Ela acordou com o pé descalço procurando o chinelo no lado frio da cama, um gesto automático de quase vinte e cinco anos de casamento. O sol de Petrópolis furava a cortina fina, iluminando partículas de poeira que flutuavam lentas. Seu Januário tinha partido numa terça-feira de ventania, debaixo de uma goiabeira carregada, enquanto podava um galho mais alto. O infarto veio antes do corpo bater no chão. Ficaram dona Eunice, os dois filhos adolescentes e o Sombra, um gato preto de pelo áspero que pesava uns bons oito quilos e agora passava os dias largado na poltrona de couro sintético onde o dono assistia ao futebol.
Dois anos se arrastaram. Eunice tocava uma pequena confecção de uniformes escolares em casa e fazia bicos de costura para uma loja no centro. Dormia tarde, entre retalhos e linhas, só para desabar exausta e não ter tempo de pensar. Mas o pensamento vinha no escuro, pontual como conta de luz.
Naquela quinta-feira, exatos dois anos depois do enterro, ela apagou a máquina de costura já passando da meia-noite. O Sombra, que nunca subia na cama — Januário não deixava —, pulou no colchão com um miado curto e seco e se acomodou na dobra dos joelhos dela. Eunice afundou no sono como quem cai num poço. E viu o marido. O cheiro de fubá de milho que ele sempre tinha nas mãos. A risada rouca. A conversa fiada sobre o Botafogo e sobre como a amendoeira da rua precisava de uma poda. Passaram a madrugada ali, naquele lugar que não era bem um lugar, mas que tinha o sofá da sala e o relógio de parede marcando sempre a mesma hora. Quando o despertador tocou, ele prometeu voltar na noite seguinte.
E voltou. O gato subia na cama, ela dormia, Januário aparecia. Eunice entendeu a mecânica e passou a olhar para o Sombra com uma reverência quase religiosa. Comprou sachê importado. O gato nem deu bola — continuou dormindo vinte e duas horas por dia na poltrona do dono, roncando como um motor de geladeira.
Assim passaram trinta e uma noites.
Na última, o cenário do sonho mudou. Estavam sentados no banco da Praça da Liberdade, aquele onde se conheceram numa quermesse de São João, em mil novecentos e oitenta e sete. Ele pegou a mão dela e a abriu, palma para cima, examinando as linhas.
— Eunice, hoje eu vim me despedir.
Ela puxou a mão. O vestido de chita que usava no sonho esvoaçou com o movimento brusco.
— Não. De jeito nenhum. Você disse que sempre ia estar aqui. Você prometeu.
— E eu tô. Mas você tá vivendo dentro de um sonho, meu bem. As crianças tão crescendo e você não viu que o Tiago entrou na faculdade. Não viu que a Marina pintou o quarto de amarelo. Você tá dormindo acordada há dois anos.
Ele levou a mão fechada ao peito dela. O punho tocou o esterno.
— Eu tô aqui. Agora você precisa me deixar ir. Viver não é esperar.
Ela chorou no sonho e acordou com o rosto molhado, o travesseiro úmido e frio. Ficou um tempo olhando para o teto, ouvindo o barulho de um carro da coleta de lixo na rua. Levantou, fez café, passou margarina no pão para os filhos e não disse nada quando eles saíram.
Só perto das dez notou o silêncio diferente. A poltrona de Januário estava vazia. Não havia gato na cozinha, não havia gato no banheiro. Eunice revirou guarda-roupas, enfiou a cabeça embaixo das camas, desceu até a garagem. Nada. Calçou um tênis e saiu para a rua, o coração batendo num descompasso que doía na garganta. Deu a volta no quarteirão, perguntou ao seu Miguel da mercearia, mostrou foto para a moça que varria a calçada da igreja. O gato simplesmente evaporara.
Quarenta minutos depois, ela se sentou na escada de pedra do sobrado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos penduradas. Pensava no que diria à Marina quando ela voltasse da escola. O Sombra era, de algum modo, o último fio que a ligava a Januário.
Foi quando um pigarro veio do lado esquerdo. Eunice virou a cabeça. Um homem de cabelo branco, desgrenhado, blusa de malha azul-marinho e calça de linho, estava sentado no terceiro degrau, com as costas meio curvadas. Ele se virou e ela viu um rosto aberto, queimado de sol, com rugas finas ao redor dos olhos.
— A senhora que me desculpe, mas olha o que aconteceu.
Ele abriu a mão direita, grande e calejada, e dentro dela, enrolado como uma bola de meia escura, cabia um gato. Um filhote preto, minúsculo, que miava baixinho e tremia.
— Eu tava dobrando a Rua Silva Jardim, ele saiu debaixo de um carro e subiu pelo meu cadarço. Desde então não quer mais sair da minha mão. Tava pensando no que fazer.
Eunice olhou para o gato. Depois para o homem. Depois de novo para o gato. As patinhas dele mal cobriam a falange do polegar do velho.
— Me dá ele.
Saiu mais brusco do que ela pretendia. O homem ergueu as sobrancelhas grisalhas.
— Me dá ele, por favor. É importante.
O velho transferiu o bichano para as mãos de Eunice com o cuidado de quem passa uma xícara de porcelana. O filhote parou de tremer no instante em que tocou a palma dela. Fechou os olhos e começou a ronronar, um motorzinho minúsculo que vibrava nos dedos.
— A senhora quer que eu…?
— Não. Quer dizer, sim. O senhor aceita um café? Com um pedaço de bolo de fubá? A padaria aqui da esquina tem um bom.
O homem coçou a nuca e deu um sorriso tímido.
— Ih, dona, bolo de fubá e café é apelo. Não vou recusar.
Entraram. Eunice puxou uma cadeira para ele na cozinha, serviu o café e cortou duas fatias generosas do bolo que a vizinha, dona Nilda, trouxera no dia anterior — "para animar", ela dissera. O gato, enquanto isso, explorava o piso da sala com passos trôpegos, cheirando os cantos, até que achou a poltrona de couro sintético. Parou, miou uma vez bem agudo e tentou escalar o móvel. Não conseguiu. Eunice o colocou lá em cima com um gesto suave.
E então, em pé, com a bandeja de café na mão e os olhos fixos naquela coisinha preta que agora se ajeitava no assento gasto da poltrona, ela respirou fundo. A mão livre foi até o bolso do avental e tocou a tela do celular.
— Só um instante — pediu ao velho.
Desbloqueou o telefone com a digital, abriu o aplicativo do banco e digitou a senha de seis dígitos. Fez uma transferência de mil e duzentos reais para a ONG que cuidava de animais abandonados no bairro. Colocou na descrição: "Em memória de Januário Almeida, no dia de hoje." A confirmação chegou em três segundos com um bip seco. Era o primeiro pagamento que fazia em nome dele desde o funeral. Durante dois anos, a poupança conjunta ficara intocada — ela só mexia na conta da confecção. Agora o dinheiro saía com um propósito, pequeno mas exato, e o extrato mostrava a data e a hora.
Ela guardou o celular, serviu o café e sentou-se à mesa.
O velho, que se chamava Aloísio, contou que era viúvo também, que morava em Correias e viera a Petrópolis resolver uma papelada do INSS. Eunice ouviu, fez uma pergunta ou outra, e reparou pela primeira vez que o relógio de parede — aquele que no sonho sempre marcava a mesma hora — tinha voltado a funcionar. Ela nem se lembrava de ter trocado a pilha.
