O café esfriou na xícara pela segunda vez naquela noite. Dona Marina não tinha pressa. Sentada no sofá de veludo cor de vinho, na sala do apartamento em Água Verde, Curitiba, ela passava os dedos sobre a fatura do condomínio que chegara naquela tarde. A linha do boleto de agosto ainda mostrava “cota quitada” — porque ela pagava, há seis anos, todos os meses, sem falar nada.
Gabriel nunca perguntou de onde vinha o dinheiro da mensalidade do apartamento em que ele morava. Aliás, fazia três meses que ele não ligava. Marina sabia de cor o número do residencial: ela decorou quando ainda discava de orelhão, nos anos noventa, para dizer que a sopa estava pronta. Agora, o celular dele tocava e caía na caixa postal depois do quinto sinal.
Naquela tarde, uma vizinha do prédio dele — a dona Sônia, que morava no 601 — ligou para Marina. Coisa rara.
— Marina, o moço do banco veio aqui com uns papéis. O Gabriel está querendo vender o apartamento. Achei que você soubesse.
Ela não sabia.
Ficou olhando para o boleto nas mãos. Orelha de papel dobrada, marca de xícara em cima. O marido a deixara com uma poupança modesta e um colchão de renda de aluguel de uma salinha em Santa Felicidade. Aquilo nem dava para viajar, mas dava, todo mês, para cobrir a mensalidade do filho. Ela nunca entrou naquele apartamento. Gabriel comprou em leilão, desmanchou uma parede, colocou porcelanato. Marina só viu foto.
O interfone tocou às dez e quarenta da noite.
— Dona Marina, tem um moço aqui. Seu filho.
Ela abriu. O cheiro de chuva subiu pelo corredor antes dele. Gabriel entrou com o casaco encharcado e uma pasta de papéis na mão esquerda.
— Mãe, que história é essa de o banco não receber meu pagamento?
Ele falava baixo, mas a mandíbula tremia — aquela coceira de raiva que Marina conhecia desde que ele batia o pé no portão do colégio.
— Você bloqueou meu pagamento? — ele insistiu, jogando a pasta sobre a mesa de canto.
— Senta, Gabriel.
— Não vou sentar, não. Você acha que pode fazer isso?
Marina levantou. O chão de taco estalou sob os pés. Ela foi até a estante, onde guardava uma caixa de lata com documentos. Lá dentro, um envelope de papel manteiga, lacrado com fita adesiva.
— Você está vendendo o apartamento — disse ela.
— E daí? É meu. Preciso de dinheiro.
— Precisa por quê?
Ele desviou o rosto para o relógio na parede. Marina sabia aquele gesto: mentira chegando. Gabriel devia para o dono de um site de apostas. Ela ouviu pela irmã dele, que ouviu pela ex-mulher, que viu extrato no lixo.
— Vou abrir uma franquia — ele mentiu.
Marina puxou o papel do envelope. Mostrou sem cerimônia.
— Isto é um extrato da poupança que seu pai deixou e que eu sempre disse que era sua.
Gabriel pegou. Leu. Franziu a testa.
— Noventa e dois mil reais. O que é isso?
— Era o que eu ia te dar quando você fizesse trinta e cinco anos. Eu ia completar com o dinheiro da salinha. Chegava a cento e vinte. Mas você mal lembra que eu existo, então resolvi usar agora.
— Usar como?
— Transferi hoje de manhã para a conta da Alice. Uma conta de previdência em nome dela. Não precisa me agradecer.
Gabriel ficou pálido. Alice, a filha dele, tinha nove anos. Morava com a mãe em São José dos Pinhais. Ele não via a menina desde o Natal.
— Você tirou o dinheiro das minhas mãos para dar para uma criança que nem entende de banco?
— Eu não tirei de você, Gabriel. Eu tirei de uma aposta. Previdência para a Alice. Vence quando ela fizer dezoito. Nove anos de rendimento. Isso é quase o dobro.
O zumbido da geladeira enchia a sala. Gabriel esmagou o papel no punho. A chuva começou a bater na vidraça da varanda. Marina respirou fundo.
— O apartamento é seu. Vende se quiser. Mas a mensalidade, eu não pago mais. A partir de setembro, o boleto é seu. Se você quer vender, vende com dívida, ou quita antes.
— Eu não tenho esse dinheiro.
— Então arruma.
Ficaram em silêncio. Ela não ia explicar mais nada. Não ia dizer que o pai morreu pedindo que ela cuidasse do menino sem dinheiro na carteira. Não ia dizer que ela passou onze anos acordando de madrugada para conferir se o portão do filho batia. Isso era coisa que não se diz.
— Você sempre me sabotou — Gabriel sussurrou, por fim. — Sempre.
Marina não respondeu. Ela caminhou até a mesa, despejou o café frio na pia e abriu a torneira. A água escorreu sobre a xícara, formando uma espuma fina. Pela janela, entre as gotas, viu o farol do ônibus da linha 020 passando em direção ao centro. O último da noite.
— Eu nunca te sabotei — ela disse, sem se virar. — Eu só deixei de ser tua muleta.
Gabriel pegou a pasta. O zíper emperrou. Ele puxou com força. A pasta abriu e caiu um panfleto de uma corretora de imóveis, que Marina não viu, mas ouviu o papel batendo no piso.
— Eu vou vender essa merda de apartamento amanhã.
— Vende. Mas a Alice já tem a posse do futuro dela. Isso ninguém tira.
Ele riu, um riso seco, curto, sem humor.
— Você não é a mãe que eu queria.
Marina fechou a torneira. Enxugou as mãos no pano de prato pendurado no fogão. O tecido tinha estampa de morangos, desbotada de tanto uso.
— Eu sei — respondeu.
Gabriel saiu sem bater a porta. O vento balançou a cortina da sala. Marina ouviu os passos dele no corredor, depois o elevador. Ficou parada, olhando o panfleto no chão. Nele, a foto de uma mulher sorridente apontando para um prédio com sacada. Marina abaixou, pegou o papel, alisou as dobras e o colocou na gaveta do rack.
Minutos depois, a dona Sônia ligou de novo.
— O Gabriel saiu daqui bufando. Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu o que tinha que acontecer — Marina disse.
Ela sentou no sofá, achou o controle remoto na beirada da almofada, ligou a TV. Passava uma reportagem sobre a Festa do Pinhão em Ponta Grossa. Marina deixou. Encostou a cabeça no encosto. Não sentia raiva. Só um cansaço limpo, como se tivesse finalmente fechado uma porta que ficava batendo com o vento.
Naquela noite, dormiu sem rezar. Não precisava. Já tinha feito por onde.
