Duzentos e quarenta reais. Foi o que custou o buquê que Helena Marcondes segurava nas mãos, parada em frente à floricultura da Praça da Liberdade, em Juiz de Fora. Escolheu rosas cor de champanhe, iguaizinhas às que levara no próprio casamento trinta e quatro anos antes, e achou que seria um gesto bonito para a filha.
O casamento de Cátia acontecia no Espaço Fazenda Bela Vista, na saída da cidade, meia hora de van executiva mais um trecho a pé por uma estrada de terra batida. Helena foi sozinha — o marido morrera havia quatro anos, e o único filho morava em Portugal e não pôde vir, porque na empresa dele tinha uma reforma no galpão bem naquela semana.
A van atrasou. O motorista resmungava alguma coisa sobre o desvio por causa das obras na BR-040. Helena viajou com o buquê no colo, olhando pela janela os campos molhados — chovia desde cedo, aquela garoa fina e teimosa de agosto que não para nunca. No rádio tocava uma música de Leonardo, e alguém lá atrás cantarolava baixinho.
Quando chegou, a festa já estava rolando havia uma hora. Na entrada do salão estava a sogra de Cátia, Rosângela Bittencourt, vestida num tailleur verde-garrafa, com a lista de convidados numa pasta plástica.
— Dona Helena — disse Rosângela, conferindo o papel. — Seu nome não está aqui.
— Como não está. Eu sou a mãe da noiva.
— Eu sei quem a senhora é. Mas essa é a lista da mesa principal e a lista VIP do fotógrafo. A Cátia pediu para colocarmos a senhora… — Rosângela virou a pasta, como se aquilo explicasse alguma coisa — …na mesa doze. Longe da pista, para o barulho não incomodar a senhora.
Helena ficou parada com o buquê pingando água no carpete, olhando o salão. A mesa principal estava decorada com orquídeas naturais, e ao lado sentava a mãe do noivo, Eveline, num vestido cor de champanhe, sorrindo para a foto que o fotógrafo tirava com o drone.
A mesa doze ficava do lado do banheiro.
Ninguém percebeu quando Helena se sentou. A garçonete colocou na sua frente um prato de picanha já fria, porque o prato principal estava sendo servido havia quarenta minutos e ela só tinha acabado de chegar do ponto de ônibus. Ao seu lado sentava um tio do noivo, que passou a noite inteira falando sobre a Hilux nova dele e sobre o preço da gasolina na Ipiranga.
Cátia só veio falar com ela depois da primeira dança, suada, com a maquiagem um pouco borrada.
— Mãe, que bom que você chegou. Já se sentou? Ótimo, ótimo.
— Cátia, por que eu não estou na mesa principal?
— A Rosângela disse que assim ficaria mais confortável. Que não queria a senhora perto das caixas de som, você sabe, por causa do seu ouvido…
— Eu tenho um ouvido ruim, não dois de algodão. Além disso, o casamento é seu.
Cátia olhou para a mãe, depois para Rosângela, que naquele momento cortava o bolo ao lado da nora, usando um avental branco escrito "Chef por um dia", e falou só:
— Mãe, não começa agora. Hoje é um dia importante.
Foi embora. Helena comeu a picanha fria, tomou uma taça de espumante e, às onze e meia da noite, chamou um Uber, porque a van já não voltava mais àquela hora.
Em casa, no apartamento de dois quartos no bairro São Mateus, tirou os sapatos que já estavam machucando seus pés havia três horas e sentou à mesa da cozinha. No parapeito da janela ficava um cacto que ganhara de Cátia ainda na faculdade — a única planta que nunca conseguira matar. Fez um chá, mas se esqueceu dele, e esfriou antes que ela tomasse um gole sequer.
No dia seguinte Cátia ligou, ofegante, como se tivesse corrido.
— Mãe, desculpa por ontem, a Rosângela exagerou com essa história da mesa, você sabe como ela é…
— Cátia, eu não estou reclamando da mesa. Estou reclamando que minha filha deixou uma mulher que mal conheço me colocar do lado do banheiro no único casamento que vou ter oportunidade de ver.
O silêncio na linha durou tempo demais.
— Não exagera. É só uma mesa.
— Não foi só uma mesa, Cátia. Mas tudo bem. Entendi.
Helena desligou o telefone e passou uma semana sem ligar. Pensava em outra coisa — no apartamento onde morava havia vinte e oito anos, comprado junto com o marido com o dinheiro da aposentadoria por invalidez dele e do salário dela como costureira. O apartamento estava deixado em testamento para Cátia — o único bem que Helena tinha para deixar, avaliado em cerca de trezentos e oitenta mil reais, segundo uma avaliação que uma imobiliária fizera "por curiosidade", tempos atrás.
Na quinta-feira Helena foi ao cartório de notas da Rua Halfeld, o mesmo onde o marido assinara a escritura de compra do apartamento. Levou consigo uma pasta com os documentos — escritura, RG, o testamento antigo dentro de um envelope lacrado.
— Eu gostaria de alterar o testamento — disse, sentando na cadeira do outro lado da mesa.
O tabelião, um homem jovem com uma maleta cheia de pastas, perguntou se ela queria trocar a herdeira.
— Não. Quero incluir uma cláusula. O apartamento continua para minha filha. Mas quero que fique escrito que a condição é me garantir um lugar à mesa da família em toda celebração familiar para a qual eu for convidada, até o dia da minha morte. Se essa condição não for cumprida uma única vez que seja, o apartamento passa para o asilo Lar dos Idosos São Vicente.
O tabelião ergueu as sobrancelhas, mas registrou tudo exatamente como ela ditou.
Cátia soube disso três meses depois, por acaso, quando a mãe comentou o assunto no meio de uma conversa sobre outra coisa completamente diferente — o preço da batata na feira da Rua Halfeld. Perguntou direto se era verdade.
— É verdade — respondeu Helena. — O papel está no cartório, uma cópia está na gaveta da minha escrivaninha, aquela de baixo, que tranca com chave.
— Mãe, isso é… isso é chantagem.
— Isso é um acordo. Você e sua sogra combinam onde cada um senta nas festas. Eu também combino. Só que o meu acordo é sobre o que fica depois que eu morrer.
Cátia foi até a casa dela uma semana depois, sozinha, sem o marido. Sentaram na mesma mesa da cozinha, no mesmo lugar onde Helena tomara o chá frio depois do casamento. O cacto no parapeito tinha acabado de florescer — uma flor pequena e rosada que aparecia uma vez a cada tantos anos, e ninguém nunca sabia prever quando.
— A Rosângela ficou furiosa quando eu contei — começou Cátia.
— Acredito.
— Disse que a senhora está se fazendo de vítima.
— Talvez esteja mesmo. Mas Cátia, eu não quero ser a vítima da mesa doze pelo resto da vida, só para vocês ficarem confortáveis. Eu quero sentar onde tem lugar para a mãe da noiva. É só isso.
Cátia ficou calada por um tempo, girando a xícara entre os dedos.
— Daqui a um mês é o batizado da filha do Marcinho, meu primo de segundo grau… você sabe, lá onde a Rosângela também vai estar.
— Eu sei.
— A senhora vai sentar na mesa principal. Eu vou resolver isso. Pessoalmente.
Helena não respondeu na hora. Levantou, regou o cacto, mesmo sem precisar de água, e só depois disse:
— Vamos ver, Cátia. O papel fica onde está.
