O gramado era meu

Beatriz estacionou o Honda HR-V preto na frente do portão e ficou parada, com as mãos no volante. O motor ainda ronronava baixo, mas ela não desligou. Olhava para o centro do jardim. Ou melhor, para o que restava dele.

Onde antes havia um gramado verde-claro, aparado rente, com bordas de pedra branca, agora havia um retângulo de terra revolvida, escura, e uma estrutura torta de madeira apodrecida coberta por um plástico amarelado. Um cheiro de terra molhada subia pelo vidro aberto. A lâmpada da garagem piscava, soltando um zumbido.

Ela apertou o botão do cinto e saiu do carro. O salto do sapato afundou um centímetro na grama machucada. Atrás dela, o portão eletrônico rangeu ao fechar.

Dona Fátima apareceu na varanda, enxugando as mãos no avental. Ao ver a nora, mostrou os dentes num esgar, e Beatriz só notou os dentes de cima, brancos, e o queixo sujo de farinha.

— Chegou, filha! O Benedito e eu resolvemos adiantar a horta. Num instantinho fica pronta. Cebolinha, salsinha, tomate… A senhora sabe como é, comida de verdade.

Beatriz passou pela sogra sem encará-la. Sentiu o cheiro de massa de pastel fritando na cozinha. A casa, que ela tinha levado dois anos para projetar, estava quente e barulhenta. A TV da sala gritava um programa de auditório, e o som da terceira idade reclamando do preço da carne.

Ela subiu as escadas de madeira clara, contornou o corrimão de vidro e bateu a porta do quarto sem trancar. Jogou a bolsa na cama, abriu a gaveta da escrivaninha e tirou uma pasta cinza. Dentro, o contrato de compra e venda do terreno, a nota fiscal da construtora, o extrato do financiamento. Tudo no nome dela. Beatriz leu cada página com os dedos passando por cima das linhas, como quem confere se o papel não era falso.

Lá embaixo, a sogra gritou:

— Ô, Rafael! A Bia chegou! Diz pra ela descer, tem pastel quentinho!

Rafael não respondeu. Beatriz ouviu o barulho do sofá estalando, e imaginou o marido se levantando com a lentidão de quem está sendo arrastado.

Ela guardou a pasta na bolsa e desceu.

Na sala, Dona Fátima já tinha arrumado a mesa. Pastéis, uma jarra de suco de maracujá, pão de queijo. O marido, Seu Benedito, entrou pela porta dos fundos com as mãos imundas de terra e foi direto ao tanque. O cheiro de cebolinha picada invadiu a casa.

— Senta, Bia, senta — disse a sogra, empurrando uma cadeira. — O Rafa foi no mercado, já volta.

Beatriz ficou de pé. Tirou a pasta da bolsa e colocou sobre a mesa, afastando o prato de pastel.

— Dona Fátima, eu preciso conversar com a senhora e com o Seu Benedito.

A mulher parou de mastigar. Benedito fechou a torneira e enxugou as mãos na calça.

— Que foi, menina? Tá com cara de enterro.

— A senhora lembrou de quem é este terreno? De quem é esta casa?

Dona Fátima deu uma risada curta.

— Ora, você nunca esqueceu que a terra era do meu pai, que passou pro meu marido, que a gente deu pro Rafael quando vocês casaram. Eu sei que você pôs dinheiro na reforma, mas a raiz é nossa. Tanto que o Rafa é o dono, você é só a esposa.

Beatriz abriu o envelope de papel pardo e espalhou os documentos sobre o tampo de mármore.

— Aqui está o contrato de compra e venda. O senhor e a senhora assinaram. Venderam o terreno para mim, Beatriz Almeida, por oitenta mil reais. Pagos à vista, transferência feita do meu banco. Aqui está o recibo.

A sala ficou quieta, só o som do rádio na casa do vizinho. Dona Fátima piscou, puxou o papel para perto. Benedito se aproximou, ajustou os óculos.

— Oitenta mil? — ela balbuciou. — Mas isso foi simbólico… foi o custo de escritura…

— Simbólico ou não, a senhora assinou. E a escritura foi registrada em cartório. O terreno é meu. A casa é minha. Tudo o que está dentro, inclusive o gramado que o senhor cavou, é meu. E eu não autorizei horta, não autorizei parreiral, não autorizei nada.

Dona Fátima começou a tremer. Benedito ficou branco.

— O Rafa sabia disso? — perguntou a sogra.

— O Rafa nunca se interessou em saber. Ele assinou o contrato de construção como cônjuge, mas os recursos saíram da minha conta. A casa ficou pronta há três anos. Nos últimos dois, eu paguei cada prestação, cada conta de luz, cada IPTU. Ontem, quando o senhor começou a cavar, eu decidi que chega.

Ela pegou o celular, digitou um número e colocou no viva-voz.

— Alô? Dr. Sérgio? Aqui é a Beatriz. Preciso que o senhor venha aqui em casa com o oficial de justiça. Tenho pessoas que se recusam a sair do meu imóvel.

Dona Fátima tentou falar, mas a voz saiu falha. Benedito segurou o braço da mulher.

— Você vai colocar a polícia na gente? Depois de tudo? — ele perguntou.

— Não é polícia, é oficial de justiça. E não é depois de tudo. É depois de vocês terem invadido meu jardim, destruído meu projeto de paisagismo que custou vinte e dois mil reais, e me desrespeitado dentro da minha casa.

Rafael entrou naquele momento, segurando sacolas de supermercado. Viu os papéis, a mãe chorando, o pai de cabeça baixa.

— O que tá acontecendo? — ele deixou as sacolas caírem no chão. Uma embalagem de macarrão rolou até o pé da mesa.

— Eu estou mostrando para seus pais quem é o dono desta casa, Rafael. E você? Você vai ficar do lado deles ou vai assinar o que precisa assinar?

Ele olhou para a mãe, depois para Beatriz. A sogra fez um gesto com a mão, como se dissesse "defende tua mãe".

— Bia, você tá sendo cruel… A gente pode conversar, eles podem ficar no quarto de hóspedes, a horta pode sair…

Beatriz pegou um dos papéis e o estendeu para o marido.

— Aqui está o documento que comprova que eu sou a única proprietária. Você quer que eu leia em voz alta? Você é meu marido, mas não é dono de nada. Nem do sofá onde você dorme quando fica bravo.

Rafael recuou. Ele não sustentou o encarar. Baixou a cabeça.

— Eu só queria paz…

— Paz? Você deixou sua mãe destruir meu jardim. Você me chamou de mandona na frente dela. Você nunca me perguntou se eu queria horta. Isso não é paz, é covardia.

Ela se virou para a sogra.

— A senhora tem uma hora para arrumar suas malas. O Seu Benedito também. Depois disso, o Dr. Sérgio chega com a ordem de despejo. E aí o caso vai para o fórum, e a senhora vai ter que explicar por que invadiu uma propriedade privada.

Dona Fátima tentou argumentar, mas só saiu um som engasgado. Benedito já estava subindo as escadas, arrastando os pés.

Uma hora depois, Beatriz estava na frente do portão, com uma caixa de ferramentas na mão. Ela tinha trocado o segredo do portão eletrônico. As malas dos sogros estavam empilhadas na calçada. Rafael saiu por último, carregando uma mochila e um travesseiro.

— Você vai se arrepender — disse a sogra, com a voz embargada. — Eu vou rezar pra Deus tocar seu coração.

Beatriz não respondeu. Ela só girou a chave no portão, ouviu o clique, e depois destrancou a porta da frente, entrou e passou o trinco.

Na cozinha, a mesa ainda estava suja de farinha e suco de maracujá. Ela abriu a gaveta, pegou um pano, e começou a limpar. Depois, sentou-se no sofá, pegou o telefone e abriu o aplicativo do banco. Transferiu trezentos e cinquenta reais para o chaveiro e agendou para as oito da manhã a troca das fechaduras da porta da cozinha.

O gramado continuava revirado, mas Beatriz sabia que, em três semanas, a grama voltaria a crescer. Ela já tinha ligado para o paisagista. O orçamento era de quatro mil e setecentos reais. Ela confirmou por mensagem.

Na calçada, o som de um táxi freando. Depois, o barulho de portas batendo. Depois, nada.

Beatriz pegou a pasta cinza, guardou os documentos no cofre que ficava atrás do quadro na sala, e foi até a varanda. O ipê amarelo da casa vizinha estava florido, e as pétalas caiam sobre a calçada. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada e pastel queimado.

Não era vingança. Era só o fim de uma história que ela não queria mais pagar.

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