Pelo barulho do liquidificador

O anúncio do fim do meu casamento não veio com um grito ou uma batida de porta. Veio numa tarde de sexta-feira, semanas antes do jantar de bodas de prata, enquanto eu segurava a jarra do liquidificador industrial que salvou a nossa vida. Eu estava na cozinha da minha própria confeitaria, um salão modesto em Petrópolis, com o cheiro bom de massa folhada assando. O Rogério entrou sem avisar, como sempre fazia, o terno alinhado e o cenho já franzido. Ele examinou a bancada de inox, catou uma palha italiana ainda morna e mordeu com desdém.

— Tá muito doce, Eliana. Amarga o quindim também. Os clientes não vão aguentar isso, não. Você precisa me ouvir mais.

Ele não me perguntou como foi o dia. Não elogiou a fornada cheia, as tortas de morango enfileiradas ou o maço de encomendas para um batizado no sábado. O Rogério era assim: um fiscal da minha incompetência, um homem que transformava cada conquista minha num milagre da paciência dele. E eu aguentei. Durante vinte e cinco anos, eu aguentei calada cada correção pública, cada gole de opinião não solicitada e cada garfada atravessada no meu prato porque ele acreditava que eu engordava até pelos olhos.

É muito fácil, com o tempo, se tornar invisível dentro da própria pele. A gente vai cedendo para não brigar, vai engolindo seco para manter a paz em casa, até que um dia você percebe que é uma sombra na sua própria sala. Na manhã do aniversário de prata, eu acordei cedo. Passei um café no coador de pano, pus a mesa com o jogo americano de renda que herdei da minha avó e cortei fatias grossas de um bolo de fubá com erva-doce. O Rogério desceu as escadas arrastando os chinelos, o rosto amarrado.

— Que mania de botar erva-doce em tudo, Eliana. — Ele afastou o prato, como se eu tivesse servido lavagem. — Você sabe que me dá azia. Parece que faz de propósito. E esse café? Tá morno. Eu gosto fervendo.

Levantei sem dizer nada e pus a chaleira no fogo. Vinte e cinco anos esquentando café para ele. Vinte e cinco anos tirando o recheio amargo do bolo, ajustando o ponto do brigadeiro, passando a camisa com goma inglesa porque ele exigia um vinco que cortasse o papel. Eu dizia para mim mesma que aquilo era cuidado. Que aquilo era amor. Só que amor, minha filha, não pesa na garganta quando você acorda. Amor não faz você prender a respiração quando ouve a chave girar na fechadura.

O liquidificador da confeitaria era a coisa mais valiosa que eu tinha. Um trambolho de metal esmaltado, barulhento, que eu mesma comprei numa feira de usados em Areal, há muitos anos. Numa época dura, quando o Rogério foi mandado embora da oficina e ficou meses bebendo e se queixando no sofá, foi aquele monstro barulhento que encheu a geladeira de casa. Eu virava noites fazendo massa de pastel, mousse de maracujá, creme de confeiteiro. Acordava com as costas em carne viva e cheiro de gordura vegetal até no cabelo. Ele nunca me agradeceu. Aliás, ele varreu aquele período para debaixo do tapete e criou outra história: a de que eu era uma desnorteada que só não morreu de fome porque ele, com a lábia de sempre, arranjou os primeiros clientes para mim. E eu me calei. Aceitei a mentira.

Para o jantar das bodas, aluguei um espaço fechado de um bistrô na Rua Teresa. Eu queria algo leve, um jantar de massas artesanais com uns antepastos leves, mas o Rogério antecipou minha ligação e mudou tudo. Chegou em casa e jogou o cardápio novo na mesa.

— Massa com vinho branco? Isso é coisa de fraco. Mandei o rapaz preparar uma costela assada no bafo. Vai ter polenta frita, torresmo, vinagrete e bastante farofa. Bodas de prata não é chá de senhora.

O jantar foi isso: um banquete para os amigos dele. Sócios da revendedora de carros, primos folgados, um contador que ria com a boca cheia. As minhas parceiras de confeitaria, as duas meninas que me ajudam nas fornadas, couberam num canto apertado perto da janela. O Rogério presidiu a mesa com a desenvoltura de um rei. Ele contava causos em que eu sempre era a coadjuvante burra. Como quando eu, supostamente, reprovei três vezes na prova de direção e ele teve que me ensinar à força num carro emprestado, embora na verdade quem me ensinou foi meu pai, com uma Brasília amarela que rangia até na ladeira. Como quando eu confundi açúcar com sal e estraguei o jantar do chefe, quando na verdade a história era da irmã dele. E como atualmente eu não sabia investir o lucro da loja, e era ele quem me salvava da falência.

Eu mantinha um sorriso ensaiado. Um músculo retesado. Enquanto ele falava, eu me concentrava na mancha úmida que a jarra de suco de caju deixava no linho, no farfalhar irritante do papel da toalha. E então ele esticou o braço por cima da mesa. Com o garfo que ele mesmo tinha usado, lambuzado de molho de costela, ele espetou o medalhão de filé que estava no meu prato. Tirou o pedaço mais suculento, pingando gordura no meu guardanapo limpo. Mastigou com a boca aberta.

— Essa carne, ó, tá borrachuda. Tinha que ter pedido peixe, Eliana. Eu mandei você pedir peixe, não foi? Você nunca me escuta.

Foi a gota d’água. Ali, olhando para o garfo babado plantado em cima do meu guardanapo, eu senti um nojo físico, uma repulsa que esfriou o estômago e congelou o sangue. Afastei o prato com as duas mãos. Ele nem percebeu; já gritava para o Valter, um primo distante, sobre o preço do combustível. Eu não chorei. Um choro seria um sinal de derrota. O que eu senti foi um silêncio seco. Uma certeza mineral. Eu aguentei vinte e cinco anos. Mas naquele instante, o limite não só foi atingido: ele evaporou.

Na hora dos discursos, o Rogério se ergueu. Passou a mão no blazer, puxou a taça de suco de uva integral (porque o médico proibiu a bebida) e pigarreou.

— Meus amigos, meu povo. — Ele abriu os braços como um pastor no púlpito. — Vinte e cinco anos. É muito tempo. E eu vou ser muito sincero aqui, porque sinceridade sempre foi meu defeito. Aguentar casamento não é fácil, não. A gente cansa. Vocês sabem, a Eliana é uma mulher de personalidade forte, teimosa que nem uma mula. Cozinha mais ou menos, não cuida direito da casa e, bom, vocês estão vendo aí… o tempo chega para todo mundo.

Ele deu uma risadinha cínica, esperando a plateia reagir. Ninguém riu. O irmão dele ficou olhando para o prato. Minha amiga Clara apertou o guardanapo até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Mas eu sou um homem de responsabilidade. Falei que ia cuidar e cuidei. Carreguei essa cruz. E por isso, proponho um brinde. Ao meu santo e eterno sacrifício. À minha paciência. Minha.

Ele ergueu a taça bem alto. Foi quando eu me levantei. A cadeira arrastou no piso de taco e o som agudo varou a sala. Meu corpo tremia, mas não de medo. Era uma vibração de liberdade. Peguei minha taça de água mineral com gás e olhei bem na cara dele.

— Agora aguenta sozinho.

Três palavras. Ditas em voz baixa, mas naquela acústica tensa de sala de jantar, elas explodiram como um trovão. O Rogério congelou. A taça dele pendeu perigosamente para o lado, mas ele não desviou os olhos de mim.

— Que palhaçada é essa, mulher? Você bebeu o quê? Senta aí e vamos terminar isso direito.

Eu não sentei. Simplesmente larguei a taça na mesa, ao lado do garfo sujo e da mancha de gordura. Cruzei o salão. Meu vestido azul-marinho, aquele que ele dizia que me deixava gorda, deslizava sem fazer barulho. E atrás de mim, o barulho veio. Não dele. Veio da minha amiga Clara. Ela se levantou. Depois veio a cunhada que eu sempre apoiei quando o marido a humilhava. Depois veio uma atendente da confeitaria. E então metade dos convidados, inclusive o Valter, o primo, colocou-se de pé. Eles não estavam me vaiando. Eles estavam batendo palmas. Um aplauso firme, ritmado, que lavou a cena. O Rogério ficou parado, a cara vermelha, girando a taça na mão. O reinado particular dele desmoronou ali, no som daquelas palmas mornas.

Eu não parei para receber os cumprimentos. Caminhei pela calçada irregular de paralelepípedos, o ar fresco da serra entrando nos pulmões como uma lavagem. Petrópolis estava com aquele nevoeiro fino que deixa os postes amarelados. Peguei um táxi e voltei para casa.

A casa, um sobrado geminado no Bingen, estava escura e quieta. Sem televisão aos berros, sem o barulho irritante do tênis dele batendo na porta da sala. Acendi a luz do corredor e senti o cheiro de mofo que ele sempre culpava na minha "falta de cuidado". Respirei aquele cheiro como se fosse incenso. Subi as escadas e abri o guarda-roupa. Não havia pressa. Havia urgência, mas uma urgência metódica, quase cirúrgica.

Peguei duas malas grandes, daquelas de lona, e comecei a empilhar as coisas dele. Os ternos caros que eu mesma pagava com o dinheiro dos bolos de casamento. Os sapatos engraxados. A coleção de discos de vinil que ele dizia que eu não podia tocar porque arranhava a agulha. Fechei os zíperes. Arrastei as malas para a calçada, embaixo da marquise. Deixei um bilhete colado no cadeado: "Chave na portaria do seu Valdo".

Ele chegou quarenta minutos depois. Eu ouvi o motor do carro acelerando e freando bruscamente. A porta do carro bateu. Os passos pesados subiram a escada. A campainha tocou uma, duas, três vezes. Depois vieram os murros na porta de aço.

— Eliana! Para com isso, você tá me fazendo passar vergonha na rua. Abre essa porcaria de porta! Eu tô sem casa, sua desnaturada. Você quer me ver dormindo na rua?

Eu fui até a cozinha. Me curvei e peguei, lá do fundo do armário mais baixo, a jarra do meu liquidificador antigo. Limpei o pó. Encaixei na base. Liguei o aparelho na tomada e pus umas bananas, leite e um pouco de aveia. Girei o botão. O barulho ensurdecedor do motor vibrou nos azulejos. A casa inteira pulsou com aquele rugido mecânico que nos salvou da miséria. O som engoliu os berros dele do lado de fora.

No meio do ruído, enquanto a espuma cremosa subia pelas paredes de vidro, eu sorri. Um sorriso lento e genuíno. Pela primeira vez em duas décadas e meia, o barulho que dominava a casa era o meu. Eu me servi de um copo de vitamina. Provei. Estava doce. Do jeito que eu gosto.

Os vizinhos dos fundos acenderam a luz, talvez preocupados com o barulho tarde da noite. Eu não me importei. Sabia que ele ficaria ali, xingando o vento, até perceber que o portão eletrônico da garagem não abriria mais. Quando o último gole da vitamina desceu, eu já havia tirado do bolso o cartão do chaveiro vinte e quatro horas que eu mesma havia contratado. Programei a troca dos segredos da fechadura para a manhã seguinte, por duzentos e quarenta reais. Um preço barato para quem acabou de despejar um inquilino vitalício que não pagava nada, mas cobrava tudo. Deposito pago. Recibo no email. A vida real é muito mais simples do que aquele teatro todo.

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