O ônibus parou às cinco e meia da tarde na rodoviária de São Sebastião, e dali peguei o único táxi disponível até a pousada. O motorista não puxou conversa. Viu minha mala pequena, a ausência de alguém do lado e deduziu certo: eu não queria falar. A estrada beirava o mar, e a cada curva eu sentia o cheiro de sal entrando pela janela, misturado com o mormaço do asfalto. Era janeiro, e todas as praias entre Maresias e Camburi estavam cheias, mas a pousada ficava numa ponta mais deserta, quase esquecida, perto do costão. Eu precisava exatamente disso: semanas em que ninguém me perguntasse sobre o divórcio.
A proprietária, dona Iolanda, me entregou a chave do chalé número quatro com um sorriso cansado de quem já viu de tudo em vinte anos de balcão. O chalé era simples: cama de ferro, uma rede na varanda, piso de cimento queimado. Deixei a mala num canto e fiquei ouvindo o silêncio. Minha mãe já tinha mandado três mensagens desde a rodoviária. Respondi com um “cheguei bem” e desliguei o celular.
Na primeira manhã, tomei café sozinha, evitando as mesas onde famílias riam alto. A pousada tinha uma saída direta para a praia, e eu caminhei até a faixa de areia onde os coqueiros faziam sombra. Sentei numa cadeira emprestada e li metade de um livro, mas minha cabeça voltava para a audiência de partilha, para o apartamento vazio, para as roupas do Rafael que ainda estavam no armário porque eu não tivera coragem de tirar.
Foi na volta, perto das lixeiras atrás da barraca de peixe frito, que eu a vi. Uma cadela esquálida, costelas aparentes, pelo amarelado encardido. Mancava da pata traseira direita, que mal tocava o chão. Estava tentando arrancar uma espinha de peixe de um saco plástico, enquanto dois vira-latas maiores rosnavam por perto. Ela não reagiu, só recuou com a cabeça baixa, atravessando a rua de terra e se enfiando debaixo de um carrinho de coco abandonado.
— Essa aí não é de ninguém, não, — disse o rapaz da barraca, limpando a grelha. — Apareceu faz um mês, mais ou menos. Magra desse jeito desde sempre.
Não falei nada. Voltei para o chalé, mas a imagem das costelas e da pata bamba grudou em mim.
Na noite seguinte, comprei um espetinho de frango extra e levei até o carrinho de coco. A cadela estava lá, deitada na sombra, ofegante. Assim que me viu, levantou e deu dois passos para trás, travando a uma distância de uns cinco metros. Não avançou. Apenas sentou e me encarou. O olho direito era castanho claro, o esquerdo quase mel, e havia uma ferida cicatrizada na orelha esquerda.
Apoiei o pratinho de isopor no chão e recuei. Ela esperou. Dez, quinze segundos. Depois foi se aproximando devagar, como se cada passo fosse negociado. Só comeu quando eu já estava longe o suficiente para não representar ameaça.
Na terceira noite repeti o ritual, e na quarta ela já estava esperando na esquina da rua de terra antes mesmo de eu descer para a praia. Continuei com o pratinho, o recuo, a espera. Às vezes eu falava com ela, um tom baixo: “Hoje tem frango de novo” ou “Amanhã eu trago carne”. Ela me olhava e meneava a ponta da cauda, um movimento seco, ainda sem confiança total.
Chamei-a de Caramelo. Não era um nome criativo, mas era o que ela parecia: um caramelo queimado, irregular. E, de alguma forma, o nome fez com que ela deixasse de ser uma vira-lata manca entre dezenas e se tornasse a minha cadela de praia.
Dona Iolanda me encontrou na quinta manhã, agachada na calçada da pousada, esfregando a barriga da Caramelo com um pedaço de toalha velha. Ela parou ao meu lado e suspirou.
— Sabe quantas vezes eu já vi essa história, minha filha? Turista de férias, coração mole, bicho se apega. Depois o ônibus vai embora e o cachorro passa três dias na porta da pousada esperando o dono voltar. No ano passado uma cadela igualzinha essa sua Caramelo emagreceu até os ossos porque o casal que deu nome a ela não levou. Ficaram com pena, mas não o suficiente.
— Eu não vou deixá-la, — respondi, e a voz saiu mais firme do que qualquer coisa que eu dissera naquele ano.
Dona Iolanda me olhou de lado, sem acreditar muito. Mas não discutiu.
Naquela noite, depois do jantar, sentei na varanda do chalé e abri o celular. Minha mãe tinha mandado um áudio de dois minutos perguntando se eu estava me alimentando direito. Eu ignorei a pergunta e digitei na busca: “documentos para transportar cachorro de São Sebastião para São Paulo”. Depois: “veterinário em Camburi preço consulta”.
A Caramelo estava deitada aos meus pés, com a cabeça sobre a minha havaianas. A pata machucada descansava esticada. Pela primeira vez, ela não se levantou quando me mexi. Apenas bateu a cauda no cimento.
Na manhã seguinte, peguei um Uber até o centro de São Sebastião com a Caramelo no colo, numa caixa de papelão improvisada. O veterinário era um homem de bigode farto, que a examinou em silêncio por uns dez minutos. Apalpou a pata, olhou os dentes, as orelhas.
— Luxação antiga no joelho. Já calcificou, não adianta operar agora. Ela sente dor, mas dá pra viver bem com anti-inflamatório quando necessário. Precisa de vacina, vermífugo e um check-up geral. Pra transporte, você vai precisar da Guia de Trânsito Animal, a GTA, que eu emito aqui. E a caixa de transporte adequada.
Perguntei o valor de tudo. Ele fez as contas e disse: vacina V10, vermífugo, consulta e a emissão da guia — cento e trinta reais. Mais a caixa de transporte, que achei num pet shop perto da rodoviária: outros sessenta reais.
Paguei no pix e não senti o peso. Fazia meses que eu não gastava dinheiro com algo que me fizesse sentido. O divórcio tinha me deixado o apartamento e uma conta bancária razoável, mas também um vazio na boca do estômago que eu não sabia preencher. Cada nota de real naquela compra parecia preencher um pouco.
Comprei a passagem de ônibus executivo que permitia levar a caixa de transporte no bagageiro. A atendente da rodoviária me olhou duas vezes, para a caixa e para mim, e disse:
— Ó, tem que lacrar com cinto, hein. Se não, não sobe.
Lacrei. Ajeitei a Caramelo na caixa e fechei a grade. Ela me lambeu os dedos pela fresta e ganiu baixinho quando afastei a mão. Sentei na poltrona do ônibus e fiquei com a testa encostada na janela, ouvindo o motor. Não pensei no Rafael. Pensei se a caixa estava arejada o suficiente.
Chegamos em São Paulo numa sexta-feira de chuva fina. O apartamento cheirava a mofo e a ausência. Acendi a luz da sala, coloquei a caixa no chão e abri a portinhola. Caramelo saiu com cautela, cheirando cada canto, cada perna de sofá. Foi até a cozinha e bebeu água da vasilha nova que eu comprara no caminho, uma tigela azul de granilite. Depois se deitou no tapete da sala, a pata esticada, e suspirou.
Minha mãe chegou no sábado, com um saco de ração e um brinquedo de corda que ela comprara “achando que a Caramelo ia gostar, sei lá”. Ela me abraçou demorado e depois se agachou para coçar a cabeça da cadela.
— Tá mais cheia, — ela disse, avaliando as costelas agora menos salientes. — Você também tá com outra cara.
Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou. O nome no visor era Rafael.
— Fernanda, posso passar aí? Preciso pegar umas coisas que ainda estão na lavanderia. E conversar.
Senti o estômago revirar. Olhei para a Caramelo, que agora roía o brinquedo de corda com os dentes da frente. Olhei para minha mãe, que aguardava em silêncio.
— Pode vir, — respondi, controlando a voz.
Desliguei e fui até a gaveta da cozinha onde estavam as chaves reservas. Peguei o molho e o telefone da chaveiro 24 horas que a síndica do prédio indicava.
— Boa tarde, eu quero trocar o segredo do cilindro da porta do apartamento. Tem como vir agora? É urgente.
O chaveiro chegou em vinte minutos. Cem reais o serviço, mais quarenta por um cilindro novo, porque o antigo estava muito gasto. Cento e quarenta reais para transformar uma fechadura num recomeço. Ele me entregou duas cópias novas, e eu testei cada uma. A velha, que ainda ficava na gaveta, eu guardei no fundo da bolsa, não no chaveiro da entrada.
Quando a campainha tocou, o coração acelerou, mas minhas mãos estavam secas. Abri a porta e fiquei parada no vão, sem recuar.
Rafael estava com o cabelo mais curto e uma camisa azul-clara que eu mesma tinha comprado dois Natais atrás. Ele olhou para dentro do apartamento, avistou a Caramelo deitada no tapete e arqueou as sobrancelhas.
— Você arrumou um cachorro?
— Arrumei.
— Posso entrar?
— Claro.
Ele enfiou a mão no bolso e tirou o molho de chaves que eu conhecia bem. Introduziu a chave na fechadura da porta — a porta que eu não tinha fechado totalmente, apenas encostado — e tentou girar. A chave não passou. Ele tentou de novo, franzindo a testa.
— A fechadura tá quebrada?
— Não. Eu troquei o segredo. Sua chave não serve mais.
Ele me olhou com uma expressão vazia, o molho de chaves balançando na mão.
— Fernanda, que isso… Eu só queria conversar.
— O que você queria pegar na lavanderia? — perguntei, e não havia raiva na minha voz, só cansaço acumulado.
— Umas camisas. Meias. Sei lá, não é sobre isso.
Eu me abaixei e peguei a Caramelo no colo. Ela lambeu meu queixo, os olhos castanhos e mel piscando. Senti o cheiro de pelo e de ração nova.
— Sabe, Rafael, eu passei um mês esperando você me procurar, mas você não me procurou. Depois passei o último ano esperando você mudar, e você não mudou. Agora não tem mais nada aqui. As suas coisas estão num saco que vou deixar com o porteiro. A fechadura é nova. A casa é nova. A cadela é minha.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas não saiu nada. A chuva fina continuava caindo do lado de fora. Minha mãe, que observava da cozinha, me alcançou a vasilha de água da Caramelo e voltou para perto do fogão sem uma palavra.
— Você não vai me deixar nem entrar? — ele insistiu, e havia um tom de ofensa, como se o fato de eu ser paciente fosse um direito eterno.
— Não.
Fechei a porta. A tranca deslizou com um clique seco. Do lado de dentro, a Caramelo apoiou a cabeça no meu ombro e soltou um leve suspiro, como se entendesse tudo. Pela porta ouvi os passos dele se afastando, depois o elevador.
Minha mãe me olhou por cima do fogão. Ela não sorriu, mas algo no canto dos olhos dizia que aprovava.
— Você trocou a fechadura. Que bom, minha filha.
Sentei no tapete com a Caramelo no colo. A pata manca descansava no meu joelho, e o peso dela, tão pequeno, era a coisa mais viva que eu sentia naquele apartamento em quase dois anos. A chuva parou. O último fio de sol da tarde atravessou a cortina e bateu na tigela azul, fazendo a água brilhar.
