o gato dentro da transportadora. A veterinária examinou, perguntou o nome.

— Pêssego — respondeu o menino, antes de mim.

Ela aplicou a vacina e o microchip. A conta deu cento e quarenta reais. Eu preenchi a ficha. No campo «proprietário», escrevi meu nome completo: Amanda Rocha. Quando saímos, o Bento carregava a transportadora como se carregasse um troféu.

Uma semana depois, o portão verde tinha uma placa de «Vendido». No final da tarde, uma caminhonete parou na frente da nossa casa. Era o seu Ferreira. Ele desceu, meio sem jeito, e perguntou se a gente tinha visto um gato laranja.

— A Vera falou que ele assustava os compradores. Que a gente devia ter espantado ele.

Eu estava na calçada, com a vassoura na mão. Entrei, peguei a carteirinha de vacinação em cima da mesa e voltei. Mostrei pro seu Ferreira.

— Ele não assusta mais ninguém. Ele tem dono agora.

O homem leu a carteirinha. Devolveu sem pressa. Ficou um instante parado, como se fosse falar alguma coisa. Depois entrou na caminhonete e foi embora.

Em casa, na cozinha, agora tem duas vasilhas. No banheiro, uma escova de gato pendurada no box. E em todos os meus casacos pretos, pelos laranja que nenhum rolinho tira.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: