Naquela terça-feira, aproveitei a soneca do Lucas para enfim colocar a roupa suja na máquina. Abri a mochila do Marcelo e fui conferindo os bolsos da bermuda jeans que ele usara na noite anterior, quando saíra para jantar com a mãe. No bolso traseiro, meus dedos acharam um papel dobrado, já meio amassado. Era o croqui com a distribuição das mesas do Villa Borghese, restaurante italiano no Jardim Europa, onde aconteceria a festa de um ano do nosso filho. No topo, letras douradas: “Primeiro aniversário do Lucas”.
Li os nomes em voz baixa. Mesa um: Dona Isaura e Dr. Olavo Vasconcellos, o marido novo. Mesa dois: os primos afastados do Marcelo. Mesa três: os colegas da Dona Isaura do escritório de advocacia. Vinte e sete lugares. Repassei a lista três vezes. Sandra e Valdomiro — meus pais — não estavam em canto nenhum.
A porta do banheiro se entreabriu, Marcelo surgiu com uma toalha no ombro, procurando o carregador do celular. Ele estancou ao me ver com o papel.
— Onde estão meus pais nessa lista? — eu perguntei, sentindo o sangue pulsar nas têmporas.
Ele desviou o rosto, coçou a nuca.
— Ah, Carol… minha mãe conversou com eles ontem. A dona Sandra falou que vocês estão com uns problemas lá no sítio, que não iam dar conta de viajar. Ela só organizou as coisas pra aliviar o nosso lado. Não esquenta, é festa.
Não respondi. Peguei o telefone, saí para a varanda e liguei para minha mãe. O celular chamou até o último toque.
— Alô, filha? — a voz dela veio arrastada, como se tivesse ensaiado o que diria.
— Mãe, por que vocês não vão ao aniversário do Lucas? Me conta a verdade.
Dona Sandra soltou um suspiro comprido.
— Carol, a gente aqui pensou bem… Pra que se deslocar? A Dona Isaura me ligou anteontem e explicou tudo direitinho. O restaurante é chique, com vestido longo, essas coisas. Teu pai ia ter que aparecer com o velho sapatênis dele, aquela camisa xadrez… Ela disse que o chefe do escritório vai, que é evento pra fortalecer contato. E que não era lugar pra gente simples. Falou que depois mandava as fotos. Nós não vamos, filha. Festa de verdade a gente faz aqui em casa outro dia.
Fechei os olhos. Não era só a prepotência daquela mulher. Era a memória do último ano inteiro — noites em claro com a cólica do Lucas, Marcelo saindo antes do sol nascer e eu desabando de cansaço no chão da cozinha. Dona Sandra pediu férias, dormiu três meses no nosso sofá duro, ninou o neto para eu ter ao menos duas horas seguidas de sono. Seu Valdomiro, todo fim de semana, pegava a estrada de terra de mais de cem quilômetros com a Kombi lotada: queijo, ovos caipiras, garrafa de leite fresco. Quando o carrinho do bebê quebrou, ele levou a estrutura para a garagem, desmontou tudo e devolveu melhor do que novo.
Dona Isaura apareceu exatamente quatro vezes. Entrava na sala com perfume importado, calçava aqueles protetores descartáveis sobre o salto alto, pegava o Lucas no colo, fazia três selfies com a legenda “Meu anjo! Que benção ser avó” — e ia embora em vinte minutos porque tinha reunião. Na última visita, trouxe um chocalho de plástico.
Respirei fundo. Disquei para a sogra.
— Carol, querida, fala bem rápido que estou numa audiência por videoconferência — a voz dela, sempre untuosa.
— Dona Isaura, com que autoridade a senhora tirou meus pais da lista de convidados?
Ouvi o clique do fone sendo reposicionado. O tom ficou mais doce, quase professoral.
— Minha filha, eu só cuidei deles. Você sabe que no Villa Borghese o menu é fechado, cinco etapas, tem sommelier. Teu pai ia pedir arroz com feijão e o garçom não entender. Eu poupei seus pais do constrangimento. Além disso, o Dr. Olavo vai levar o sócio sênior da banca. É uma oportunidade para o Marcelo. Teu pai falaria sobre o quê? Gado leiteiro? Vocês precisam entender as coisas.
— A senhora está dizendo que meus pais envergonhariam a família.
— Eu estou nomeando os fatos. E, de qualquer jeito, a reserva já está paga, as mesas confirmadas. Não vamos criar caso.
Senti o estalo dentro de mim. Não adiantava gritar.
— A senhora tem toda razão, Dona Isaura. Não vamos estragar a festa.
Desliguei. Marcelo me encarava do sofá, aliviado.
— Viu? Ela só quer o melhor pra gente.
— Viu, sim. Confia em mim.
Na quarta de manhã, assim que Marcelo foi para o escritório, coloquei o Lucas na cadeirinha e rumei para o Villa Borghese. O salão vazio cheirava a cera e café fresco. O gerente, um rapaz de terno impecável, me atendeu. Mostrei meu documento, o comprovante da transferência de R$ 6.200,00 que eu havia feito da minha conta pessoal.
— O evento de sábado, em nome de Isaura Vasconcellos. Quero cancelar. A devolução pode ser feita neste mesmo cartão, mesmo com a taxa de cancelamento.
O gerente conferiu o monitor e assentiu. Em três dias o valor cairia na conta.
Saí de lá com o protocolo na bolsa e uma certeza na cabeça. Peguei o extrato da aplicação que eu mantinha havia três anos para trocar de carro. Fui à concessionária Fiat, escolhi uma Toro vermelha, cabine dupla. Paguei à vista com o dinheiro resgatado mais o valor que voltaria do banquete. Pedi para o documento sair no nome de Valdomiro Alves de Souza — meu pai — e retirei o envelope com o manual e a chave codificada.
Na sexta-feira, às seis da manhã, eu estava no corredor de casa. Mochila nas costas, Lucas vestido com um macacãozinho xadrez, dentro da cadeirinha. Calça jeans, tênis, camiseta. Marcelo apareceu na sala de pijama, esfregando os olhos.
— Carol, o que é isso? A gente tem que estar no restaurante ao meio-dia de amanhã, você ainda tem que se arrumar, o cabeleireiro…
— O banquete foi cancelado, Marcelo. Eu cancelei. A gente vai passar o fim de semana no sítio dos meus pais. A festa do Lucas vai ser lá.
Ele arregalou os olhos, o rosto foi do branco ao vermelho em segundos.
— Você cancelou? Minha mãe chamou o escritório inteiro! O Dr. Olavo, o sócio, o juiz… Ela vai passar vergonha na frente de todo mundo!
— Vergonha é o que ela fez com meus pais. Agora são sete horas, estrada está livre. Você tem dez minutos para trocar de roupa e entrar neste carro. Ou pode ficar, ir de terno até o restaurante fechado e explicar para os convidados o que houve. A escolha é sua.
Fui para a garagem. Cinco minutos depois, a porta do carona se abriu. Marcelo entrou de moletom, calado. Arranquei.
No sábado, às 13h40, Dona Isaura parou em frente ao Villa Borghese com um vestido vinho, colar de pérolas e um salto que a deixava dez centímetros mais alta. O Dr. Olavo segurava o braço dela, atrás vinham os colegas do escritório e, por último, o tal sócio sênior com a esposa.
O grande hall estava iluminado, mas não havia balões com o número um, nem crianças, nem música de animador. Só um grupo de homens de crachá entrando para um congresso de administradores. Dona Isaura avançou até a recepção.
— Onde está a festa do Lucas? Reserva Vasconcellos.
A atendente consultou o sistema, chamou o gerente.
— Senhora, o evento foi cancelado pela contratante na quarta-feira. O valor foi estornado. O salão está reservado para outro cliente.
Dona Isaura cambaleou. O Dr. Olavo a segurou pelo cotovelo. O sócio sênior resmungou qualquer coisa, virou as costas e foi embora com a esposa sem se despedir. Ela ficou ali, o celular na mão, discando freneticamente. Ligou para Marcelo: caixa postal. Ligou para mim: mesma coisa. O colar de pérolas balançava, como se acusasse o tombo do império minúsculo que ela construíra.
Naquele mesmo instante, a três horas dali, em São Sebastião das Águas Claras, sul de Minas, o ar cheirava a eucalipto e fumaça de churrasqueira. Seu Valdomiro, de avental, virava pancetta e linguiça na grelha, enquanto Dona Sandra mexia o arroz com pequi no fogão a lenha. O Lucas, descalço, batia palmas para o avô, rindo com os quatro dentinhos de cima.
Chamei meu pai para perto da mesa de madeira. Tirei da bolsa o envelope pardo e coloquei na mão dele.
— Abre aí.
Ele desdobrou o documento, franziu a testa, depois viu o controle da chave. Os olhos marejaram.
— É sua. A Dona Isaura me devolveu o dinheiro da festa, e eu fiz uma coisinha melhor com ele.
Ele me abraçou sem dizer palavra. Depois pegou o neto no colo e saiu para mostrar a Toro estacionada perto do curral.
Marcelo estava sentado no banco da varanda, com uma garrafa de cerveja na mão. O celular vibrava sobre a tábua da mesa, a tela acendia e apagava com o nome da mãe. Ele conferiu o visor, depois ergueu os olhos para mim, para o filho, para o sogro que ria alto perto do carro novo. Desligou o aparelho e o guardou no bolso. Levantou, foi até a churrasqueira e pediu ao sogro para assumir a grelha.
Dona Sandra serviu o bolo de fubá, e eu finquei a velinha número um no centro. Quando a chama tremeu com o vento da serra, o Lucas bateu palmas de novo, e o Valdomiro, encostado na porta da Toro, fez soar a buzina como se fosse um parabéns.
No porta-retrato da sala da fazenda, mais tarde, coloquei a foto do dia: nós quatro, com o bolo de fubá e uma chave de carro pendurada no dedo do meu pai, sem pose, só bagunça e fumaça de churrasco ao fundo.
