Noventa e sete vezes. Foi esse o número de vezes que pensei em vender o fusca, comprar uma passagem e ir atrás dela nos últimos cinquenta anos. Noventa e sete adiamentos. Guardei cada centavo que não gastei em casamento, filhos ou jantares românticos. Aos setenta e seis anos, a conta bancária era gorda, mas a vida era um vazio de tardes de domingo com o radinho de pilha ligado na Rádio Globo. Até que, numa noite de quarta-feira, Laura me achou pelo Facebook. Ela, que nunca gostou de computador. A foto do perfil era a mesma que eu guardava na carteira, desbotada e amassada, do baile de formatura do Santa Inês em 1974.
Conversamos por vídeo todas as noites durante sete meses. Ela em Goiânia, eu ainda no apartamento alugado em Ribeirão Preto. Eu mostrava a vitrola antiga, ela mostrava as orquídeas na varanda. Duas pessoas com fios brancos demais para caber numa tela de celular. Numa sexta-feira, depois de um silêncio diferente, ela me mandou uma mensagem de texto, curta e definitiva: "Rua dos Ipês, 417. Talvez a vida ainda nos deva alguma coisa, José."
Eu vendi o fusca para o filho da síndica por oito mil reais, botei minha escova de dente e três camisas de botão numa mala pequena e fui até a rodoviária. Comprei uma passagem só de ida, poltrona 21, ônibus leito da Expresso Itamarati. Não avisei ninguém. Não tinha ninguém para avisar. Enquanto o ônibus manobrava para sair da plataforma B, senti o cheiro de café velho misturado com o diesel do escapamento. O céu estava roxo anunciando tempestade. Sentei, apertei o cinto e vi, pelo reflexo da janela, um homem de idade que eu evitava encarar no espelho havia décadas.
Quatro horas de viagem. Na altura de Uberaba, o telefone tocou. Número desconhecido. Deixei tocar três vezes, achei que fosse engano. Na quarta, atendi com um pigarro seco.
— É o senhor José Augusto? — a voz de uma mulher, tensa, como quem segura um pranto.
— Ele mesmo. Quem fala?
— A senhora Laura enviou o endereço para o senhor — ela respirou fundo, com um ruído esquisito na linha, um farfalhar de papéis. — Mas não era para o senhor ir até a casa dela.
Levantei tão rápido que a maleta no bagageiro acima de mim soltou a trava e caiu no corredor. O passageiro da frente resmungou.
— Como assim? — perguntei, me equilibrando. — Ela mesma me mandou. Disse que a vida ainda…
— A vida não deve nada, seu José. Não para a Laura. — a voz dela ficou áspera. — Ela mandou o endereço para o senhor achar o que ela deixou, e não a ela mesma.
— Do que você está falando? Quem é você?
— Lílian. A filha dela. O senhor não sabe, não é? Ela não ia contar por telefone. Ela queria que o senhor visse com os próprios olhos. — uma pausa. — Minha mãe faleceu ontem à noite.
A frase pegou no meu peito como um estilhaço de vidro. Cinquenta anos esperando. Sete meses de mensagens e planos. E eu estava no meio do Triângulo Mineiro, com uma passagem sem volta e um endereço que já era túmulo.
— Ela sofreu muito esses anos, seu José. O senhor sumiu. A vida não foi fácil para nós. E, para ser franca… ela pode ter gostado do senhor, mas a minha preocupação é com o que o senhor vai encontrar no número 417.
O ônibus freou para pegar um quebra-molas. Eu vi, pela janela embaçada, uma placa de um posto de gasolina: "Próxima parada: Itumbiara". O céu estava escuro. Pessoas corriam para a lanchonete com sacolas na cabeça.
— Eu não quero nada da sua mãe, dona Lílian. Não preciso de herança.
— O senhor não está entendendo. Na casa, minha mãe deixou um envelope pardo. Eu já abri. Tem o nome do senhor, uns papéis antigos e uma quantia em dinheiro vivo. Quarenta e três mil reais. Um dinheiro que eu não sabia que existia. E eu não vou entregar para um estranho que apareceu no Facebook depois de meio século.
O ônibus reduziu a marcha, desviando de uma carreta tombada no acostamento. Foi quando eu vi, muito além da curva, uma parada de ônibus solitária. Uma mulher de idade avançada, com um vestido estampado e uma sacola de supermercado, estava parada sob a marquise, olhando para o meu ônibus como se esperasse alguém. O coração disparou. Mas não era ela. Era uma senhora qualquer, tentando se proteger da chuva que começava a cair.
— Dona Lílian, me diga uma coisa — comecei, sentindo a veia do pescoço pulsar. — Quanto você quer?
— Como?
— Quanto você quer para me dar o envelope? Eu pago. Pelo trabalho, pela sua boa vontade.
Eu tinha o dinheiro da poupança no banco. Duzentos e quarenta mil. Nunca gastei com ninguém. Nunca precisei.
— O senhor está querendo me subornar?
— Estou querendo chegar e ver o que sua mãe queria que eu visse. Só isso.
Ela ficou em silêncio por um tempo, e a chuva começou a bater forte contra o teto e as janelas do ônibus.
— O senhor desce na rodoviária de Goiânia. Eu vou buscar o senhor. Às oito em ponto. — e desligou.
Passei o resto da viagem olhando para o telefone, para a conversa com a Laura, as fotos do jardim com orquídeas. Eu escrevia "Estou a caminho" para o ícone que nunca mais ficaria com o visto azul. Apaguei. Escrevi de novo e apaguei.
Às oito e sete da noite, a rodoviária estava quase vazia. O ar cheirava a pão de queijo e desinfetante. Uma mulher de uns cinquenta anos, cabelo curto seco e alisado, me esperava encostada num Corolla prata.
— É o senhor? — ela era magra, usava um terninho simples, mas seus olhos eram duros, sem nenhum calor que me lembrasse a Laura.
— Sou eu.
— Vamos.
Entrei no carro. O cheiro de cigarro frio dominava o ar-condicionado. Ela dirigia com as duas mãos no volante, olhando sempre para frente.
— Ela sofreu muito — repetiu, mas desta vez com menos raiva. — Eu só quero saber uma coisa: por quê? Por que o senhor nunca voltou?
A pergunta era um soco. Eu não sabia a resposta para mim mesmo. Tinha medo? Decepcionei? Deixei a vida passar achando que o amanhã dava jeito? Enquanto eu juntava palavras que não existiam, o carro entrou numa rua arborizada. Casas antigas, muros baixos. Parei de respirar quando vi o número 417.
Era uma casa de janelas azuis e um jardim cheio de orquídeas. Mas o portão estava fechado, e uma faixa preta estava esticada na varanda.
— Você vai entrar sozinha? — perguntei.
— Não vou entrar — ela respondeu, abrindo o porta-luvas. Tirou um envelope pardo. — Pegue.
— Mas você disse que não entregaria.
— Não entreguei. O senhor pagou — ela abriu um sorriso sem alegria. — Com o seu tempo, seu José. Cinquenta anos. Cada minuto dela aqui sozinha. Acho que está pago.
Ela jogou o envelope no meu colo como quem joga uma esmola.
— Abra.
Abri o envelope com os dedos tremendo. O dinheiro estava lá, em notas de cem, úmidas e velhas. Mas tinha outra coisa: um contrato de compra e venda de um terreno no Setor Marista. Um terreno que valia muito mais que quarenta e três mil. Valia quase meio milhão. Escrito, com a letra da Laura: "Para o José construir nossa casa. Cheguei atrasada, meu bem."
Minha vista embaçou.
— Ela estava juntando para quando eu voltasse…
— Ela era teimosa — disse a filha, com a voz muito mais mansa agora. — Mas eu também sou. Esse dinheiro e o contrato estão no nome do senhor. Eu não posso tirar. Mas eu queria ver se o senhor era um velho qualquer tentando dar o golpe numa velha solitária. Se fosse, eu deixava o senhor na rodoviária com a valise vazia e um processo nas costas.
Peguei o maço de dinheiro. Estava mofado, guardado em baixo do colchão, talvez. Coloquei tudo no envelope outra vez.
— E agora? — perguntei.
— Agora o senhor decide. O velório foi hoje de manhã. Só tinha eu e o pastor. Se quiser, posso levar no cemitério. Se não quiser, a rodoviária está aberta para comprar a passagem de volta.
Olhei para a janela da casa. Para as orquídeas na varanda dela. Laura nunca foi de igreja. Ela acreditava em flores. Em chuva. Em gente.
— Dona Lílian — eu me virei para ela, sentindo o peso do envelope e do tempo. — A senhora vai vender essa casa?
— Ela era alugada. O contrato vence mês que vem.
— Então vamos fazer o seguinte: esse dinheiro — eu bati no envelope — vai comprar o jazigo novo para ela. O resto… a senhora fica com tudo. Eu só quero levar as orquídeas.
Ela ficou me olhando, estática. O motor do carro roncando baixinho.
— E o senhor? — ela perguntou. — Vai voltar para São Paulo?
— Não voltei ainda. — eu abri a porta do carro e saí. A chuva tinha parado. O chão de terra batida no jardim estava macio. Peguei uma orquídea que estava solta, com as raízes encharcadas.
— Vou comprar aquele terreno que ela queria. Construir uma casa baixinha, com rede na varanda. E vou esperar. Não mais cinquenta anos. Só o tempo que tiver.
Entrei no jardim, pisei sem pedir licença. A filha desceu do carro, mas não me seguiu. De longe, ela gritou:
— Seu José! A chave da casa! Esqueceu a chave!
Eu nem olhei para trás. A chave não me servia. A casa que a Laura planejou para nós ainda não existia. Mas o terreno, aquele estava em meus bolsos, na forma de um contrato amassado.
Caminhei pela calçada deserta, com a muda da orquídea na mão, sentindo o cheiro da terra molhada invadir meus pulmões. O Corolla prata deu a partida e foi embora devagar. Eu era um velho com um envelope no bolso e uma raiz na mão, procurando um táxi na chuva que começava outra vez. A cidade era estranha, mas o ar, aquele, era o ar que a Laura respirava. E pela primeira vez em cinquenta anos, eu não estava adiando nada.
Comprei uma carrocinha de pão de queijo na esquina com o meu último dinheiro vivo. A mocinha do carrinho me perguntou se eu estava perdido. Respondi que não. Que tinha chegado.
