Ouvi a voz do Eduardo antes de girar a chave. A porta do apartamento estava entreaberta, e ele falava ao telefone com a mãe, dona Neusa, aquele tom manso que eu já conhecia — o tom de quem já decidiu tudo e só está avisando.
— Fica tranquila, mãe. Em maio a gente muda de vez. O apartamento vai ficar alugado, e a Isadora estuda na escola da cidade. A senhora já separou o quarto?
Parei no corredor. A sacola de feira pesava no braço esquerdo, e o cheiro de cloro do elevador recém-lavado subiu pelo nariz. A lâmpada do hall estava queimada havia três semanas, e ninguém do condomínio trocava. O porteiro, seu Raimundo, me acenou de longe, sem entender por que eu não entrava.
Respirei fundo e empurrei a porta. Eduardo desligou o celular e me olhou por cima do ombro, como se eu fosse uma visita indesejada.
— Chegou cedo hoje, Ana Paula.
Deixei a sacola em cima do balcão da cozinha. As laranjas rolaram para fora, uma caiu no chão e foi parar debaixo da geladeira. Ninguém fez menção de pegar.
— Eu ouvi. Você marcou a mudança para maio sem falar comigo?
Ele cruzou os braços. — Decidi o que é melhor para a nossa família. Meus pais estão velhos, o sítio em Guarapuava exige muito trabalho. Não dá mais para eles ficarem sozinhos.
— E eu? E a Isadora? A nossa vida em Curitiba? Você simplesmente riscou tudo do papel?
Eduardo foi até a sala e se jogou no sofá. Eu fiquei parada na cozinha, as mãos segurando a borda do balcão, sentindo a pedra fria contra os dedos. No andar de cima, a vizinha começou a passar aspirador de pó. O cachorro do apartamento 304 latiu duas vezes.
— Ana Paula, meus pais criaram três filhos naquele sítio. O terreno é grande, tem galinheiro, horta. Você sabe o quanto dona Neusa sofre sozinha com o manejo. Meu pai nem consegue mais subir no trator.
— Então que vendam o sítio. Ou que a sua irmã, a Márcia, vá morar lá com os três filhos dela. Eles passam o verão inteiro sugando seus pais.
Eduardo levantou-se de um pulo. — Não fala assim da minha família! Márcia tem a vida dela em Ponta Grossa.
— E eu tenho a minha vida aqui. Trabalho no hospital, ganho mais que você, e a Isadora treina ginástica olímpica três vezes por semana. Ela vai competir no estadual em agosto. Você quer que ela largue tudo para alimentar galinha?
Ele bufou. — Ginástica não vai dar futuro para ninguém. Escola do interior é até melhor, menos violência, menos droga.
— Menos violência? Você nunca pisou numa escola rural. E droga? O filho do caseiro foi preso no ano passado por tráfico. Não vem com essa conversa fiada.
A discussão durou mais de uma hora. Eu falei da minha licença de enfermagem, do plantão noturno que eu não podia simplesmente largar, do dinheiro que eu vinha juntando para a viagem de férias com a Isadora para Porto Seguro. Ele rebatia com o discurso de que família é tudo, que os pais não têm mais condição de pagar as contas sozinhos, que a horta produz verdura sem veneno e que o ar puro do campo valia mais que qualquer salário.
No fim, Eduardo bateu a porta do quarto e gritou:
— Eu já decidi. Em maio a gente se muda. A Isadora vai estudar na escola municipal de Guarapuava. E o apartamento vai ser alugado, para ajudar nas despesas do sítio.
Sentei no chão da cozinha, com a laranja ainda debaixo da geladeira. Peguei o celular e calculei quanto eu tinha na poupança: vinte e três mil reais. Suficiente para pagar um advogado e segurar as pontas por uns quatro meses. Se ele queria guerra, teria.
No dia seguinte, eu e a Isadora fomos ao parque. Ela treinava no circuito de madeira, fazendo acrobacias simples, e eu observava os meninos jogando futebol com os pés descalços. Um senhor vendia picolé de coco por seis reais, e eu comprei dois, só para segurar a mão da minha filha e sentir que ela ainda era minha.
— Mãe, o papai falou que a gente vai morar no sítio. É verdade?
Olhei para as mãos dela, pequenas e calejadas de tanto treinar nas barras assimétricas. Eu não ia deixar que aquilo terminasse.
— Não, filha. A gente não vai.
Na semana seguinte, quando Eduardo percebeu que eu não ia ceder, mudou de estratégia. Começou a me pressionar todos os dias: que eu estava sendo egoísta, que abandonava os sogros, que a Isadora ia crescer mimada e sem raiz. Até que numa noite ele soltou:
— Então eu vou sozinho. Fico no sítio com meus pais. Mas você precisa entender que este apartamento é nosso, e eu vou querer a minha parte.
O apartamento estava no meu nome desde o início. Comprei com o dinheiro do meu pai, antes de casar. Mas Eduardo nunca aceitou essa parte. Para ele, o que era meu era nosso, e o que era dos pais dele era só dele.
— A casa é minha, Eduardo. Documentada em cartório. Você não tem direito a nada. E se quiser ir, beleza. Vai com as suas coisas. Mas a Isadora fica comigo.
Ele riu, aquele riso de quem achava que eu estava blefando.
— Você não vai aguentar.
Aguardei. Em maio, quando as aulas da Isadora terminaram, reservei uma pousada em Canasvieiras, em Florianópolis, por dez dias. Paguei tudo com o meu cartão. Eduardo não me acompanhou. Ele disse que tinha "compromissos urgentes no sítio" — o mesmo discurso de sempre.
Voltei no dia 2 de junho. Abri a porta do apartamento e senti o vazio antes de ver qualquer coisa. A estante da sala estava sem a televisão de sessenta polegadas. Na cozinha, o micro-ondas tinha sumido. No banheiro, a máquina de lavar era outra — uma velha, enferrujada, que eu nunca tinha visto.
A Isadora correu para o quarto dela e gritou:
— Mãe! O meu tablet sumiu! E a minha bicicleta também!
Liguei para o Eduardo. Ele atendeu no segundo toque.
— Tranquilo, Ana Paula. Eu levei o que era meu. A televisão foi presente dos meus pais, a máquina de lavar eu comprei com meu salário. O tablet da Isadora… bom, foi presente deles, então ficou com eles. A bicicleta também.
— Você tirou a bicicleta de uma criança de nove anos?
— Ela vai morar no sítio, não precisa de bicicleta para andar no asfalto.
Minha voz saiu baixa. Foi pior que gritar.
— Eu não vou para o sítio, Eduardo. Você pode levar o que quiser. Mas saiba que a sua atitude de hoje acabou com qualquer chance de reconciliação.
Ele bufou do outro lado.
— Então eu peço o divórcio. E você vai ver o que é bom para você.
— Pode pedir. Eu assino.
Dois dias depois, fui ao cartório e mudei a fechadura do apartamento. Troquei o cilindro por um novo, de segurança extra. Depois fui ao banco e encerrei a conta conjunta, transferindo todo o meu salário para uma conta pessoal. O advogado deu entrada no divórcio litigioso na quinta-feira, e na sexta eu protocolei o pedido de pensão alimentícia para a Isadora. Naquela época, Eduardo ainda trabalhava como técnico agrícola em uma cooperativa de Guarapuava, com carteira assinada, e o juiz fixou o valor em oitocentos reais mensais, descontados direto da folha.
Eduardo ficou furioso. Me encheu de mensagens, dizendo que eu era uma aproveitadora. Ele tentou voltar atrás, ligou para a minha mãe, chorou que tinha cometido um erro, que queria a família de volta.
Eu não atendi mais as ligações dele.
No fim de junho, a Justiça concedeu a guarda compartilhada, mas com residência fixa comigo. As visitas para ele ficaram quinzenais, sempre aos sábados, das nove ao meio-dia, em local público. A Isadora, no primeiro encontro, após duas horas, me mandou uma mensagem pelo celular:
— Mãe, ele passou o tempo todo falando no telefone com a avó.
Eu não respondi. Apenas fiz o que tinha que fazer.
Em agosto, coloquei o apartamento à venda. O mercado estava aquecido, e eu consegui um comprador em três semanas. Fechamos por quatrocentos e oitenta mil reais, exatamente o valor que eu tinha em mente. Com o dinheiro, comprei um apartamento menor e já quitado em um bairro que ele não conhecia, no Cristo Rei. Mudei a Isadora de escola duas semanas depois. Ela entrou para a equipe de ginástica do clube, onde treinava com uma treinadora que já tinha levado atletas para o campeonato sul-americano.
Eduardo nunca soube o endereço novo. Ele me ligava, pedia para ver a filha, e eu cumpria o que a Justiça mandava: o encontrava no shopping, sempre com a Isadora, sempre no horário. Ele chegava com cheiro de estrume e graxa de motor, as mãos calejadas de capinar. Ele falava da vida no sítio, da colheita de milho, do novo leitão que os pais compraram. A Isadora ouvia em silêncio, chutando pedrinhas no estacionamento.
Um ano depois, ele perdeu o emprego na cooperativa — o sítio dos pais não deu conta de sustentar todo mundo, e ele passou a trabalhar de caseiro numa propriedade vizinha, por um salário mínimo. A pensão foi revista pela Justiça e caiu para trezentos e cinquenta reais, o teto que a lei permitia tirar do novo salário dele.
Num sábado de setembro, ele me ligou mais cedo.
— Ana Paula, estou sem dinheiro para o combustível. Será que você pode me emprestar cinquenta reais para eu ir buscar a Isadora?
— Eduardo, a visita é sua. Se você não pode buscá-la, eu não vou levar. E não me peça mais dinheiro emprestado. Você fez a sua escolha.
Ele desligou sem responder.
Hoje, a Isadora está com onze anos. Eu a vejo crescer segura, longe do mundo que ele queria impor. Eu continuo no hospital, no plantão noturno. Aos sábados, quando ela vai encontrar o pai, eu a deixo no portão do shopping e volto para casa, abro a janela do quarto e deixo o vento entrar. No apartamento novo, as paredes são nuas, sem fotos de casamento, sem lembrança do que poderia ter sido.
Eduardo continua no interior. O pai dele morreu dois invernos atrás, e dona Neusa foi morar com a filha, dona Márcia, que vendeu a casa de Ponta Grossa e se mudou para um loteamento em Curitiba, perto da rodoviária. Ele ficou sozinho no sítio vizinho onde trabalha, numa casinha de caseiro com telhado de amianto. Às vezes bebe demais no fim de semana — foi a própria Isadora quem me contou, sem drama, só relatando o que via.
Na última vez em que nos vimos, há uns dois meses, ele me pediu para voltar para ele. Falou que estava arrependido, que sentia falta de nós, que a vida no sítio não era o que ele imaginava.
Eu o olhei nos olhos e abri a bolsa. Tirei de dentro a escritura do apartamento do Cristo Rei, registrada em meu nome, e mostrei sem entregar.
— O endereço nem você sabe, Eduardo. E não vai saber.
Fechei a bolsa. Ele ficou ali, parado, as mãos no bolso da calça suja de barro, os olhos vermelhos de quem não dorme direito. Não disse mais nada. Apenas virou as costas e caminhou até o carro velho, um Palio azul já sem o escape, que soltou fumaça preta quando ele arrancou.
Fiquei no portão do shopping até a fumaça se dissipar no ar. Depois fui para casa, preparei um café e sentei na varanda. A Isadora chegou uma hora depois, jogou a mochila no sofá e foi direto para o quarto treinar as pontas dos pés na barra que eu tinha instalado na porta. O café esfriou na xícara, e o cachorro do vizinho latiu duas vezes, do mesmo jeito de sempre.
