Companheiros de infortúnio

Dona Zulmira já estava na calçada, com a vasilha de arroz com molho na mão, quando o cachorrinho apareceu ofegante, o rabo batendo tão rápido que parecia um ventilador. Ele parou a dois metros, deu dois latidos agudos e saiu correndo em direção à esquina, voltou, girou sobre as próprias patas e tornou a correr. Ela franziu a testa.

— Uai, cadê o outro? Vocês nunca andam separados. Aconteceu alguma coisa?

O filhote gemeu e disparou rua abaixo, parando a cada dez passos para conferir se ela seguia. Dona Zulmira encostou a vasilha no portão, firmou a bengala e foi atrás, o mais rápido que as pernas de setenta e nove anos permitiam.

Eles tinham surgido do nada numa noite gelada de maio. O vento minuano descia das serras gaúchas e varria Curitiba com uma fúria que não perdoava nada vivo. Dois vira-latas de pelagem clara apareceram juntos perto da caçamba de entulho da Rua Jacarezinho. Nenhum delhes tinha coleira. Nenhum sabia o que era um colo. Eram tão pequenos que cabiam numa caixa de sapato. Deviam ter sido largados havia poucas horas: ainda tremiam menos de frio que de desconcerto.

Eles não se conheciam. Mas, ao se verem sozinhos diante da montanha de sacos pretos e o cheiro azedo do lixo, se aproximaram devagar, caudas encolhidas, e se deitaram colados, ventre contra ventre, focinho enfiado no pescoço um do outro. A noite inteira o vento chicoteou os dois. Nenhum arredou.

Pela manhã, um vizinho que levava o filho à creche os viu e deixou meia dúzia de pãezinhos num papel de embrulho. Depois um motoboy parou e despejou água numa tampa de bueiro. Dona Zulmira os descobriu no terceiro dia, quando passou a caminho da padaria. Disse “não posso” em voz alta e foi embora. Mas voltou horas depois com um cobertor velho e um pote de arroz com fígado. A partir dali, religiosamente, às oito da manhã ela batia no portão com a vasilha. Os dois já aguardavam, os rabos varrendo a calçada.

A rua tentou ajudar como podia. Seu Ari, dono do ferro-velho, trouxe uma poltrona de ônibus que guardava na garagem — era larga, forrada de um veludo desbotado, mas quente. Pregou um cartaz escrito à caneta: “CAMA DOS CACHORROS. FAVOR NÃO MEXER.” Durou cinco dias. Na quinta-feira seguinte, um casal de Corsa prata parou, arrancou o cartaz e enfiou a poltrona no porta-malas, rindo baixinho. Depois uma moça que trabalhava numa loja de tapetes deixou um tapetinho felpudo, daqueles de lã sintética, etiqueta ainda pendurada. Sumiu em menos de uma semana. Alguém, talvez o mesmo casal, achou que um tapete novo largado na rua era achado e não doação. Mas o golpe mais feio veio quando um rapaz apareceu com uma casinha de madeira, daquelas de pet shop, com telhadinho inclinado e tudo. Montou com parafusos na calçada. Os dois cachorros entraram e não saíram o dia inteiro. Três noites dormiram abrigados. Na quarta, voltaram de uma incursão pela cidade e encontraram a casinha despedaçada: tábuas arrancadas, pregos espalhados e um tijolo no meio da calçada. Era como se alguém tivesse se irritado só de ver a alegria deles.

Eles não entendiam. Mas aprenderam que, quando tudo falhava, ainda podiam se deitar juntos. A pelagem um do outro era o único teto à prova de humano.

Em agosto, a chuva fina e o asfalto escorregadio cobraram seu preço. Atravessando a Avenida República Argentina num fim de tarde, o menor dos dois — o das orelhas mais curtas — demorou um segundo a mais e uma Saveiro branca o pegou de raspão. O motorista freiou, olhou pelo retrovisor e seguiu. O cachorro se arrastou até o meio-fio. A pata traseira direita pendia, mole.

O companheiro não saiu de perto. Primeiro tentou lambê-lo e fazê-lo levantar. Depois latiu para os transeuntes: uma senhora de salto, um rapaz de mochila, um casal de mãos dadas. Ninguém diminuiu o passo. Foi então que ele se lembrou do portão que cheirava a fígado e correu três quarteirões. E foi ali que Dona Zulmira o encontrou, apavorado, a guiar.

Ela viu a pata dobrada, o inchaço, os olhos suplicantes do bichinho deitado. Não hesitou. Tirou do bolso do casaco uma carteira surrada de plástico e contou as cédulas. Trinta e dois reais e cinquenta centavos. A aposentadoria caía só dali a onze dias. Em casa, três gatos esperavam ração.

— Dá — murmurou. — Depois eu vejo.

Enrolou o cachorro ferido numa toalha que sempre carregava na bolsa e pediu ao motorista de um táxi parado na praça que as levasse à clínica veterinária municipal. O acompanhante correu ao lado do táxi por dois quarteirões, até sumir na esquina.

O veterinário, um homem calvo de avental verde, examinou a pata.

— Fratura incompleta no fêmur. Vou imobilizar, mas ele não pode apoiar a pata por quatro semanas. E não pode ficar na rua. A senhora consegue abrigar?

Dona Zulmira assentiu com um aceno cansado. Levou o cachorro para casa, improvisou uma caminha com uma almofada no canto da sala estreita. O outro ficou do lado de fora. Ela saía todo dia às sete e quarenta com uma tigela de comida. Ele não tocava na ração até ouvir a frase:

— Tá melhorzinho. Daqui a pouco tá correndo. Juro.

E depois devorava tudo correndo, sempre de olho na janela do terceiro andar.

Foi num sábado, pouco depois das nove, que Dona Zulmira desceu com a vasilha e encontrou uma mulher agachada fazendo carinho no filhote. Vestia um casaco de lã amarelo, calça jeans e tênis sujo de terra. O carro, uma caminhonete Hilux, estava estacionado com o pisca ligado.

— Bom dia. Ele é seu? — a mulher perguntou, erguendo o rosto.

Os olhos dela tinham uma calma que Dona Zulmira reconheceu de outras boas almas, dessas que já vieram prontas.

— Meu, meu não é. Eu só ajudo. Mas ele não vai sair daqui por nada. O amigo tá internado no meu sofá.

A mulher se apresentou como Helena, disse que morava num sítio em Colombo e que o marido, veterinário, queria adotar um cão. Dona Zulmira sentou-se no banco da calçada — o mesmo banco onde três meses antes tinha colocado o tapete pela primeira vez — e contou toda a história. A caçamba, o minuano, a poltrona, o tapete, a casinha partida, o atropelamento. Enquanto falava, o cachorro deitou a cabeça sobre o pé da idosa.

Helena ouviu em silêncio. Depois se levantou, foi até o carro e voltou com uma pasta de documentos.

— Olha, dona Zulmira, eu levo os dois. Meu marido vai cuidar da pata desse bonito aí até ele ficar zero bala. E o outro não vai passar mais uma noite na rua. A senhora confia?

Zulmira mordeu o lábio inferior e piscou algumas vezes. Não era choro — era apenas o corpo reagindo ao excesso de mundo.

Helena estendeu uma folha impressa: termo de adoção responsável, já preenchido, com espaço para o nome dos animais. Naquele momento, os dois ainda não tinham nome. Pegou a caneta e escreveu no campo: “Raimundo e Mário”. Olhou para a senhora e pediu autorização com o olhar.

— Pode pôr. Raimundo é o ferido, Mário é esse ligeiro aqui.

Helena assinou o termo e entregou uma via para Zulmira guardar. Embaixo, rabiscou o número do seu celular e o endereço do sítio. Quinze minutos depois, o marido chegou com uma caixa de transporte. Dona Zulmira subiu, trouxe Raimundo no colo, a pata ainda enfaixada, e o entregou com um beijo na testa. Mário pulou no banco de trás da Hilux sozinho, lambendo o vidro.

O carro partiu devagar, a placa de Colombo desaparecendo na primeira curva. Dona Zulmira ficou parada na calçada com a via do termo na mão, o papel já amassado pela força dos dedos. Então dobrou o documento em quatro partes e guardou na mesma carteira de onde, semanas antes, tinha tirado os trinta e dois e cinquenta.

Do portão, antes de entrar, olhou para o banco vazio. Amanhã não haveria vasilha. Não haveria mais corridas matinais até a caçamba. Pela primeira vez em meses, o peito apertou de silêncio. Mas era um silêncio bom — daqueles que vêm depois que a tempestade vira notícia antiga.

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