A bicicleta elétrica me custou R$ 5.200. Sete meses depois, vendi por R$ 3.800. A diferença — R$ 1.400 — eu encaro como o preço da paz. Mas essa conta não aparece em nenhum extrato. Foi um acerto comigo mesma.
No início, ninguém entendeu. Meu filho Eduardo, quando soube, riu pelo telefone: "Mãe, a senhora vai quebrar o fêmur e me chamar às duas da manhã. E pra quê? Pra comprar pão? Pagou quanto? R$ 5.200? Tá maluca."
Não respondi. Havia algo na voz dele que eu reconhecia bem: o mesmo tom de quando me pediu R$ 1.000 emprestado pros pneus do carro, em setembro. Na época, eu já tinha separado quase tudo. Mentira não disse; só falei "não posso agora". E ele guardou.
Mas deixa eu voltar. Eu tenho sessenta e três anos. Moro no terceiro andar de um prédio sem elevador no Água Verde, em Curitiba. A janela da cozinha dá para a ciclovia do rio Belém. Em outubro, quando comprei a bicicleta, a Dona Izaúra, do térreo, tinha me empurrado essa ideia por meses. Ela já pedalava a dela e vivia falando: "Irene, joelho não dói sentada? Aqui em cima não dói. Compra uma igual."
O ortopedista do SUS tinha sido claro: artrose, movimento sem impacto, subir escada é castigo. E eu subia e descia todos os dias. O ponto de ônibus ficava a três quadras, e o especialista atendia no bairro Santa Cândida — quase uma hora de viagem com baldeação. A aposentadoria não dava para carro. Então fiz as contas. R$ 5.200. Bateria de 350 watts, quadro baixo, cestinha. Fui na loja da Rua Chile, assinei a nota e trouxe.
A primeira volta no quarteirão? Não sei descrever. O vento batia no rosto, os pés giravam sozinhos, o motor empurrava nas subidas. Meus joelhos não reclamaram. Passei em frente ao portão, e o vira-lata Bolinha, do síndico, latiu. Joguei um pedaço de pão. Ele abanou o rabo.
Depois de dois meses de verão, eu tinha virado outra. Ia na Feirinha do Largo da Ordem comprar frutas, na padaria São Pio pegar pão quente, e ainda fazia a ciclovia até o parque. Dona Izaúra batia palma da janela: "Rejuinesceu dez anos!"
Então, em março, Eduardo apareceu. Estacionou a caminhonete na frente do prédio. Subiu, aceitou um café, passou a mão no armário da cozinha — ele sempre faz isso, como se procurasse poeira, mas nunca limpa nada. Depois soltou:
— Mãe, a Carla mudou de emprego. Trabalha em São José dos Pinhais, vinte e dois quilômetros daqui. Só temos um carro. A senhora empresta a bicicleta pra ela experimentar no fim de semana? Na segunda eu trago de volta.
Segunda. Claro. Meu filho tem quarenta anos, braços de pedreiro, mãos que esmagam lata. E pediu a bicicleta que chamou de "loucura de velho". Eu apenas abaixei a cabeça e ajudei a descer. Ele prendeu na caçamba com uma corda surrada. A Carla nem saiu do carro.
Passou o fim de semana. A semana. O mês. Liguei numa quinta:
— Edu, e a bicicleta?
— A Carla gostou, mas ainda não pegou o caminho. Vou no domingo.
O domingo virou outro. E outro. A cada ligação, eu sentia isso: estava pedindo para usar o que era meu. Em abril, desci as escadas para ir ao mercado. Em maio, fui a pé na padaria da esquina, e as pernas reclamaram da ladeira. A ciclovia ficava vazia, e a Dona Izaúra passava embaixo da minha janela, acenando. Eu respondia com um pano de prato e voltava para a cozinha.
Em agosto, uma semana depois da colheita do feijão no sítio da família da Carla, o Eduardo chegou sem avisar. Bateu na porta arrastando a bicicleta. Estava uma lástima: lama seca nos para-lamas, selim rasgado, uma figurinha do time colada no quadro. E a bateria? Morta. O carregador — lógico — ficou lá.
— Devolvi, mãe. Obrigado aí.
Apertei o botão. Nada. Nem uma luzinha. Ele já estava descendo as escadas.
Levei três semanas para conseguir o carregador de volta. Nesse tempo, a bicicleta ficou encostada na área de serviço, como um móvel velho. Quando finalmente carreguei e desci até a ciclovia, o ar de agosto cortava as mãos. Pedalei até a esquina e voltei. Os joelhos estavam lá, mas a alegria de outubro não. Aliás, o que eu sentia era outra coisa: um vazio de quem emprestou não a bicicleta, mas a própria vontade.
Na semana passada, o telefone tocou.
— Mãe, a Carla quer comprar uma bicicleta igual à tua. Ela se adaptou. A senhora podia ajudar com R$ 1.000, né? Vai te voltar: a Carla passa na tua rua quase todo dia, te dá carona.
Eu estava na cozinha. A bicicleta, limpa e carregada, encostada na parede. Ao lado, preso na porta da geladeira, um bilhete que a Dona Izaúra tinha enfiado embaixo da porta: "Irene, se quiser vender, eu pago R$ 3.500."
Dei uma respirada. Falei:
— Deixa eu pensar, Edu.
Desliguei. Dobre o bilhete em quatro. Guardei no bolso do avental.
Na manhã seguinte, bati no apartamento da Dona Izaúra. Ela estava regando as plantas na entrada.
— A oferta ainda de pé? — perguntei.
Ela endireitou as costas, desligou a mangueira.
— Tá, R$ 3.500.
— Faça R$ 3.800 e eu jogo o cadeado junto.
Ela riu.
— Fechado, Irene. Mas me conta: por que essa pressa?
Não respondi. Tirou o dinheiro do armário, em notas de cem. Eu peguei uma folha de caderno, escrevi o contrato: "Vendo a bicicleta elétrica, marca tal, por R$ 3.800, em definitivo." Assinei. Ela assinou. Subi, desci a bicicleta, entreguei o carregador. A Dona Izaúra saiu pedalando pela calçada, e o Bolinha latiu atrás.
Coloquei o dinheiro no banco naquela tarde. A gerente perguntou se eu queria poupança ou CDB. "Qualquer um", falei.
Dois dias depois, o Eduardo apareceu. Nem telefonou. Bateu na porta com força. Quando abri, ele já entrou, foi direto para a área de serviço. Viu o chão vazio.
— Cadê a bicicleta?
Peguei o contrato dobrado no rack, estendi para ele.
— Vendi, Edu. R$ 3.800. Tá no banco.
Ele abriu o papel. A mandíbula travou.
— A senhora vendeu a minha bicicleta?
— Tua? Acho que não. — Segurei o ferro da porta. — Os R$ 1.000 você não recebe. Nem agora, nem nunca.
Ele deu um passo para dentro, parou. A respiração pesada, a testa suada.
— Mãe, a senhora tá fazendo isso por quê? Por causa de uns meses? A gente ia devolver…
— Devolveu. Já estava devolvida. Suja, sem carga, sem carregador. — Abaixei o tom. — Vai lá, Edu. A Carla passa na minha rua quase todo dia. Pede carona pra ela.
Ele ficou parado ali, o contrato amassado na mão. Depois virou as costas e desceu. A porta do prédio bateu embaixo.
Eu sentei na poltrona da sala. Liguei a TV. Estava passando o jornal local. A previsão era de geada para o sul. Peguei o controle, mudei para um canal de receitas. O Bolinha latiu na calçada. A Dona Izaúra passou na ciclovia, de bicicleta elétrica, a cestinha cheia.
