Trinta e oito e cinco

Na segunda-feira, o termômetro marcou trinta e oito e cinco. Em três anos, nunca tinha mandado uma mensagem daquelas: avisei à Renata que não ia dar conta dos meninos.

Às sete da manhã, ela estava na minha porta. Com o Davi pela mão e o Pedro carregando uma sacola de mercado quase do tamanho dele.

Se alguém me dissesse que uma febre ia me mostrar uma coisa que eu não via havia três anos, eu diria que era delírio de doente. Mas não era. Eu tinha trinta e oito e cinco, o corpo doía do pescoço até os joelhos, e na cabeça só um pensamento: e agora, quem busca os meninos?

Porque os meninos são a minha rotina. Há três anos, desde que o Davi entrou no primeiro ano e o Pedro no segundo, eu fecho a porta do meu apartamento no terceiro andar do prédio da Rua das Acácias, desço as escadas segurando o corrimão, espero o ônibus na esquina e vou buscar eles na escola. Almoço, dever de casa, banho, leitura antes de dormir. A Renata e o Ricardo chegam lá pelas seis, seis e meia, às vezes sete. Pegam os meninos e dizem: "Obrigado, dona Zélia." Eu limpo a cozinha, deixo a farda dos meninos estendida pro dia seguinte e sento no sofá pra tomar meu chá de erva-cidreira.

Zélia Ribeiro, sessenta e dois anos, aposentada como balconista de farmácia. Vinte e oito anos atrás do balcão da Drogaria Central na Rua Treze de Maio, e agora atrás do balcão da minha própria cozinha, com dois netos no lugar das receitas. Sem um único dia de folga.

Não que eu reclame. Eu me ofereci. Quando a Renata voltou da licença-maternidade do Davi, o Ricardo me chamou pra conversar. Sentou na poltrona da sala, apoiou os cotovelos nos joelhos, e eu já sabia: era coisa séria.

— Mãe, a gente não tá dando conta de pagar creche pros dois. E não tem ninguém de confiança pra ficar com eles.

O que eu ia dizer? "Não"? Pro meu próprio filho?

Então eu disse "sim". E em três anos, nunca disse "não". Até essa segunda-feira.

Acordei às cinco com a garganta em carne viva e um frio nos ossos que não passava nem debaixo de dois cobertores. O termômetro marcou trinta e oito e cinco. Fiquei deitada encarando o teto, esperando a febre baixar. Não baixou.

Às seis eu sabia que não ia conseguir levantar, me vestir, pegar dois ônibus e bancar a avó animada por oito horas.

Peguei o celular e escrevi pra Renata. Apaguei três vezes, reescrevi. Como se estivesse me desculpando. Como se fosse uma menina pedindo pra mãe dispensar da escola.

"Renata, me desculpa, mas eu tô com febre e acho que hoje não vou dar conta de buscar os meninos. Tô muito sem graça."

Mandei e fiquei esperando. Um minuto. Dois. Três. Imaginava a Renata lendo a mensagem, franzindo a testa, virando pro Ricardo: "E agora? Tua mãe ficou doente, eu tenho reunião às nove."

A resposta chegou depois de cinco minutos. Curta:

"Fica tranquila, dona Zélia. Eu resolvo. Já ligo."

E só. Nenhum "melhoras", nenhum "se cuida". Coloquei o celular debaixo do travesseiro, puxei o cobertor até as orelhas e pensei: era isso que eu esperava. Sou útil como par de braços pra cuidar dos meninos, não como gente com febre. Adormeci com essa ideia na cabeça.

Me acordou a campainha. Sete e cinco da manhã — olhei pro despertador na mesinha sem acreditar. Me arrastei da cama, enfiei o roupão, abri a porta.

No corredor estava a Renata. O Davi segurava a mão dela, e o Pedro carregava a sacola de mercado. A Renata estava de jaqueta por cima do pijama — dava pra ver a barra da calça de flanela pra fora.

— Comprei vitamina C efervescente e xarope pra garganta — disse, entrando sem pedir licença. — Pedro, põe a sacola na cozinha. Davi, tira o tênis.

— Renata, o que você… E o seu trabalho? E os meninos?

— Já liguei pra Simone, ela troca de turno comigo. E os meninos vão pra escola — o Pedro tem aula de reforço na saída, e o Davi eu deixo na porta do colégio.

Fiquei parada no corredor, de roupão e chinelo, com o nariz vermelho e os olhos remelando, sem conseguir dizer nada. A Renata, enquanto isso, pôs água pra ferver, abriu a sacola na mesa da cozinha e tirou: mel, limão, vitamina C efervescente, xarope pra garganta e um pacote de biscoito de nata. Daqueles amanteigados, da padaria do bairro, que eu compro escondido no sábado de manhã.

— Como você sabia? — perguntei, segurando o pacote.

— Que a senhora gosta? O Pedro me contou. Ele disse que a avó sempre dá um pra ele depois do almoço, escondido do Davi.

O Pedro estava parado na porta da cozinha, me encarando com cara de quem entregou um segredo. Eu ri — e na mesma hora tosse, aquela tosse seca que arranha.

— Vai deitar, dona Zélia — disse a Renata num tom que eu nunca tinha ouvido. Firme, mas macio. — Eu cuido de tudo.

— Renata, não precisa…

— Precisa sim.

Ela ajeitou meu cobertor, do jeito que eu ajeito a do Davi.

— Três anos a senhora não faltou um dia. Nem um. No mês passado, que a senhora tava com dor no joelho, foi buscar os meninos mesmo assim e ainda fez almoço. A senhora acha que a gente não percebe?

Deitei e fiquei ouvindo a Renata fazer café na minha cozinha. O barulho das xícaras, a risada do Davi, o Pedro falando "shhh, a avó tá dormindo". A Renata respondendo em tom baixo, abrindo e fechando a geladeira.

Depois de uns vinte minutos, ela entrou no quarto com uma bandeja. Chá com mel e limão, duas torradas, um copo de vitamina C efervescente borbulhando.

— Os meninos querem se despedir — disse.

Entraram na ponta dos pés, como se fosse um quarto de hospital. O Davi colocou na minha cama um desenho: eu deitada, com um cobertor listrado, e um sol amarelo enorme no canto do papel. Embaixo, com letra torta de seis anos: "vovó melhore" — e um coração.

O Pedro ficou parado, com as mãos no bolso do uniforme.

— Vó, hoje eu volto sozinho da escola. A senhora não precisa se preocupar.

Oito anos e me falava como um homem adulto.

Quando saíram, a Renata ficou mais uns dez minutos. Lavou a louça, deixou a cozinha em ordem e um bilhete na mesa: "Tem canja na panela — é só esquentar em fogo baixo. À noite eu ligo. Não levanta."

Fiquei deitada no apartamento quieto, com o desenho do Davi na cama e cheiro de limão no ar, e chorei. Não de tristeza. De uma coisa que não sei nomear. Talvez alívio. Talvez espanto.

Durante três anos eu tive certeza de que meu papel naquela família era ser infalível. Que enquanto eu fosse útil, eu era necessária. E quando não desse mais conta, ia virar um estorvo.

E aí descobri que a Renata sabia do biscoito de nata. Que o Pedro lembrava da minha dor no joelho. Que o Davi desenhava sóis quando a avó adoecia.

À noite, a Renata ligou, como prometido. Perguntou da febre, da garganta, se eu tinha comido a canja. E depois disse uma coisa que eu vou guardar:

— Dona Zélia, eu sei que a senhora acha que é importante pra gente porque cuida dos meninos. Mas eu quero que a senhora entenda: os meninos precisam da avó. São coisas diferentes.

Não respondi. Tinha um nó na garganta — e dessa vez não era dor de garganta.

Na terça, a febre baixou. Na quarta, eu queria ir buscar os meninos, mas a Renata mandou mensagem: "Hoje a senhora fica em casa mais um dia. Eu dou conta. Por favor."

Na quinta, voltei. Fiquei na porta da escola, vi o Davi correr no meu sentido com os braços abertos, como se não me visse fazia um mês.

E na sexta eu fiz uma coisa que vinha adiando fazia tempo.

Fui à Caixa Econômica. Peguei senha, sentei numa cadeira de plástico azul, fiquei encarando o painel vermelho piscar as chamadas. Na sala, uma televisão passava uma novela antiga, daquelas que reprisam de tarde. O ar tinha cheiro de papel e café frio da copa dos funcionários.

Quando chegou a minha vez, a moça do caixa perguntou:

— A senhora quer abrir conta?

— Duas. Uma pra cada neto.

Abri duas cadernetas de poupança. Depositei duzentos reais em cada uma. E deixei autorizado: todo dia cinco do mês, cinqüenta reais entram em cada caderneta. Enquanto eu receber a aposentadoria, os meninos vão juntar.

A moça me entregou os papéis. Os livros azuis com o logo da Caixa. Eu guardei na bolsa e voltei pra casa.

No domingo, a Renata veio trazer os meninos pra passarem o dia. Sentou na cozinha, tomou um café, perguntou da garganta. Eu esperei os meninos irem pra sala ver desenho e fui ao quarto. Voltei com as duas cadernetas na mão.

— O que é isso? — Renata pousou a xícara na mesa.

— Caderneta de poupança. Uma pro Davi, outra pro Pedro.

Ela abriu uma, depois a outra. O saldo aparecia na primeira página. Duzentos reais em cada.

— Eu abri na sexta. Todo mês eu coloco cinqüenta reais pra cada um. Enquanto eu viver.

A Renata ficou com as cadernetas na mão. A testa franziu. Tomou fôlego pra responder, mas não saiu som.

— Dona Zélia, a senhora não precisa…

— Eu sei que não preciso. É que eu quero.

Ela levantou, foi até a janela da cozinha e ficou de costas, encarando o varal do prédio da frente. Eu via a mão dela segurando firme as cadernetas.

No pátio, o Pierre, o cachorro do vizinho do andar de baixo, começou a latir prum gato. Nenhuma de nós duas falou sobre o latido.

— Eu não sei o que dizer — ela disse.

— Não precisa dizer nada. Só guarda isso com os documentos deles. Quando fizerem dezoito anos, tem o primeiro dinheiro pra vida.

A Renata voltou pra mesa, colocou as cadernetas na bolsa. Depois me abraçou. Um abraço daqueles que demora, que não tem pressa.

— Dona Zélia, a senhora quer jantar lá em casa no sábado?

— Quero.

— Então tá. Sábado, às sete. Eu faço lasanha.

Ela soltou, pegou a bolsa, foi pra sala chamar os meninos. Antes de sair pela porta, virou:

— E traz o biscoito de nata que a senhora mais gosta. Pro café.

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