O preço da paz

Foram duzentos e trinta mil reais. O valor exato que juntamos em treze anos, moeda por moeda, para comprar essa casa em Piracicaba. Ainda sinto o cheiro da tinta fresca misturado com o café que a Márcia preparava na cozinha nova. As caixas empilhadas no canto da sala mal tinham sido abertas, e a rede de dormir que comprei na feira de artesanato balançava na varanda com a brisa da tarde. Do outro lado da cerca, o jasmim da vizinha exalava um perfume doce, quase infantil. Era a nossa paz. Respirei fundo e pensei: finalmente, um canto só nosso.

A Márcia apareceu com duas xícaras fumegantes. Não disse nada, só me estendeu o café e ficou parada, mordendo a beiça. Eu conhecia aquele jeito. Algo estava para chegar.

— Luís… — ela começou, e a voz saiu mais baixa do que o normal.

— Se vai dizer que sua irmã quer vir nos visitar, prefiro que me diga agora, de uma vez. Já percebi pelo seu tom de quem pede desculpas antes da frase.

Ela soltou um suspiro.

— A Renata e o Tiago querem vir no sábado. Disseram que estão com saudade e que querem conhecer a casa nova. Eu não soube dizer não.

— Você não soube ou não tentou? — perguntei, sem acidez, só com cansaço.

— Tentei. Mas a Renata falou com a minha mãe, e a mamãe me ligou dizendo que eu estava virando as costas para a família. Você sabe como é.

Eu sabia. A Renata era o tipo de pessoa que transformava qualquer recusa em ofensa mortal. O Tiago, marido dela, era a sombra que repetia tudo o que ela dizia, mas sempre com um toque de grosseria. Em treze anos de casamento, toda visita deles era uma prova de paciência. E agora, na nossa casa nova, com paredes que nem tinham manchas de mãos, eu temia o pior.

— Está bem — falei, sentindo o peso da decisão. — Que venham. Mas se passarem do limite, serei eu a falar.

— Você promete que não vai brigar?

— Prometo que não vou começar. Mas se eles começarem, vou terminar.

A Márcia levantou os cantos dos lábios num gesto que era alívio misturado com culpa. Eu queria acreditar que aquela visita seria diferente. No fundo, eu sabia que não seria.

No sábado, o carro deles encostou na calçada com mais barulho do que um caminhão de mudança. O cachorro do vizinho, um vira-lata caramelo, começou a latir como se tivesse visto assombração. A Renata desceu com um vestido laranja que parecia gritar mais alto do que ela, e o Tiago trouxe uma caixa de cerveja, que largou sobre o capô do meu carro sem o menor cuidado.

— Enfim chegamos! — anunciou ela, entrando sem esperar convite. — Achei que vocês tivessem se mudado para o fim do mundo. Aqui é longe pra dedéu.

— A gente mora a quarenta minutos de vocês — respondi, fechando a porta.

— Nossa, mas o trânsito estava um horror. Nem me ofereceram nada pra beber?

A Márcia já estava na cozinha, separando os copos. O Tiago se jogou no sofá novo, tirou as sandálias e colocou os pés em cima da mesinha de centro, que ainda tinha o plástico de proteção. Pegou uma cerveja e abriu com os dentes, deixando a tampinha cair no chão.

— Tiago, tem um abridor ali — apontei.

— Que nada, esse negócio estraga os dentes da tampinha. — Ele riu, como se tivesse feito uma grande façanha. — E aí, Luís, tá rico agora? Casa nova, carro novo… a gente tá precisando de uma mãozinha, hein.

— Não estou rico, estou financiado. Cada real aqui tem nome e sobrenome.

— Ah, mas vocês sempre foram mais planejados que a gente. A Renata vive dizendo que a Márcia casou com um cara que pensa em tudo. Acho que é por isso que ainda não tiveram filhos, né? Planejamento demais.

A Márcia colocou uma travessa de salgadinhos na mesa e me observou com um pedido mudo de calma. Eu contei até dez. Depois vinte.

A Renata andava pela sala como quem avalia uma propriedade, tocando os cortinados, comentando da cor da parede (“muito clara, suja fácil”), abrindo armários da cozinha sem licença.

— Vocês até que fizeram um bom negócio — disse ela, mastigando um quibe. — Só achei meio vazio. Não tem brinquedo, não tem bagunça de criança. É estranho uma casa assim, tão… quieta. Até parece museu.

— Pois eu gosto de quietude — rebati, sentindo o sangue subir. — E não acho que o valor de uma casa se meça pelo choro de crianças.

— Lógico que não, mas vocês já passaram dos trinta e cinco. Se esperarem mais, vai ser gravidez de risco. E depois, quem vai cuidar de vocês na velhice?

Aquilo era demais. Eu encarei a Márcia. Ela estava branca, mexendo os dedos na barra da toalha que tinha sido da avó. Percebi que ia chorar. Mas, antes que eu dissesse algo, ela ergueu a voz, mais firme do que eu jamais tinha ouvido.

— Renata, chega. Você não tem o direito de falar disso. Eu não tenho filhos porque não quis. E você, que tem dois, toda semana me pede dinheiro emprestado e nunca devolve. Quem é que está vivendo errado?

A quietude caiu na sala como um balde de água fria. O Tiago parou de mastigar. A Renata arregalou os olhos, os lábios se abrindo e fechando.

— Você está falando sério? — ela balbuciou.

— Totalmente séria. — A Márcia estava em pé, com as mãos apoiadas na mesa. — Essa casa é nossa. Nós pagamos cada tijolo. E não vamos deixar que venham aqui nos diminuir. Se vocês só vieram para criticar e pedir dinheiro, peguem suas coisas e saiam.

Eu respirei. Minha esposa, a mulher que nunca conseguia dizer “não”, tinha acabado de traçar uma linha no chão. Comigo ao lado.

— Isso é um absurdo! — A Renata gritou. — Você sempre foi a irmã certinha que se acha superior. Agora que tem casa própria, acha que pode nos expulsar?

— Não acho. Posso. E estou fazendo — disse a Márcia. — Vão embora. Agora.

O Tiago tentou se levantar do sofá com pose de machão, mas escorregou na tampinha que ele mesmo tinha jogado no chão e quase caiu. Foi ridículo o suficiente para o clima quebrar.

— Vocês vão se arrepender! — rosnou a Renata, pegando a bolsa.

— Já estou arrependida de ter demorado treze anos para fazer isso — respondeu a Márcia, abrindo a porta da frente.

Eles saíram praguejando, com a caixa de cerveja pela metade. O carro deu partida com pneus cantando e sumiu na esquina.

Fechamos a porta. A Márcia encostou a testa na madeira e respirou fundo. Eu a abracei, sentindo o corpo dela ainda tremer de adrenalina.

— Você foi incrível — murmurei.

— Eu cansei, Luís. Catorze anos ouvindo que eu era egoísta, que não era boa o suficiente, que devia cuidar deles. Cansei. Vou aproveitar essa casa. Nossa casa.

Foi aí que eu tive a ideia. Peguei o telefone e liguei para o chaveiro. Em menos de uma hora, estava instalada uma fechadura nova na porta da frente, daquelas com segredo eletrônico. Não porque eu esperasse que eles voltassem, mas porque aquele gesto selava algo: daqui para frente, ninguém entraria sem ser bem-vindo.

Já era fim de tarde quando o celular dela tocou. O visor mostrava “Renata”. Depois “Mãe”. Deixamos tocar. Em seguida chegou uma mensagem:

“Você vai cortar laços com a sua própria família por causa de uma casa?”

A Márcia leu, virou a tela para mim, e escrevemos a resposta juntos:

“Não. Corto por causa de paz.”

E bloqueou o número.

Voltamos para a varanda com café fresco. A rede balançava. No quintal, a manga caía do pé com um baque surdo. A casa enfim estava na mais completa quietude, do jeito que eu sempre sonhei. Contemplei os duzentos e trinta mil reais que estavam ali, em forma de tijolos, janelas e agora, sobretudo, de coragem. Cada centavo tinha valido a pena.

Pouco depois, dei uma espiada pela cortina. A Renata estava parada na calçada, com a mão na cintura, tentando entender por que a chave não girava mais. A fechadura nova brilhava sob a luz do poste. Ela não gritou. Só ficou ali, imóvel, por um instante, e então foi embora. Sabia que a história tinha chegado ao fim.

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