O menino que gaguejava e o personagem que não precisava falar

Em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, tem um professor de física aposentado chamado Aloísio Marques que até hoje guarda um caderno de 1974. Nas primeiras páginas, escritas com letra de adolescente, há uma lista de palavras que ele treinava sozinho, à noite, no quarto: "relógio", "problema", "porque". Palavras comuns, do dia a dia, que travavam na garganta antes de sair.

Aloísio gaguejava desde os sete anos. Na escola, evitava levantar a mão. Nas festas de aniversário, ficava perto da mesa de doces, quieto, rindo baixinho das piadas dos outros em vez de contar as suas. A mãe dele, dona Zuleide, costurava para fora e às vezes, enquanto cortava tecido na mesa da cozinha, dizia pra ele: "Fala com calma, meu filho, ninguém tá com pressa." Mas pressa não era o problema. O problema era o som que não saía.

Tinha treze anos quando a professora de Português, dona Marlene, pediu pra turma ler em voz alta, um por um, um trecho de "Vidas Secas". Aloísio contou as carteiras até a sua vez, contou os parágrafos, tentou calcular exatamente qual frase ia cair pra ele, como se soubesse antecipar salvava alguma coisa. Quando chegou a vez dele, levantou, seguiu o dedo pela linha do livro e travou na primeira palavra. "Fabiano" virou "Fa-fa-fa-fa" preso entre os dentes, o rosto esquentando, as mãos apertando as bordas do livro didático até os dedos ficarem brancos. Alguém riu lá no fundo. Não foi um riso cruel, só um riso de adolescente que não sabe segurar a risada — mas foi o suficiente. Aloísio fechou o livro sem terminar a frase, disse "não sei ler isso, professora" e sentou. Passou o resto do ano fingindo esquecer o livro em casa nos dias de leitura em voz alta.

Anos depois, formado em Engenharia Elétrica pela Universidade de São Paulo, Aloísio deu aula de física por trinta e dois anos numa escola técnica estadual. Aprendeu a driblar a própria voz na frente das turmas: escrevia as fórmulas no quadro em silêncio, deixava os alunos copiarem, só falava as palavras mais curtas em voz alta. Os alunos achavam que era método. Era sobrevivência.

Foi ele quem, numa tarde de sábado, ligou a televisão pra assistir com o neto pequeno, Theo, um episódio antigo do Mister Bean. O menino, de quatro anos, ainda não lia direito, mas gargalhava sozinho, sem precisar de legenda, sem precisar de tradução. Aloísio, sentado no sofá de courino marrom da sala, com o cheiro de café requentado vindo da cozinha, ficou olhando aquele homem de paletó xadrez atravessar a tela sem soltar quase nenhuma palavra — e sentiu uma pontada de reconhecimento que não sabia explicar direito pro neto.

Ele tinha lido, uma vez, numa reportagem de revista, que o ator por trás daquele personagem também gaguejava quando criança. Rowan Atkinson não veio do teatro; estudou engenharia elétrica, primeiro em Newcastle, depois um mestrado em Oxford. Foi nos palcos universitários, longe de qualquer plano de virar comediante, que descobriu que conseguia arrancar risada sem discursar — com uma pausa, um olhar torto, o jeito de segurar um guarda-chuva. E que, quando virava outra pessoa no palco, a língua parava de travar.

"Vô, ele não fala e é engraçado assim mesmo", disse Theo, rindo de novo da mesma cena. Aloísio tentou explicar por que aquele homem de terno marrom era especial pra ele, mas desistiu no meio da frase — não porque travasse, mas porque não tinha como resumir numa frase o que sentia. Contentou-se em rir junto.

Aloísio nunca virou ator, nem quis. Continuou dando aula, corrigindo prova com caneta vermelha, explicando a lei de Ohm pra turmas de dezesseis anos que bocejavam no fundo da sala. Mas guardou aquele caderno de 1974 na gaveta da escrivaninha, junto com a lista de palavras que um dia travaram — e junto com a lembrança de "Fabiano" partido em pedaços na frente da turma inteira.

Na tarde em que assistiu ao episódio com o neto, ele fez uma coisa que não fazia havia anos: pegou o caderno, abriu na primeira página, e leu em voz alta cada palavra da lista. A mão que segurava o caderno tremia um pouco, do jeito que tremia aos treze anos segurando o livro didático. Respirou fundo antes de cada palavra, como se ainda precisasse se preparar pra um tropeço que não veio. "Relógio." "Problema." "Porque." Nenhuma travou. Não porque tivesse se curado — ele sabia que a gagueira ainda estava ali, escondida, pronta pra voltar num dia de nervoso — mas porque, naquele momento específico, com Theo olhando pra ele em silêncio, esperando pra ver o que o avô ia fazer, as letras simplesmente saíram inteiras.

Fechou o caderno, guardou de volta na gaveta, e foi até a cozinha esquentar mais café.

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