A gaveta que a sogra não deveria abrir

O grito veio do andar de cima.

Eu estava na cozinha, cortando tomate para a salada. O cheiro do arroz frito se misturava ao feijão que borbulhava na panela de pressão. O ventilador de teto girava. Na sala, o pagode tocava baixo na caixinha do Rafael. Ninguém ouviu o barulho da gaveta abrindo. Só ouviram o berro.

— Meu Deus! O que é isso aqui?

A voz da dona Creusa atravessou o corredor. Rafael derrubou o copo de cerveja no estofado. Subiu as escadas tropeçando. Eu continuei cortando o tomate. Fatia por fatia, sem pressa.

A pasta estava no lugar certo: terceira gaveta, embaixo das calcinhas de renda azul, bem no fundo.

Três meses antes, eu ainda achava que o cabelo no móvel era paranoia. Engano meu.

Casei com o Rafael num sábado de setembro, no cartório da Avenida 85. A mãe dele chorou e me abraçou. Abraço de quem aperta osso. Depois, na festa, me chamou de "nora que usava muito salto". Eu ri.

Na volta da lua de mel, alugamos um apartamento de dois quartos no Setor Bueno. Dona Creusa apareceu na primeira segunda-feira, com uma chave reserva na mão. Aí eu descobri que o Rafael tinha dado a chave para ela sem me falar.

— É só para emergência — ele disse.

Na terça, cheguei do trabalho e vi que o espelho do meu quarto estava torto. Na quinta, uma escova de cabelo minha sumiu da bolsa e apareceu dentro do sapato. Na sexta, dobrei uma camisola rendada da esquerda para a direita. Quando voltei, ela estava virada ao contrário.

Conversei com Rafael na hora do jantar. Ele nem tirou o prato de arroz.

— Sua mãe anda mexendo nas minhas coisas.

— Ela só quer ajudar. Você é muito desconfiada.

— Eu tirei foto. Quer ver?

Mostrei a tela do celular: a gaveta antes de sair, a gaveta depois de voltar.

— Isso não prova nada. E para com essa neurose. Minha mãe tem todo o direito de verificar se você cuida da casa.

Ele disse isso e continuou comendo. Aí eu entendi: sozinha naquela história, eu não era testemunha. Era pedaço do cenário.

Passei a registrar tudo. Fotografava a disposição dos objetos antes de sair. Pregava um fio de cabelo na fresta da gaveta. Marcava a data e a hora num caderno de capa preta que ficava atrás do pote de açúcar.

Mas o pior não foi mexerem nas minhas coisas. Foi quando eu abri o tablet da família, aquele que ficava carregando na tomada da sala. O Rafael deixou a conta aberta. E lá estava a conversa inteira entre ele e a mãe.

A Creusa mandava: "Fui lá, a gaveta do banheiro está cheia de absorvente importado. Gastança." E ele respondia: "Vê se ela escondeu cartão no fundo do armário. Aposto que tá gastando mais do que ganha."

Fiquei parada com o tablet na mão, os pés no chão gelado. Ele não queria só me vigiar. Ele usava a própria mãe para fuçar minha intimidade, enquanto escondia uma dívida que descobri depois. Trinta e oito mil e setecentos reais em aposta online. A fatura do cartão chegou pelo correio. Ele pegou antes de mim, mas o extrato ainda ficou na lixeira do banheiro.

Aí eu montei a pasta. "Relatório das vistorias da sogra." Nome bem burocrático. Dentro, separei tudo: fotos com data e hora da gaveta revirada, prints do grupo, extrato do banco, anotações. Imprimi em papel sulfite 75 gramas. Coloquei tudo em capa transparente.

E deixei a pasta no fundo da terceira gaveta.

Porque eu sabia que a dona Creusa ia voltar. Ela não resistia.

Voltando ao domingo.

Terminei a salada, lavei as mãos e subi. Não corri. Encontrei a cena: a Creusa parada na frente do guarda-roupa, com a pasta aberta nas duas mãos. O Rafael entrou logo atrás de mim. A cara dele ficou branca. A dela, vermelha.

— Isso é uma montagem! — ela gritou.

Eu fui até a cômoda e apontei para a página três.

— Lê. "Abre a terceira gaveta." Quem mandou?

Ela apontou o dedo para mim.

— Você mexeu nas coisas do meu filho…

— Ele escondeu uma dívida de trinta e oito mil e setecentos. E usou a senhora para revirar minha calcinha. Parabéns.

O Rafael tentou tirar a pasta da mão da mãe.

— Para, todo mundo. Vou explicar…

— Explica lá embaixo. Tem visita.

Desci. Na sala, a Patrícia, o marido e as crianças estavam na frente da televisão. O pagode tinha parado. Peguei o tablet, liguei o navegador na TV de quarenta e oito polegadas. Aí abri a pasta digital e fui passando uma por uma.

Primeiro, as fotos da gaveta revirada.

Segundo, os prints do grupo: "Revira a gaveta do banheiro."

Terceiro, o extrato do cartão com a dívida.

A Patrícia largou o copo de guaraná na mesa. O cunhado puxou a cadeira para trás. Uma das crianças perguntou: "Mamãe, o que é calcinha?"

Depois que a TV mostrou tudo, a Creuse desceu sem a pasta. O Rafael veio atrás.

— Devolve a chave reserva.

Ela apertou a bolsa contra o peito. Ninguém se mexeu.

— Não vou repetir.

A mão tremeu. Ela abriu o fecho, enfiou os dedos, tirou a chave e atirou na mesa de centro. O vidro tilintou.

— Agora os dois. Fora.

A Patrícia tentou: "Leticia, deixa eu…"

— Leva a sua mãe. Antes que eu chame a polícia.

Saíram. Primeiro a Creuse, puxada pela filha. Depois o Rafael, que ainda tentou argumentar na porta. Eu fechei a porta atrás. A chave virou duas vezes. O barulho da trava deu um clique.

Fiquei um tempo encostada na porta, com o corpo inteiro tremendo. Depois me levantei, fui até a cozinha, joguei o tomate no lixo e apaguei o fogo do arroz.

Dois dias depois contratei uma advogada. Dona Maristela, uma senhora de cinquenta e seis anos, cabelo preso com uma piranha azul. Ela cuidou da papelada. Primeiro, a separação de corpos. Depois, a partilha de bens. Quatro meses. O divórcio saiu numa sexta-feira.

Aluguei uma quitinete no Edifício Girassol, perto da Praça do Trabalhador. Janela para a rua, árvore de ipê amarelo na calçada. O cheiro de mofo ficou nas paredes do banheiro, mas eu pintei por cima com tinta branca.

Na quarta-feira da semana seguinte, pedi um kit de fechadura nova pelo Mercado Livre. Chegou em dois dias. Sentei no chão da entrada, peguei a chave de fenda da minha mala de ferramentas e tirei a maçaneta antiga. O cheiro de cloro subia da escada recém-lavada. O cilindro velho tinha marcas de arranhão da mudança. Coloquei o novo, rosqueei os parafusos. Testei três vezes. O clique fez um som seco.

No sábado, Rafael apareceu no interfone.

A tela da portaria mostrava ele com uma caixa de papelão, um boné enfiado na cabeça. Ele tentou abrir a porta do apartamento com a chave reserva antiga. Ouvi o arranhão no cilindro novo. A chave não entrou.

Aí ele tocou o interfone.

— Leticia, a chave não funciona.

Eu levantei o fone e falei baixo, mas com firmeza:

— Eu sei.

— Abre aí. Só vim trazer teus livros.

— Deixa com o porteiro.

— Você trocou a fechadura?

— Troquei. Agora vai embora, Rafael.

Do corredor veio um baque surdo na porta. Depois, os passos descendo a escada.

Eu abri o aplicativo do banco e fiz uma transferência. Digitei o valor no teclado do celular: quatro mil e oitocentos. A tela piscou em verde.

"Transferência realizada: R$ 4.800,00 — honorários advocatícios."

Apaguei a tela e sentei no chão da entrada, com as costas apoiadas na porta nova. No bolso, duas chaves. A terceira ficou no pote de vidro da prateleira.

O interfone ficou mudo o resto da noite.

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