A Primeira Prestação da Saudade

Júlia chegou em casa e o cheiro de café fresco tomava conta da cozinha, mas o que a fez parar na porta foi a pasta de papel pardo em cima da mesa. Uma pasta comum, daquelas de elástico, mas que ali, naquele lugar, naquela hora, parecia um animal adormecido prestes a acordar.

A mãe, Isaura, estava de costas, mexendo o café na cafeteira italiana com a calma de quem prepara uma sentença. Sessenta e dois anos, contabilista aposentada de um escritório na Liberdade, uma mulher que sempre transformava a matemática da vida em planilhas. E aquela pasta, Júlia sabia, era o extrato de uma conta que ela não queria ver fechada.

— Senta — disse Isaura, sem se virar. — Precisamos conversar sobre uma coisa.

Júlia ainda estava com o jaleco da escola municipal onde dava aulas de português para o ensino fundamental, a bolsa pesando no ombro com sessenta redações para corrigir. Ela tirou o tênis, deixou a bolsa no chão e sentou. O tampo da mesa estava pegajoso de um resto de bolo de fubá que a mãe fizera de manhã, e ela ficou um segundo olhando para aquela mancha, como se ali estivesse a resposta para o que viria.

— Mãe, antes de você falar qualquer coisa, eu preciso te contar uma coisa — a voz saiu mais fina do que ela gostaria. — Eu estou grávida.

Isaura pousou a cafeteira. O silêncio que se fez foi tão denso que dava para ouvir o gotejar da torneira da pia, pingando em intervalos exatos de três segundos.

— Grávida — repetiu Isaura, e não era uma pergunta. — Com vinte e oito anos, um contrato temporário na prefeitura que acaba em dezembro, sem carro, sem plano de saúde decente, vivendo aqui no apartamento que era da sua avó e que só não foi vendido porque eu paguei a parte do seu tio. Grávida.

— Sim — Júlia manteve os olhos na mancha de bolo. — O Miguel não vai participar. Ele já deixou claro. Foi embora quando soube.

— Claro que foi — Isaura puxou a cadeira e sentou-se à frente da filha, abrindo a pasta. — E você achou que eu ia fazer o quê? Bater palmas? Fazer um chá de bebê no salão do prédio?

Dentro da pasta havia um contrato de avaliação de imóvel. O apartamento da Vila Mariana, onde as duas moravam desde que o pai de Júlia morrera, dez anos atrás, estava avaliado em quatrocentos e vinte mil reais. Na margem do papel, a letra miúda e precisa de Isaura anotara uma conta: metade para cada uma, duzentos e dez mil.

— Você está me expulsando? — a voz de Júlia saiu num fio, e ela levou a mão à barriga num gesto instintivo, como se protegesse o que ainda nem se mexia.

— Não estou te expulsando. Estou vendendo o que é meu — Isaura fechou a pasta com um estalo seco. — Eu paguei a faculdade de pedagogia que você insistiu em fazer contra a minha vontade, eu paguei o cursinho que você largou, eu banquei esse teto por uma década enquanto você decidia o que queria da vida. Agora você decidiu. Quer ser mãe. Ótimo. Seja. Mas seja mãe na sua casa.

Júlia sentiu o calor subir pelo pescoço, as bochechas queimando. Ela queria argumentar, dizer que o bebê era neto dela também, que a avó de Isaura acolhera três filhos sozinha naquele mesmo apartamento durante a crise de oitenta, que família era para isso. Mas as palavras não saíam. Só saiu um soluço seco.

— Eu não tenho para onde ir — disse, e odiou a própria voz naquele momento. — você sabe que eu não tenho.

— Eu sei. Por isso preparei a papelada — Isaura levantou-se e foi até o armário da cozinha, onde guardava as latas de mantimento com etiquetas escritas à mão: *arroz*, *feijão preto*, *farinha de mandioca*. Tudo no lugar. Tudo medido. — Você tem duas opções: ou me compra a minha parte por cento e cinco mil reais, ou a gente vende o apartamento e divide o dinheiro. Não tem terceira via.

Júlia olhou ao redor. Para a cristaleira da avó com os copos de vidro americano que nunca foram trocados, para o relógio de parede que batera as horas durante todas as febres da infância dela, para a janela que dava para a jabuticabeira do vizinho, carregada de frutas naquele outubro. A jabuticabeira que ela fotografara para o trabalho de ciências do quarto ano e que o pai pendurara na geladeira com um ímã da CVC Viagens.

— Você planejou isso — ela sussurrou. — Você estava esperando uma desculpa.

— Eu estava esperando você crescer — corrigiu Isaura, e os olhos dela, castanhos e miúdos, não tinham lágrima nenhuma. — Não aconteceu. Então eu mesma estou tomando a decisão.

Júlia levantou-se. Não havia mais o que dizer. Ela foi para o quarto, fechou a porta e ficou olhando para o teto com aquelas pequenas rachaduras que ela conhecia de cor, contando uma a uma, como fizera milhares de noites na adolescência enquanto sonhava com uma vida diferente.

Os três meses seguintes foram um terremoto silencioso. O apartamento foi anunciado numa imobiliária da Rua Vergueiro, e as visitas começaram. Casais jovens, investidores, uma senhora que quis saber se a jabuticabeira estava incluída. Isaura conduzia as visitas com a eficiência de quem apresentava um relatório contábil, apontando a vaga de garagem, a proximidade do metrô Paraíso, o armário embutido no corredor.

Júlia ficava trancada no quarto durante as visitas, olhando fotos de quitinetes na Zona Leste no celular. Encontrou uma no Tatuapé, vinte e oito metros quadrados, oitocentos reais de aluguel, sem elevador, sem vaga, sem jabuticabeira. Era o que duzentos e dez mil reais podiam pagar de entrada num financiamento de trinta anos — um buraco com janela para a parede do prédio vizinho.

Ela não falava com a mãe sobre o bebê. Não falava sobre os enjoos que a pegavam de manhã na escola, quando ela precisava se trancar no banheiro dos professores e esperar a onda passar. Não falava sobre as roupinhas que a diretora da escola, dona Fátima, lhe dera num pacote de supermercado, todas usadas, cheirando a amaciante, um gesto tão gentil que Júlia chorara no estacionamento depois.

Um dia, voltando do trabalho, ela encontrou Seu Raimundo, o porteiro do prédio havia dezenove anos, parado na portaria com um envelope na mão.

— Sua mãe pediu para entregar — ele disse, e o tom era de quem sabia que estava carregando algo pesado. — Falou que é para você assinar e devolver até sexta-feira.

Era a minuta da escritura de venda. O comprador já estava definido, o sinal já tinha sido pago. Isaura não perdera tempo. Naquela noite, Júlia assinou o papel sem ler, sentada na cama, enquanto sentia o bebê mexer pela primeira vez — um tremor leve, um pipocar de bolhas, uma vida que insistia em se anunciar mesmo quando tudo desmoronava.

A mudança foi num sábado de janeiro, com um sol que estalava o asfalto. Júlia levou duas malas e uma caixa de livros. Isaura contratara uma transportadora para as coisas dela — mudança para um apartamento novo na Bela Vista, dois quartos, portaria vinte e quatro horas, piscina no condomínio que ela jamais usaria. As duas se despediram no hall, sob o olhar de Seu Raimundo, que fingia consertar o interfone.

— Boa sorte — disse Isaura, e abraçou a filha com um abraço curto, duro, de quem não está acostumada a dar carinho e não vai começar agora.

— Obrigada — respondeu Júlia, e entrou no táxi com a caixa de livros no colo, sem olhar para trás.

Os primeiros meses na quitinete foram uma provação. O bebê nasceu numa madrugada de abril, no Hospital São Luiz, um parto normal que durou doze horas e que Júlia enfrentou sozinha, com a enfermeira gentil que segurava sua mão e dizia *vai dar tudo certo, mãezinha*. Ela deu ao menino o nome de Benício, porque era um nome forte, um nome que parecia proteger.

Depois, foi o caos. Noites em claro, fraldas empilhadas no banheiro, o som do choro batendo nas paredes finas do prédio. Uma vizinha do andar de baixo, Dona Zuleica, batia com o cabo de vassoura no teto quando Benício chorava mais de vinte minutos seguidos. O leite empedrou, ela teve mastite, a febre subiu a trinta e nove graus e ela passou uma noite inteira sentada na cama, tremendo, com o bebê no peito, sem ter para quem ligar.

Em agosto, quando Benício tinha quatro meses, Júlia pegou o último envelope que recebera da venda do apartamento. O dinheiro estava acabando mais rápido do que ela previra — entre as parcelas do financiamento, o plano de saúde básico, os móveis que tivera que comprar porque a quitinete não vinha com nada. Ela olhou para a caderneta de gastos, um caderno brochura com capa de corujinha que comprara na papelaria da esquina, e fez as contas três vezes. Depois abriu o aplicativo do banco.

Transferiu setecentos e trinta reais para a conta da mãe.

O valor exato que pedira emprestado em maio, quando Benício tivera uma crise de bronquiolite e ela precisara comprar o nebulizador. Isaura dera o dinheiro na hora, transferira em três minutos, com uma mensagem seca: *Fica quieta, isso é para o menino.* Júlia nunca se sentira tão humilhada quanto naquele dia.

Agora, ela devolvia cada centavo.

Na descrição da transferência, escreveu: *Devolução do nebulizador. Não vou pedir mais nada.*

Mandou o comprovante por mensagem.

Do outro lado da cidade, Isaura estava na sala do apartamento novo, um copo de vinho branco na mesinha de centro e o *Jornal Nacional* mudo na televisão. O celular vibrou, ela pegou sem pressa, e quando viu o valor e o nome da filha na notificação, sentiu um aperto no peito que não estava nos seus cálculos.

Ela leu a mensagem várias vezes. *Não vou pedir mais nada.* Setecentos e trinta reais. O preço de um nebulizador e de uma sentença.

O vinho branco amargou na boca. Ela pousou a taça, levantou-se, foi até a janela. A vista do décimo andar mostrava a Avenida Paulista iluminada, o MASP recortado na noite, a cidade que ela conquistara com décadas de trabalho e pés no chão. E de repente, tudo aquilo pareceu ridiculamente vazio.

Ela se lembrava de uma Júlia pequena, de tranças e uniforme azul, sentada na cama do antigo apartamento com um termômetro na boca, enquanto ela, Isaura, trocava compressas frias na testa da menina. Febre de quarenta graus, uma gripe que quase virara pneumonia, e ela passara três noites sem dormir ao lado da filha. Três noites. Agora não conseguira sequer ir ao hospital quando a filha estava parindo o próprio neto.

— Meu Deus, o que eu fiz? — ela murmurou para o vidro da janela.

Pegou o celular e escreveu uma mensagem. Depois apagou. Escreveu de novo. Apagou mais duas vezes. Por fim, numa tentativa que pareceu ridiculamente pequena diante do tamanho do estrago, digitou:

*Júlia, eu posso ir aí? Só para ver vocês dois. Não quero dinheiro, não quero nada. Só quero ver seu rosto e conhecer o Benício. Me desculpa.*

Esperou. O relógio da sala marcava vinte e uma e quarenta e sete. A resposta chegou às vinte e duas e doze.

*Pode vir amanhã. Mas não me chama de irresponsável. Não me chama de nada. Só vem.*

Isaura não dormiu. De manhã, foi até a Rua Oscar Freire e comprou um macacãozinho de algodão, uma caixa de fraldas, uma pomada de assadura e um móbile musical com estrelinhas que giravam. A vendedora perguntou se era para o neto, e ela respondeu *é* com a voz embargada, como se aquela palavra fosse uma confissão.

No Tatuapé, ela subiu as escadas do prédio sem elevador, quatro lances, parando no segundo para recuperar o fôlego. Bateu na porta. Júlia abriu, e a primeira coisa que Isaura viu foi o bebê no sling, a cabecinha coberta por uma touca de tricô amarela, as bochechas rosadas, os olhos fechados. A segunda coisa que viu foram as olheiras da filha, fundas, arroxeadas, e o cabelo preso num coque frouxo do qual escapavam fios sujos.

— Entra — disse Júlia, e foi só isso.

Isaura entrou. A quitinete era menor do que ela imaginava. Uma cama de solteiro encostada na parede, um berço minúsculo ao lado, um fogão de duas bocas, uma pia com poucos pratos. Mas tudo estava limpo e arrumado com uma ordem que denunciava esforço. Na janela, o varal com os bodys de algodãozinho balançavam com o vento.

— Eu trouxe umas coisas — ela ergueu a sacola, sem jeito.

— Pode deixar na cama.

Ficaram as duas de pé, uma diante da outra, com o bebê entre elas. Foi Benício quem quebrou o impasse — abriu os olhos, piscou devagar e soltou um barulhinho, um gorjeio bobo, uma saudação que não era para ninguém e era para todos.

— Ele faz isso o tempo todo — Júlia deixou escapar um meio sorriso. — Conversa sozinho. Acha que o teto responde.

Isaura deu um passo à frente.

— Posso pegar?

Júlia hesitou. Depois, num gesto que lhe custou toda a mágoa acumulada, tirou o sling e passou o bebê para os braços da mãe. Isaura recebeu Benício como quem recebe um vaso raro, as mãos tremendo, o coração disparado. O menino olhou para ela com aqueles olhos escuros e sérios, a boca aberta num espanto que parecia um sorriso.

— Ele é a sua cara — sussurrou Isaura. — A sua cara quando você nasceu.

E então, pela primeira vez em décadas, ela chorou. Um choro sem barulho, as lágrimas escorrendo lentas, caindo na touca amarela do neto. Júlia viu aquilo e também chorou, encostada no batente da porta do banheiro, os braços cruzados, o corpo magro balançando de leve num cansaço que durava meses.

Ficaram assim um tempo sem medida, as três gerações naquele cubículo de vinte e oito metros quadrados: Isaura sentada na cama com o neto no colo, Júlia de pé, a cidade rugindo lá fora, os carros buzinando na Radial Leste, o som do trem passando ao longe.

— Eu fiz tudo errado — disse Isaura, por fim, sem levantar os olhos. — Achei que você precisava de um choque de realidade. Mas você nunca precisou de choque. Você precisava de mim.

Júlia fungou, passou a mão no nariz.

— Eu também errei. Achei que o Miguel ia ficar. Que dava para contar com alguém. E você sempre me disse: não conte com ninguém, filha. Só que eu não queria acreditar.

— E não contou mesmo — Isaura embalava Benício, que agora dormia de novo, a respiração mansa, as mãozinhas fechadas. — Fez tudo sozinha. A transferência, o nebulizador… Júlia, eu não queria aquele dinheiro. Eu dei porque era o mínimo. Porque eu sou a sua mãe.

— Eu sei. Mas eu precisava te devolver. Precisava. Para mim — Júlia desencostou do batente e sentou-se na cama ao lado da mãe. — Para você entender que eu não vou ser mais a sua dependente. Que eu posso ser mãe e posso dar conta. Mesmo que doa.

Isaura olhou para a filha. Viu a postura mudada, a coluna mais ereta, o queixo mais firme. Não era a menina que assinava papéis sem ler. Era uma mulher que fizera um parto sozinha e devolvera setecentos e trinta reais para poder olhar nos olhos da mãe de novo.

— Deixa eu fazer diferente agora — pediu Isaura. — Não quero pagar nada. Não quero dar ordens. Só quero estar aqui. Nas terças e quintas, se você deixar. Para ficar com ele enquanto você descansa. Ou para lavar a louça. Para o que você precisar.

Júlia pegou a mão da mãe sobre o corpo do bebê. A mão de Isaura, que sempre assinara contratos e calculara juros, estava quente e áspera e trêmula.

— Pode vir. Mas não precisa lavar louça. Senta com ele e conta história. Ele gosta que conversem com ele. Mesmo que ele não entenda.

Isaura sorriu entre as lágrimas.

— Isso eu sei fazer.

Lá fora, a buzina do carro do gás ecoou na rua, e o senhor da padaria da esquina recolhia as mesas da calçada, fechando as portas. Um cheiro de pão de queijo subia pelo vão da escada, misturado ao perfume do jasmim que a vizinha plantara na laje. A jabuticabeira da Vila Mariana ficara para trás, mas naquela tarde, naquela quitinete, alguma coisa nova brotava — pequena, frágil, sem frutos ainda, mas com raiz.

Na semana seguinte, Isaura chegou com um envelope pardo. Júlia gelou ao vê-lo, o coração dando um salto na memória daquele dia na cozinha. Mas a mãe pousou o envelope sobre a mesa e disse:

— Não é escritura. É um plano de previdência para o Benício. Eu abri com cinco mil reais. Não é um presente para você. É para ele.

Júlia abriu o envelope. A apólice estava em nome do menino, com a avó como titular, o vencimento programado para quando ele completasse dezoito anos. Nenhuma condição. Nenhuma cobrança. Apenas os números precisos, naquele jeito Isaura de ser, agora a serviço da ternura.

— Obrigada — disse Júlia.

— Obrigada você — respondeu Isaura. — Por não ter desistido de mim.

Benício, no tapete de EVA que a avó comprara na semana anterior, bateu as mãos no chão e soltou uma gargalhada, uma risada gostosa, de barriga, que encheu a quitinete e vazou pela janela, misturando-se ao som do carro do ovo passando na rua com a gravação repetida e estridente: *Olha o ovo, olha o ovo!*

Isaura abaixou-se, pegou o neto no colo e sentou-se na cama. Começou a cantar baixinho uma cantiga de roda que cantava para a filha trinta anos atrás, no apartamento da jabuticabeira, antes que o mundo endurecesse as duas. Júlia foi para a janela, olhou o varal, o céu cor-de-rosa de São Paulo, as roupinhas dançando com o vento, e sentiu que o fio entre elas, que estivera tão perto de se romper, agora estava atado de novo. Com um nó diferente, é verdade — mais frouxo, mais respeitoso —, mas atado.

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