O Pote de Água na Varanda

Eu moro sozinha numa casa pequena em Campos do Jordão faz onze anos. Depois que o Nelson se foi, a rotina ficou assim: acendo a lareira às seis, passo o café, molho as samambaias da frente e sento na poltrona perto da janela. O rádio fica ligado na Eldorado, mas eu mal escuto. É só para ter uma voz por perto.

Em maio do ano passado, reparei num gato magrelo rondando a varanda dos fundos. Um siamês acinzentado, sujo, com uma orelha rasgada. Dava para contar as costelas de longe. Ele pulava o muro, farejava a lixeira e sumia no mato antes que eu abrisse a porta.

Comecei a deixar um pote com água fresca e um pouco de ração. Ele não deixava eu me aproximar — bastava um rangido no assoalho e já saltava o muro como um relâmpago. Mas a água ele bebia. A ração desaparecia.

Dona Creusa, minha vizinha da direita, vivia falando: «Clara, você vai encher esse terreno de bicho de rua. Depois não reclama quando aparecer gambá no telhado.» Eu só acenava com a cabeça e trocava a água de manhã. Ela que pensasse o que quisesse. O bicho estava com fome e veio parar aqui. Isso tinha algum significado, eu sentia.

Uns dois meses depois, ficou claro que era uma gata. A barriga começou a pesar, ela andava mais devagar, procurava cantos cobertos. Cheguei a puxar uma cadeira velha para debaixo do telhadinho da lavanderia, forrei com um cobertor que já não usava. Ela não entrou, mas dormiu no capacho ao lado.

E aí, numa terça-feira de julho, ela sumiu. Cinco dias, seis, uma semana inteira. Eu continuava botando a ração, trocando a água. A ração ficava lá, intocada. Passei dias olhando para o muro. Cheguei a ir no fim do quintal e chamar: «Bichana!» — sem nome, porque nome ela nunca teve. Só o mato e o silêncio. O Nelson dizia que eu me apegava fácil demais. Talvez dissesse.

Na quarta-feira, fazia um frio de rachar. Eu tinha acabado de acender a lareira quando ouvi um arranhado na porta da lavanderia. Não era arranhar pedindo — era tentar abrir. Fui até lá no escuro, acendi a luz da área.

Era ela. Tinha um filhote minúsculo na boca. Segurava pela nuca, do jeito que as gatas carregam, mas o bichinho era tão pequeno que parecia um ratinho cinza. Ela me olhou, deu dois passos para dentro e colocou o filhote bem em cima do cobertor que eu tinha deixado na cadeira.

Fiquei parada. Ela foi até o pote de água, bebeu um pouco, depois voltou e se deitou ao lado do filhote. O gatinho começou a mamar na hora. E ela comeu a ração ali mesmo, deitada, sem tirar os olhos de mim. Só que não era o olhar arisco de antes. Era outra coisa. Era um cansaço misturado com uma entrega que eu nunca tinha visto num animal.

Sentei no banquinho da lavanderia e chorei. Chorei baixinho, para não assustar. Fazia tempo que eu não tinha alguém que precisasse de mim assim — a ponto de me entregar o que tinha de mais frágil. Passei meses botando água e ração, e foi o suficiente para ela acreditar que a cria estaria segura aqui.

Fiquei até tarde naquela noite. Comprei pela internet um ninho forrado, latinhas de patê para filhote, uma mantinha térmica. Mandei mensagem para a veterinária da rua de baixo: «Márcia, aparece aqui amanhã. Tenho dois pacientes novos.» Ela respondeu com uma carinha surpresa e um «já vou».

De manhã, a gata saiu de novo. Voltou três horas depois com outro filhote. Depois mais um. Três ao todo — dois cinzas como ela e um pretinho com a ponta da cauda branca. Colocou os três no ninho que eu tinha montado no canto da lavanderia, perto do aquecedor portátil, e se acomodou.

Agora eles têm nome: a mãe é Vitória, os filhotes são Chico, Tom e Milinha. Já estão comendo ração sozinhos e derrubando as samambaias da frente. Dona Creusa passou outro dia, olhou por cima do muro e soltou: «Você não fecha a lavanderia? Vai entrar frio.» Eu respondi: «Agora é o quarto deles, Creusa.» Ela revirou os olhos, mas no sábado seguinte apareceu com um pacote de areia sanitária. Disse que era promoção do mercado e que «já que você insiste nessa maluquice, pelo menos mantenha limpo».

Semana passada coloquei uma placa na porta da lavanderia. Pequena, de madeira, queimada a ferro. O filho da vizinha que fez — o Júnior, que tem doze anos e adora as gatas. «Quarto da Vitória e Filhotes.» Ele pintou uma patinha no canto.

E quando eu acordo de manhã e vejo aqueles quatro enrolados na mantinha térmica, a orelha rasgada da Vitória se mexendo de leve enquanto ela dorme, eu penso no Nelson. Ele teria gostado. Ele sempre dizia que casa sem bicho é casa pela metade.

Agora está completa.

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