Me deram alta do hospital numa segunda-feira de chuva, aquele chuvisco fino de novembro que gruda na roupa. O médico explicou para os meus filhos, sem rodeios: depois do AVC, dona Sebastiana não pode ficar sozinha. Precisa de alguém para os remédios, para a comida, para não cair no box.
Eu estava sentada na cama, com a sacola no colo, a perna esquerda ainda meio formigando. A mão tremia quando eu tentava abotoar a blusa. Mas eu entendia tudo. Entendia até demais.
Meus filhos ficaram encostados na porta. A Eliane, minha filha, mexia no celular. O Rodolfo, meu filho, olhava para o relógio. Nenhum dos dois me olhou de verdade. Para eles, eu tinha deixado de ser mãe naquele instante. Tinha virado um problema logístico.
— Claro, doutor — disse a Eliane, com a voz doce de quem fala com estranho. — A gente resolve.
Resolveram.
Naquela noite, na casa deles, eu dormi na sala. O Rodolfo me deu um travesseiro fino e uma manta que pinicava. A Eliane fez sopa de pacote e ficou no sofá vendo novela. Ninguém me perguntou se eu queria água. Eu queria, mas não pedi.
Na manhã seguinte, escutei o que não era para eu escutar.
A cozinha deles é separada da salinha por uma porta de correr de alumínio. Ficou entreaberta. O Rodolfo achou que eu estava dormindo, mas eu estava só de olhos fechados, aquela dormência no braço esquerdo martelando.
— O apartamento dela vale mais ou menos trezentos e vinte mil — dizia ele, baixinho. — Mas tem a dívida do banco. Os quatro mil e oitocentos do empréstimo de quando o pai operou a próstata.
— E o que você sugere? — perguntou a Eliane, e eu ouvi o clique do isqueiro. Ela voltou a fumar, então.
— A gente assume a dívida. Em troca, ela transfere o apartamento para nós dois. Metade meu, metade seu. Aí pagamos a dívida, reformamos, alugamos. Ela fica morando no quartinho de empregada na sua casa, Eliane. Você tem espaço.
— E se ela não quiser?
— Ela quer. Mãe não quer ser um peso. A gente apresenta como se fosse uma solução. Isso é cuidado.
Isso era cuidado. Eu fiquei ouvindo, sentindo o cheiro da fumaça da Eliane se misturando ao cheiro do feijão queimado na panela. O Rodolfo queimava feijão desde criança. Eu nunca tinha coragem de dizer que ele não sabia fazer. Aí eles terminaram de arquitetar a vida deles e foram para a cozinha me acordar.
Engoli a raiva com aquele gosto de sopa de pacote que voltava na garganta.
— Mãe — começou a Eliane, me tocando no ombro — a gente precisa conversar sobre uma coisa séria. Para o seu bem.
Para o meu bem. Sento no ônibus às duas da tarde, com a receita médica dobrada no bolso da calça. A mão esquerda ainda falha quando eu seguro no corrimão, mas eu subo. O motorista espera. R$ 4,80. Eu separo as moedas contando nos dedos. Uma a uma.
Primeiro fui ao banco. Pedi o extrato do empréstimo. Quatro mil, oitocentos e trinta e dois reais e quarenta e sete centavos. Entrei no aplicativo que a mocinha da agência instalou no meu celular, aquele que meus filhos achavam que eu não aprenderia a usar. Aprendi.
Depois fui ao cartório. A moça da recepção me ofereceu café com rapadura. Eu já tinha o modelo da procuração salvo no bloco de notas. Não precisei de advogado, mas o rapaz de terno cinza, que pagava uma certidão, ficou me ouvindo explicar o que eu queria. Ele não disse nada. Mas vi quando ele tirou o celular do bolso e anotou alguma coisa. Talvez um lembrete para ligar para a mãe dele.
Saí de lá com o papel assinado e reconhecido por firma. Coloquei dentro da bolsa, naquele saquinho de tecido que a minha comadre me deu. Bolsa entre o corpo e o braço, como se carregasse uma criança.
A Eliane me mandou mensagem de voz: "Mãe, onde a senhora tá? Tá chovendo. Volta pra cá que eu preciso ir na academia às seis."
Eu não respondi. Subi a ladeira da minha rua, aquela do paralelepípedo, e parei em frente ao meu portão. O muro precisava de pintura, isso era verdade. A calçada tinha musgo. Eu já não conseguia mais varrer com força. Mas a casa era minha. Escritura no meu nome. Comprada em 1987 com o dinheiro da venda da casa da minha mãe. Meu pai morreu sem me dar nada, só a marmita de pedreiro. Minha mãe me deu o terreno. Meu marido, que descanse, não me deixou bens. Deixou duas calças sociais e um relógio que o Rodolfo usava escondido. O apartamento que eles queriam vender era a única coisa que eu tinha construído com as minhas mãos.
Parei na calçada. A vizinha do 17 veio conversar, com o cachorro preso na coleira. — Dona Sebastiana, a senhora melhorou? O povo anda falando que a senhora teve um troço.
— Tive um troço, sim. Mas já tô boa.
O cachorro cheirou minha perna e abanou o rabo. Ela puxou a coleira, sem paciência. O bicho ficou me olhando, com aquele olho castanho de quem entende mais do que a gente imagina.
— A senhora vai ficar aí fora? Tá garoando. Vai se molhar.
— Eu vou entrar já. Só tô esperando uma pessoa.
Ela não insistiu. Subiu a rua com o cachorro. O animal olhou para trás uma vez. Eu dei um meio sorriso, mas a boca saiu torta. Ainda estava reaprendendo.
Ele chegou às seis e vinte. O carro do Rodolfo, um Prisma cinza que eu ajudei a dar a entrada. Ele parou na porta, baixou o vidro.
— Mãe, que que cê tá fazendo aqui? Tá chovendo! Sobe logo que a Eliane tá nervosa.
Eu não subi.
— Chama a Eliane. Preciso falar com os dois.
— Mãe, fala comigo, depois eu falo com ela.
— Não — eu disse, e minha voz saiu firme pela primeira vez desde que eu acordei no hospital com a Eliane me gravando para mandar no grupo da família. — Chama a Eliane. Aqui. Na calçada.
Ele bufou. Pegou o telefone. Em dez minutos ela chegou de aplicativo, desceu com a sombrinha aberta e aquela cara de mártir.
— Mãe, a senhora vai me matar do coração. Tá frio, a senhora acabou de sair do hospital.
Eu não discuti.
Abri a bolsa. Tirei o saquinho de tecido. Tirei o papel dobrado. Abri com cuidado, porque a mão esquerda ainda tremia.
— Eu ouvi a conversa de vocês hoje de manhã — disse, e olhei para os dois. Eliane desviou o celular. Rodolfo coçou a nuca. — Ouvi o preço. Trezentos e vinte mil. Ouvi a dívida. Quatro mil e oitocentos. Ouvi o plano. Metade meu, metade seu, eu morando no quartinho da empregada da casa da Eliane. Só que tem um detalhe.
A chuva apertou. O Prisma cinza pingava. A Eliane segurava a sombrinha com força, os nós dos dedos brancos.
— Que detalhe, mãe? — perguntou o Rodolfo.
— Vocês dois não são donos de nada. E não vão ser.
A Eliane riu aquele riso de deboche.
— A senhora não pode cuidar da própria vida, mãe. Como que vai cuidar de um apartamento?
— Eu não preciso cuidar sozinha. Eu casei as escrituras do jeito que eu quis.
Naquela manhã, antes de sair da casa deles, eu tinha pegado a pastinha de documentos que ficava escondida na gaveta de calcinhas. Aprendi a esconder coisa ali trancada no banheiro da casa da minha filha. Era a escritura do imóvel, a certidão de casamento, o CPF. O resto era só a chave.
— Eu fui no cartório — continuei. — Registrei um usufruto vitalício no nome da Lara. A minha neta. A filha que vocês abandonaram porque ela não puxou o cabelo liso da família.
O silêncio que brotou na calçada era daqueles que dá para ouvir o pingar da chuva na sombrinha.
— Como assim, usufruto? Que palavra é essa? — a Eliane deu um passo para frente.
— É uma palavra que significa que enquanto eu viver, quem decide sobre o apartamento sou eu. E, quando eu morrer, é da Lara. Não de vocês. Vocês não recebem nem o dinheiro do gás que aquela casa consome.
Rodolfo ficou branco.
— A senhora fez isso escondida?
— Igual vocês fizeram comigo. Escondido. Mas eu fui no cartório. Não precisei usar a porta da cozinha.
A Eliane jogou a sombrinha no chão. A chuva bateu no rosto dela, borrando a maquiagem. Ela me olhava com um ódio que eu conhecia desde menina, quando eu não deixava ela ir para a balada.
— A senhora vai morrer sozinha, sabia? Sozinha e doente. E ninguém vai estar do seu lado.
— Eu já estava sozinha — disse eu. — Morando na casa de vocês, dormindo na sala, comendo sopa de pacote, sem direito a um copo d'água. Sozinha eu sempre fui. Agora eu tenho um documento.
Rodolfo pegou a chave do carro. — A gente vai atrás de um advogado. Isso não vai ficar assim.
— Vai ficar como está escrito. A lei é a lei. E o advogado custa caro. O dinheiro que vocês iam usar para pagar ele é o dinheiro que vocês iam me roubar. Então… — Eu dei de ombros. — Reza para o advogado ser barato.
Ele entrou no carro e bateu a porta com tanta força que a calota rachou. Eu vi a rachadura. Uma linha cinza na rodinha. Ele ligou o carro e saiu cantando pneu na ladeira. A Eliane ficou parada, com a sombrinha caída no chão, a roupa encharcada.
— Eu nunca te perdoei por ter ficado com a casa da vovó — disse ela, a voz sumindo na chuva. — Era pra ser de nós dois, depois que a senhora se casasse de novo. A senhora roubou da gente.
Eu me abaixei, com a perna esquerda latejando, e peguei a sombrinha do chão. Entreguei para ela.
— Eu me casei com o seu pai porque eu era jovem e burra. E fiquei sozinha porque ele morreu e vocês foram embora. A casa é minha. A última coisa que posso fazer por vocês é não deixar vocês venderem o único lugar onde eu ainda me lembro de quem eu fui antes de ser mãe de vocês.
Ela pegou a sombrinha, me olhou com aquele olho de filme de terror, e foi embora a pé. A sombrinha aberta, o salto da sandália estalando no paralelepípedo.
Fiquei na calçada. A chuva grossa. O portão verde descascado. A casa atrás de mim, escura, com a lâmpada da varanda queimada há três meses.
Eu abri a bolsa, peguei a chave. A mão esquerda tremia. Encaixei a chave na fechadura. Girei.
A luz da sala acendeu com um clique. O mofo, o cheiro de coisa fechada, a fotografia da minha mãe na parede torta. Tudo ali. Meu.
Peguei o celular, abri o aplicativo do banco. A mensagem da Eliane no grupo da família: "Mãe fez pior do que imaginei."
Digitei a resposta:
"Fiz o que tinha que ser feito. A dívida de quatro mil e oitocentos está paga. O boleto vence amanhã e eu paguei hoje de manhã. A Lara já está com a procuração. Assinou e reconheceu firma."
Fechei o celular. Coloquei a chave na mesinha da entrada. O barulho do relógio da cozinha marcava. Batia as horas.
Sentei no sofá, com a bolsa no colo.
E só então deixei a mão repousar, tremendo, no braço esquerdo.
Amanhã eu ia no mercado e comprar uma lâmpada nova para a varanda.
