A cadeira que eu não devolvi

Cheiro de casa da minha sogra? Café requentado no bule de alumínio e aquele sabonete de coco barato que ela guardava numa gaveta cheia de guardanapos de pano. Isso ficou em mim, viu. Nem sei por quê.

Eu me chamo Rogério, tenho quarenta e um anos, sou mecânico de motos aqui em Caruaru, e essa história é sobre a minha sogra, dona Terezinha. Ou melhor: é sobre mim e sobre como eu fui, durante nove anos, o genro que ela nunca escolheu.

Casei com a Adriana em 2015. Ela é filha única, criada por essa mãe sozinha depois que o pai foi embora com a caçula de uma vizinha, lá pros lados de Garanhuns. Dona Terezinha ficou com a casa, ficou com a filha, e ficou — acho eu — com uma desconfiança grande de qualquer homem que chegasse perto demais.

E eu cheguei perto demais.

No começo ela nem disfarçava. Eu ia lá pra almoçar aos domingos e ela servia o prato de todo mundo antes do meu, como se eu fosse visita de segunda categoria. Uma vez perguntei se podia repetir o arroz e ela disse, na maior calma: "Pode, mas guarda um pouco pra amanhã, que aqui a gente não desperdiça." Na frente da Adriana. Como se eu fosse ladrão de geladeira.

Eu engolia. Não porque sou santo — sou orgulhoso que só, pergunte pra qualquer um da oficina — mas porque via a Adriana no meio, com aquela cara de quem já tinha brigado esse tipo de briga a vida inteira e não queria brigar de novo. Então eu calava a boca, ajudava a lavar louça, trocava o cano da pia quando entupia, consertava o portão que rangia. Fazia por ela, não por mim.

Passaram nove anos assim. Nove anos de "pode se servir, mas com moderação" e de presente de Natal desigual — pra Adriana, perfume; pra mim, meia. Sempre meia. Um ano até repetiu a cor.

O estopim, ou melhor dizendo, o que quebrou o pouco que restava, foi a cadeira.

Explico. Meu pai, seu Osvaldo, morreu em março do ano passado, aqui mesmo em Caruaru, depois de um tempo de doença. Ele tinha uma cadeira de balanço, de madeira de lei, que o avô dele já usava — coisa de mais de setenta anos, dessas que rangem baixinho e parecem respirar junto com a gente. Era a única coisa que eu queria da casa dele. Nem carro, nem terreno, nada. Só a cadeira.

Só que, no mesmo mês, dona Terezinha decidiu fazer um chá de bebê pra uma sobrinha dela, lá na casa, no quintal, debaixo da amendoeira. E precisava de cadeiras "bonitas" pra enfeitar o espaço, porque, segundo ela, "as de plástico ficam feio na foto".

Adriana, sem me perguntar, ofereceu a cadeira do meu pai.

Eu fiquei sabendo depois que já tinha ido buscar com a picape do meu cunhado. Cheguei em casa numa quinta à noite, cansado de sete horas debaixo de moto, e a cadeira não estava mais na varanda. Perguntei pra Adriana e ela, meio sem graça, contou. Disse que era só por um fim de semana, que depois devolvia, que "não custava nada emprestar".

Não custava nada pra ela. Pra mim custava tudo.

Fui até a casa da sogra no sábado de manhã, antes do chá de bebê começar. Encontrei a cadeira do meu pai enfeitada com fita de cetim rosa, um laço enorme amarrado no encosto, do jeito que ela é — de madeira escura, um pouco torta de um lado, com aquela marca de queimadura de cigarro que o avô dela deixou décadas atrás. Ela estava lá, no meio do quintal, do lado de uma mesa cheia de docinho de leite ninho.

Dona Terezinha, ajeitando toalha, nem me olhou direito quando falei:

— Preciso levar essa cadeira de volta.

— Rogério, o chá começa daqui a duas horas. Você não pode fazer isso agora.

— A cadeira não é enfeite, dona Terezinha. Foi do meu pai. Do avô dele antes. Vim buscar.

Ela parou, virou de frente pra mim, com aquele jeito de quem já decidiu que eu tô errado antes mesmo de eu terminar a frase:

— Você sempre foi de fazer escândalo por qualquer coisinha. É uma cadeira velha, Rogério. Compra outra pro seu enfeite de casa, se quiser guardar lembrança.

Foi aí que alguma coisa em mim, que já vinha sendo empurrada pra dentro fazia nove anos, simplesmente não coube mais.

Não gritei. Não chutei mesa, não quebrei nada. Fiz uma coisa bem mais simples: peguei a cadeira, desamarrei o laço de cetim com calma — ela olhando, boca fechada, braços cruzados —, e levei pro banco de trás do meu carro.

— Você vai estragar o chá da minha sobrinha por causa disso?

— Não vou estragar nada. A senhora tem duas horas pra arranjar outra cadeira "bonita". Eu tenho a minha vida inteira sem meu pai. Acho justo.

Adriana chegou correndo do quarto de hóspedes, onde estava ajudando a arrumar as lembrancinhas, e viu a cena: eu já com a cadeira no porta-malas, a mãe dela vermelha de raiva no meio do quintal.

— Rogério, o que você tá fazendo?

— Levando a cadeira do meu pai pra casa. Onde ela devia ter ficado desde o início.

— Você tá exagerando. É só uma cadeira, gente!

Ali eu falei uma coisa que não tinha planejado, mas que precisava sair:

— Pra ti é só uma cadeira, Adriana. Porque tua mãe nunca te fez sentir que era visita na tua própria casa. Nunca contou os grãos de arroz que tu comia. Nove anos eu calei. Hoje não caí calado por uma cadeira, caí calado por tudo que ela representa.

Fui embora. Levei a cadeira. Deixei o chá de bebê pra trás, com a mesa telinha cheia de docinho e um buraco enorme na decoração onde devia estar a peça "bonita" que a Adriana tinha emprestado sem me perguntar.

***

Passei o fim de semana inteiro dormindo mal, achando que tinha feito besteira, que ia chegar segunda e a Adriana ia me cobrar satisfação, exigir que eu voltasse lá pedir desculpa pra mãe dela. Fiquei restaurando a cadeira, lixando devagar a madeira, tirando resto de cola da fita de cetim que tinha grudado no verniz. Cada risco daquela madeira parecia contar uma história — do avô, do meu pai sentado nela lendo jornal aos domingos, dos netos que um dia iam se balançar ali.

Domingo à noite, Adriana chegou em casa depois de passar o fim de semana na mãe. Sentou na frente de mim, na sala, com uma cara que eu nunca tinha visto nela — nem irritada, nem triste. Cansada, isso sim. Cansada de um jeito antigo.

— Minha mãe ficou p da vida. Disse que você me fez passar vergonha na frente da família toda.

Fiquei quieto, esperando o resto.

— Mas eu fiquei pensando no que você falou. Sobre eu nunca ter te defendido. E percebi uma coisa, Rogério: eu também nunca defendi a mim mesma. A gente só… aceitou. Os dois. Durante nove anos.

Ela pegou minha mão, olhou pra cadeira, que já estava de volta na varanda, no lugar dela.

— Vou conversar com ela. De verdade dessa vez. Não pra pedir desculpa por você, mas pra dizer que isso acaba aqui.

E acabou, sim, mas não do jeito bonito de novela, com abraço e reconciliação chorosa. Dona Terezinha ligou pra Adriana três dias depois, cobrando explicação, dizendo que eu tinha "estragado a festa" e "envergonhado a família". Adriana, pela primeira vez em nove anos de casamento, disse pra mãe:

— Mãe, a cadeira era do pai dele. A senhora pegou sem perguntar pra decorar uma festa. E, além disso, a senhora trata o Rogério mal desde o dia que ele entrou nessa casa. Isso também acabou.

Não teve reconciliação rápida. Dona Terezinha ficou um mês sem falar com a filha. Depois voltou a ligar, mas o tom mudou — não porque ela virou uma pessoa diferente da noite pro dia, ninguém muda assim, mas porque perdeu o terreno que tinha antes. Hoje, quando vou almoçar lá, ela me serve o prato junto com todo mundo. Não é carinho, é respeito de quem sabe que, se pisar na bola de novo, a filha vai ficar do lado errado — do lado certo, quer dizer.

A cadeira do meu pai está na minha varanda até hoje, sem laço de cetim, sem fita nenhuma. Só ela, o rangido dela, e o lugar que sempre foi dela por direito.

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