Faltavam duas horas para o embarque quando Júlia escancarou a porta do apartamento com uma vira-lata nos braços. As malas já estavam enfileiradas no corredor — duas grandes e uma de mão com a rodinha quebrada, daquelas que arrastam e fazem um barulho de dente mole. Em cima da mesa da cozinha, as passagens impressas e a reserva da pousada. Saída da rodoviária de Curitiba às onze e quarenta, poltronas 21 a 23, destino Florianópolis. A cafeteira velha pingava a última gota num pires rachado, completamente ignorada.
A cadela era um peso morto que os braços finos da menina não iam aguentar por mais dez segundos. Ana só teve tempo de amparar o bicho antes que os dois caíssem no capacho. A pata traseira direita balançava num ângulo errado, e uma mancha cor de ferrugem já empapava o piso de cerâmica.
— Mãe, o carro nem freou. Passou por cima e foi embora. Bem na minha frente.
Júlia tinha catorze anos. Ana só vira aquela expressão uma vez — no enterro da tia Sônia. Não era choro. Era uma calma funda, que doía mais e não pedia nada.
Renato saiu do quarto com o celular na mão e parou no meio do corredor, os olhos indo da filha para a caixa de papelão que Ana já puxava.
— O que é isso, Júlia?
— Pai, a gente tem que levar ela no veterinário. Agora.
— Filha, — ele falou bem pausado, do jeito que os homens falam quando estão tentando não explodir, — o ônibus sai da rodoviária em duas horas.
Eles forraram uma caixa velha de micro-ondas com uma toalha de banho. A cadela nem resistiu. Só arfava, curta e superficial, e encarava tudo de baixo com uns olhos cor de mel que fizeram o estômago de Ana revirar.
Júlia já estava ao telefone. Ana ouviu pedaços: “atropelada… pata traseira… sim, consciente… quanto fica?” A menina baixou o aparelho.
— Falaram que começa em dois mil e trezentos reais.
Renato soltou uma risada estranha, um riso que não chegava aos olhos.
— Dois e trezentos. E a gente pagou quanto na viagem, alguém lembra?
Ana sabia os números de cor. Cinco mil e quatrocentos, exatos, com as passagens e a kitnet alugada em Canasvieiras. Fora o dinheiro separado pra comer peixe frito na praia, alugar cadeira e guarda-sol, comprar umas bobagens na feirinha de artesanato. Um ano. Um ano inteiro em que ela entrou em todos os sábados extras na contabilidade da construtora, trocou o jantar com as amigas por marmita fria e adiou o tênis novo até o solado descolar. Nos últimos três meses, dormia quatro horas por noite. Acordava às cinco e meia com nota fiscal na cabeça e voltava a deitar com nota fiscal na cabeça. Só queria estender uma canga na areia, fechar os olhos e não pensar em nada. Ouvir o mar. Só.
— Ana, — Renato se agachou perto da caixa, a voz mais baixa. — Não sou um monstro. Mas é uma cachorra que a gente nunca viu na vida. Ela não é nossa.
— Pai, ela não é de ninguém. Isso é muito pior.
Ana encarou a filha e pensou uma coisa idiota: aos catorze anos, a memória grava tudo. Daqui a vinte, Júlia não ia se lembrar da cor da água do mar, do hotel, do dinheiro. Ia se lembrar da caixa no corredor.
— Renato, liga na pousada. Cancela.
Ele se levantou, os ombros duros.
— Você tá falando sério?
— Tô.
— E a sua pressão? E as olheiras? Você mesma disse mês passado que ia surtar, que se arrastava. Se viu no espelho hoje?
— Me vi.
— E?
— E se a gente for, eu não vou relaxar um minuto. Vou deitar na areia e pensar nessa cachorra. Na Júlia. No medo que eu senti de tomar a decisão errada.
— Isso não é medo. É juízo.
— Pra mim, é medo.
Renato girou nos calcanhares, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans. Ana conhecia aquela postura. Ele estava com uma raiva surda. E tinha todo o direito — também tomou café frio por um ano, também não comprou nada além das botas de segurança para a oficina. Mas ela já pegara a chave do carro.
A clínica ficava na saída da cidade, uns vinte minutos cortando o bairro cheio de lombadas. Renato dirigiu calado, os dedos grudados no volante, as marcas das unhas ficando brancas. Nem rádio, nem uma palavra. Júlia ia atrás, com a caixa no colo, e a cada buraco — e havia mais buracos que asfalto — ela murmurava: “Aguenta, amiga. Tá quase lá.”
Ana observava os prédios iguais e uma frase martelava sozinha: e se for em vão? E se daqui a duas horas eu estiver sem viagem, sem cachorra e com um marido que não me dirige a palavra?
A veterinária tinha uns quarenta anos e umas olheiras tão fundas que pareciam desenhadas a carvão. Examinou a cadela numa quietude absoluta, apalpou o flanco, suspendeu a pata. Depois tirou as luvas e fitou Ana bem no rosto. E Ana entendeu antes de qualquer palavra.
— Fratura complexa. Pode ter lesão interna, preciso abrir. Posso operar agora, mas não prometo nada. Entendeu? Nada.
— Opera.
O corredor era estreito, com três cadeiras de plástico branco e uma máquina de café expresso que exibia um bilhete amarelado: “em manutenção”. Júlia sentou na ponta e grudou no celular apagado, o polegar deslizando sobre a tela escura. Renato saiu duas vezes. Voltou com o casaco gelado e um cheiro antigo de cigarro — ele havia largado o vício dois anos antes.
— Liguei na rodoviária, — disse na segunda hora, falando para a parede. — Não reembolsam mais. Tarde demais pra cancelar.
Ana fez que sim com a cabeça. O que mais dava pra dizer.
Às três e meia, quando a claridade lá fora já mudava de tom, a veterinária apareceu na porta. Tirou a touca e o rosto estava um pouco mais leve.
— Viveu. Salvamos a pata. Mas ela vai precisar de cuidado. Ao menos a primeira semana tem que ter alguém por perto.
— Eu fico, — Júlia respondeu na mesma hora.
— Eu também, — completou Ana.
Renato não disse nada.
A semana seguinte doeu quieto. O marido quase não falava — saía às sete, voltava às nove da noite, jantava de frente pra televisão com o prato na mão. Ana tentou puxar conversa duas vezes e as duas recebeu um “tá tudo bem, esquece”.
Ela ia à clínica todo santo dia. Sentava num banquinho de madeira perto do canil e ficava ali, às vezes uma hora e meia inteira sem dizer nada. Os números dos balancetes simplesmente deram trégua pela primeira vez em meses — sumiram da sua cabeça como se nunca tivessem existido. No lugar, só o cheiro de antisséptico e o rabo da cadela batendo fraquinho no piso.
Júlia chegava depois da escola, trazia um livro de contos brasileiros e lia em voz alta, empostando a voz de cada personagem. A vira-lata ouvia, a cabeça apoiada entre as patas dianteiras.
— Em vinte anos de clínica, já vi de tudo, — comentou a veterinária, enquanto tomavam um café aguado na copa. — Gente que traz, descobre o preço e desaparece. Às vezes largam o bicho no estacionamento e vão embora cantando pneu. Mas vocês… vocês são ponto fora da curva.
— Não deu pra fazer diferente.
— Dá pra ver. E o seu marido?
— Quieto.
— Isso passa. Ficam todos quietos até se acostumar.
No sexto dia, Ana estava agachada perto do canil quando a porta rangeu. Ela se virou — Renato. De jaqueta suja de graxa, a barba por fazer, um pacote volumoso na mão.
— Oi.
— Oi.
Ele ficou um tempo em pé, depois se abaixou. A cadela já conseguia se levantar, mancando, e cheirou a mão dele com uma cautela que emocionava.
— Bonita, né? — ele falou baixo. — E inteligente, dá pra notar.
— Inteligente.
Renato ficou uns bons segundos calado. Então colocou o pacote no chão. Era ração premium, justamente a que a veterinária indicara e que Ana descartara porque era pesada demais no bolso.
— Ana, me perdoa.
Ela não respondeu. A garganta tinha fechado.
— Passei a semana inteira com raiva. Raiva de verdade, te confesso. Mas aí, na terça, eu vi a Júlia saindo da escola e correndo pra cá. De mochila, atravessou a rua quase no sinal vermelho. E ela tinha uma expressão… Sabe, eu não via aquela expressão desde os dez anos dela. E naquele mesmo dia, mais tarde, eu abri o porta-luvas do carro pra pegar um documento e achei um desenho velho que ela fez quando tinha seis anos. Ela e uma cachorra, com um sol gigante atrás. Tava ali esquecido havia um tempão. Eu nem lembrava que ela desenhava isso.
— E aí?
— Aí eu pensei: se a gente tivesse ido, eu ia deitar na praia e lembrar da caixa. O mar ia me engolir.
Ana se ocupou de ajeitar a coberta da cadela, porque alguma coisa precisava ser ajeitada.
— Então a gente leva ela pra casa?
— Tem saída? — Renato deixou escapar um riso curto, o primeiro em muitos dias, e coçou a orelha da vira-lata. — A Júlia me esfola se eu disser não.
Chamaram de Vitória. Júlia disse “Vitória” no segundo dia e ninguém questionou, porque nome de guerra combina com quem sobreviveu. Em dois meses, a cadela se fortaleceu, ganhou corpo e daquele bicho trêmulo na caixa de micro-ondas virou uma mestiça de porte médio, olhos atentos e o hábito irritante de deitar exatamente no meio do corredor. Mancava em dias de chuva. Mas corria tão desembestada que Júlia não alcançava.
Um ano depois, arrumavam as malas de novo. A mesma de rodinha quebrada — Renato nunca consertara aquela desgraça. Só que agora era viagem de carro, não de ônibus, porque com cachorro eles não aceitam em certas linhas.
— Vitória, pronta pra praia? — Júlia prendeu a guia. A cadela latiu tão alto que o vizinho do andar de baixo bateu com a vassoura no teto.
— Sabe, Ana, — Renato fechou o porta-malas e fez uma pausa. — Não me arrependi nenhum dia daquele verão. Foram as férias mais importantes da minha vida.
— Mas a gente nem viajou.
— Por isso mesmo.
Ana viu a filha correndo com a Vitória pelo gramado em frente ao prédio, as duas riscando a manhã. O mar tinha esperado, sim. Mas a família que eles viraram aconteceu ali, no corredor estreito com as três cadeiras de plástico e a máquina de café que nunca funcionou.
