Ela comemorou quando eu saí. Mas não leu o contrato.

A Dona Neide, minha sogra, ficou parada na porta do apartamento, com os braços cruzados, e disse aquilo que eu nunca vou esquecer:

— Ainda bem que você vai embora. O apartamento fica pro meu filho.

Eu não tinha lágrima nenhuma. Segurei a alça da mochila e respondi:

— Dona Neide, o financiamento está em dois nomes. Metade é minha. A senhora não leu o contrato?

Depois fechei a porta. No corredor, o cachorro do seu Abílio latiu duas vezes. A lâmpada da escadaria piscou. Eu desci os oito andares a pé porque o elevador estava quebrado desde terça. E só chorei quando cheguei na rua.

Mas isso foi depois. Antes, teve muita história.

Eu e o Rafael compramos o apartamento em janeiro. Era um imóvel de 46 metros quadrados, um quarto, no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Financiamento de 30 anos pela Caixa. A primeira prestação, R$ 1.180, vencia no dia 10. Eu lembro dessa data até hoje, porque foi o dia em que a Dona Neide chegou com duas malas e uma sacola de feira daquelas quadriculadas, com três panelas de alumínio.

— Vocês têm uma panela só — ela disse. — Eu trouxe as minhas, que já estão curtidas.

O Rafael apenas disse: «Tá bom, mãe.»

Ela veio porque a casa dela, no bairro Caiçara, estava em reforma. Ia ser um mês. No máximo dois. A obra atrasou. Depois atrasou de novo. Em dezembro, ela já não falava mais da reforma. Só falava de como a nossa vida estava errada.

Eu trabalha como designer em um escritório na Savassi. O Rafael é analista de sistemas. A renda dava para a prestação, o condomínio, a feira. Só não dava para aguentar a sogra dentro de um apartamento de 46 metros.

Ela reclamava do café. Só bebia solúvel. Eu comprava o café em grão, porque o Rafael gostava de coar. Ela dizia que aquilo era desperdício. Reclamava do salmão que eu comprava na quinta para um jantar a dois. Dizia que com o preço de um pedaço, dava para fazer arroz e feijão a semana inteira. Ela não aceitava iogurte grego, dizia que fazia mal pro intestino. Mandava eu trocar o pão francês pelo pão de forma. O pão de forma, segundo ela, rendia mais.

O Rafael ficava calado. Ele ouvia, mexia no celular, e dizia: «Faz assim pra agradar ela, Ju.» Eu fazia. Aos poucos, fui parando de cozinhar. Passava na padaria e comprava marmita pronta. Para não ouvir comentário sobre o sal, a cebola, o alho.

Um dia, a Dona Neide usou a minha toalha amarela. A toalha de banho que eu ganhei do Rafael no meu aniversário de 28 anos. Ela deixou uma mancha de base no tecido. Base da Avon, tom bege. Eu vi e fui falar com ela.

— Dona Neide, a senhora usou a minha toalha amarela?

— Usei, uai. Precisava me enxugar. A minha verde estava molhada.

— A senhora tem duas toalhas. A amarela é minha.

Ela cruzou os braços e virou para o Rafael:

— Rafael, sua esposa está reclamando de uma toalha. Eu não acredito.

O Rafael saiu do quarto, sem camisa, com cara de sono:

— Ju, para com isso. É uma toalha. A gente lava.

Eu segurei a toalha na frente dele, mostrando a mancha:

— Não é a toalha, Rafael. É o limite. Ou ela sai, ou eu saio.

Ele coçou a cabeça. A Dona Neide começou a chorar baixinho, aquele choro de novela, ensaiado:

— Eu não tenho pra onde ir, meu filho. Eu tenho pressão alta. Eu vou morrer sozinha naquela casa sem reboco.

O Rafael virou o rosto para mim e disse:

— Ju, é a minha mãe. Você não entende? É a minha mãe.

Eu entendi. Fui para o quarto, puxei a mochila de ginástica que estava em cima do guarda-roupa. Comecei a empilhar minhas roupas. Duas calças jeans, três camisetas, um moletom, roupa íntima, carregador do celular, a necessaire. O Rafael ficou na porta, primeiro pedindo para eu parar, depois gritando. Eu não respondi. Peguei a escova de dentes no banheiro. A Dona Neide estava no corredor, de camisola e chinelos, com uma expressão de quem acabou de ganhar na loteria, mas querendo mostrar tristeza.

— Ju, pra que isso? Amanhã a gente conversa — ela disse.

Eu não respondi. Calcei o tênis, peguei a mochila e abri a porta.

E aí veio a frase. Ela levantou o queixo e disse:

— Ainda bem que você vai embora. O apartamento fica pro meu filho. Eu sempre soube que você era passageira.

Eu virei, segurando a maçaneta:

— Dona Neide, o imóvel foi comprado em união. Metade é minha. A senhora pode consultar qualquer advogado. A senhora é juridicamente analfabeta.

Ela fez um bico de desdém e disse: «A gente vai ver.»

Fechei a porta. Desci a pé. No corredor, o cheiro de feijão queimado do apartamento 302. O elevador quebrado. A rua estava vazia.

Fui para a casa da minha amiga Renata. Ela trabalha em um cartório de registros. Me acolheu sem fazer pergunta. Na primeira noite, eu dormi no sofá da sala dela. No dia seguinte, aluguei um quarto em uma pensão no bairro Floresta. R$ 800 por mês. Um quarto de 12 metros, com um armário velho e uma janela que dava para o muro. A dona da pensão, Dona Zilda, professora aposentada de matemática, me deu uma chave e disse: «Aqui ninguém incomoda ninguém.»

No fim de semana, liguei para a Renata e perguntei o óbvio:

— Renata, se separar, como fica o apartamento financiado?

— Metade pra cada. A dívida também. Vocês não fizeram pacto antenupcial, fizeram?

— Não.

— Então é meio a meio. Pode vender, quitar o financiamento e dividir o que sobrar.

Respirei fundo. Guardei a informação. Não era vingança. Era sobrevivência.

O Rafael ligou uma semana depois. Disse que a mãe tinha ido embora. Que quando soube que eu tinha saído, ela arrumou as malas e voltou para o apartamento em reforma. Que ele queria me ver, conversar.

— Ju, eu errei. Eu fui um idiota. Volta pra cá.

Eu apertei o celular contra a orelha. Ainda amava ele. Mas não dava.

— Rafael, você não me defendeu. Você ficou parado. Se eu voltar, daqui a um mês ela volta também. Ou pior. Você nunca vai me escolher. Eu vou dar entrada no divórcio. Assina logo, por favor.

Ele tentou argumentar. Eu desliguei. Desliguei o celular e fiquei sentada na cama rangendo, olhando para a parede descascada do quarto. O relógio da Dona Zilda batia as horas. O vizinho do lado, um senhor chamado Seu Geraldo, ligou o rádio na Rádio Itatiaia. Eu fiquei ali, imóvel, ouvindo o futebol.

O divórcio saiu em quatro meses. Sem filhos, sem acordo complexo. Vendi o apartamento com a ajuda de um corretor indicado pela Renata. Quitamos o financiamento. Sobrou R$ 180 mil para cada um. O Rafael ficou de pagar o condomínio atrasado. A Dona Neide, quando soube da venda, segundo uma vizinha do antigo prédio, passou mal na feira e teve que sentar na calçada.

Eu não comemorei. Guardei o dinheiro na poupança. Continuei no quarto da pensão. Dona Zilda me ensinava a fazer pão de queijo no domingo. Seu Geraldo me trazia goiaba do quintal dele. Eu comia o que eu queria, na hora que eu queria. O café em grão voltou para a minha rotina.

Um ano depois, fui aprovada no financiamento de um estúdio. 28 metros quadrados, no bairro Santa Tereza. Primeiro andar. Entrada de R$ 80 mil. Prestação de R$ 1.250. O banco me mandou uma carta. Eu abri o envelope na cozinha da pensão, com a Dona Zilda do lado.

Sentei na mesa. Peguei a caneta. No formulário, marquei o quadradinho «aceito os termos». Assinei. Coloquei a data. Dobrei a folha e coloquei de volta no envelope.

Nesse momento, o telefone tocou. Era um número desconhecido. Atendi.

— Juliana, é a Neide. Eu soube que você comprou um apartamento. — a voz dela estava doce, mas com aquele tom de cobra.

— Comprei. E a senhora quer o quê?

— Nada, só queria te parabenizar. E te avisar que o Rafael está mal. Ele se arrependeu. A casa do Caiçara continua sem acabar. Ele está gastando o dinheiro dele com a reforma, e eu estou sozinha. Mas fico feliz por você.

Eu segurei o envelope com o contrato na mão. Olhei para a Dona Zilda, que lavava uma xícara. Depois falei com voz firme:

— Dona Neide, eu não quero que a senhora me parabenize. Eu quero que a senhora entenda uma coisa: o apartamento que a senhora disse que ia ficar pro Rafael foi vendido. A metade do valor está na minha conta. Este estúdio aqui é meu. Só meu. A senhora não pisa nele nem para tomar um café solúvel. Está entendido?

Do outro lado, ela começou a falar, mas eu completei:

— E o Rafael, se ele está mal, ele que ligue. Mas não me peça para voltar. Porque eu não volto. Nunca mais.

Desliguei. Coloquei o telefone em cima da mesa. A Dona Zilda enxugou as mãos no avental e perguntou:

— Era a sogra?

— Era.

Ela apenas fez um muxoxo e foi para o quarto dela.

Eu fiquei ali, com o envelope na mão. Depois fui até a janela. Na rua, o cachorro do seu Abílio passou correndo atrás de uma moto. A lâmpada do poste acendeu. Eu abri a geladeira, peguei um pedaço de bolo de fubá que tinha sobrado do café. Sentei de novo. Comi o bolo com café em grão, olhando para a parede descascada e pensando que agora, finalmente, ela era só minha.

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