Renata paga a última dívida, depois muda a fechadura

Renata Ferraz nunca tinha visto Dona Marlene tão satisfeita quanto naquele domingo de agosto, quando a sogra ligou às oito da manhã sem sequer dar bom dia.

— Vamos fazer a festa aí no seu apartamento, Renata. Não tem discussão. O Rodrigo faz quarenta anos, é data redonda, tem que ter estrutura. Lá em casa não cabe ninguém, você sabe. E faz aquela feijoada que você fez no ano passado, mas sem invencionice, sem essas ervas esquisitas que você põe agora. Simples, do jeito que a gente gosta. Chegamos umas seis da tarde.

Rodrigo pegou o telefone da mão da mãe antes que Renata pudesse responder.

— Minha mãe tem razão, Rê. E avisa a vizinha do 302 pra não bater no cano se a gente ligar o karaokê depois. Aniversário é uma vez por ano, oras. Não chama suas amigas não, vamos ficar só na família: eu, minha mãe, meu tio Osvaldo com a mulher dele, e a galera da oficina. Uns quinze, vinte no total. Tira o dinheiro pra comprar as coisas daquela reserva que a gente tava guardando pra viagem. Faz isso rapidinho que eu tenho que ir buscar o carro do Anderson.

A ligação caiu. Renata ficou parada no meio da cozinha do apartamento em Niterói, com o telefone ainda encostado na orelha, olhando pela janela a luz cinza de uma manhã carregada de nuvens vindas da Baía de Guanabara. Não sentiu raiva. Sentiu só um vazio esquisito, tipo aquele silêncio que fica numa casa depois que a mudança sai.

Quatro anos de casamento passaram pela cabeça dela feito um filme em avanço rápido, sempre com a mesma cena repetida: ela cedendo, ela se ajeitando, ela pedindo desculpa por coisa que não devia. O apartamento era dela — herança da avó, escriturado em nome dela antes mesmo de conhecer Rodrigo — mas a família dele agia como se estivesse fazendo um favor enorme só de pisar ali.

Ela desligou o telefone, foi até o corredor e olhou as caixas de papelão já fechadas com fita, empilhadas perto da porta. Baixinho, quase sem som, falou pra si mesma:

— Tá bom. Façam a festa.

Às seis e meia da tarde, o prédio antigo na Rua Marquês do Paraná já tinha alvoroço na entrada. Dona Marlene descia do táxi com o casaco de frio que só usava em ocasião especial, dando ordens pra todo mundo. Rodrigo vinha atrás, de camisa social apertada na barriga, segurando uma garrafa de cachaça já pela metade, ajeitando o colarinho toda hora. O tio Osvaldo trazia sacolas cheias de vinagrete e maionese de festa, e mais quatro sujeitos da oficina mecânica onde Rodrigo trabalhava, já meio alterados de cerveja do caminho.

— Anda, Rodrigo, coragem! — gritou um dos mecânicos, um sujeito enorme chamado Vanderlei. — Tô com uma fome que nem te conto! Cadê essa feijoada lendária?

— Calma, rapaziada, cinco minutos — respondeu Rodrigo, cheio de si, segurando a porta do prédio. — A Renata é treinada, viu. Deve tá com a mesa toda posta, ela vive na cozinha desde cedo.

Subiram fazendo barulho pela escada até o segundo andar. Rodrigo bateu na porta com o número 24 pregado meio torto, apertou a campainha duas vezes. Nada. Bateu de novo, dessa vez com o pé.

— Renata! Abre, chegamos! Que isso, mulher, ficou surda?

— Sempre foi assim, essa menina — resmungou Dona Marlene, ajeitando o cabelo. — Sem respeito nenhum. Gente esperando aqui no frio e ela enrolando.

Passos pesados vieram do outro lado. Não eram os passos leves de Renata. A tranca virou, a porta se abriu, e ali estava um homem enorme, de mais de um metro e noventa, camiseta regata, barba grisalha, tatuagens antigas nos braços — e uma furadeira na mão, cheirando a poeira de reboco.

— Pois não? — a voz dele era grave, sem um pingo de simpatia.

Rodrigo deu um passo pra trás, olhou o número da porta de novo. Vinte e quatro. Não tinha erro.

— O senhor… quem é você? Que que tá fazendo no meu apartamento? Cadê a Renata?

O homem olhou aquele bando: Rodrigo de camisa apertada, Dona Marlene com o casaco de inverno, o tio Osvaldo largando a sacola de susto.

— Seu apartamento? — falou sem emoção nenhuma. — Curioso, porque na escritura que peguei hoje de manhã em cartório está outro nome. O meu. Cauê Bittencourt. Renata nenhuma mora mais aqui. Ela saiu de manhã cedo.

— Como assim vendeu?! — gritou Dona Marlene, o rosto ficando vermelho, quase roxo. — Isso é mentira! Esse apartamento é da minha nora! Do meu filho! A gente veio pra festa de aniversário! Quem é o senhor pra tá em pé, seminu, no meio da nossa propriedade?! Sai já daí ou eu chamo a polícia!

Cauê nem se abalou. Encostou a furadeira na sapateira, cruzou os braços e ficou apoiado no batente. Dava pra ver, pelo vão da porta, que o apartamento estava diferente: sem os tapetes, sem os quadros de casamento na parede, cheiro de massa corrida fresca no ar em vez do cheiro de feijoada.

— Pode chamar, sim, minha senhora. Aproveito e faço queixa de invasão. Sobre a "nora": a Renata me vendeu esse imóvel há um mês, negociação fechada, sinal pago há duas semanas, hoje quitamos o resto no cartório. Ela levou as coisas dela, entregou as chaves e pegou um voo. Pra onde, não me disse, e também não me interessa.

Rodrigo sentiu o chão sumir. Vieram à mente, num só golpe, todas as coisas estranhas das últimas semanas: o olhar longo de Renata durante o jantar, ela concordando fácil demais quando ele ficou com o salário inteiro do mês passado, as caixas no corredor que ela chamou de "coisa velha pra doar".

— Não pode ser — murmurou, tirando o celular do bolso com a mão tremendo. Discou. "O número chamado encontra-se temporariamente fora de área ou desligado."

— Ela… me bloqueou? — falou, olhando pra tela sem enxergar nada.

— Meu filho, olha o que ela fez com você! — Dona Marlene se agarrou no braço dele, aos berros. — Te roubou! Te deixou na mão no seu aniversário de quarenta anos! Sua-vibora, sem-vergonha! A gente que acolheu essa menina!

— Mãe, o apartamento era dela antes de casar — Rodrigo falou baixo, meio zumbi. — Ela é a dona… era.

— E daí?! Você morava lá, tinha direito!

— Ele foi retirado do endereço — Cauê interrompeu, calmo, tirando do bolso um envelope dobrado. — A pedido dela mesma, junto com o divórcio. Aliás, ela deixou isso pra vocês.

Estendeu o envelope pra Rodrigo, que abriu com dedos duros. Dentro, uma carta e a certidão de divórcio, já averbada. O processo tinha sido protocolado dois meses antes, e Rodrigo — que nunca abria o e-mail nem olhava intimação nenhuma — simplesmente ignorou tudo.

Desdobrou o papel. A letra era redonda, familiar demais:

"Oi, Rodrigo. Parabéns pelos quarenta. Você sempre falou que eu tinha obrigação de fazer festa pra você. Fiz — só que não foi festa, foi reunião com corretor e advogado. Nesses quatro anos fui só empregada de casa pra você: cozinhei, lavei roupa, aguentei sua mãe me diminuindo e seus amigos tratando meu apartamento como boteco. Quando eu peguei aquela pneumonia forte no inverno passado, sua mãe disse que eu tava fingindo pra não limpar a casa antes dela chegar, e você foi beber com o pessoal porque 'em casa tava sufocante'. O dinheiro da viagem que você lembrou por telefone tava guardado numa poupança minha. Saquei tudo. Chama isso de indenização pelos nervos que você gastou meus quatro anos aqui. Vendi o apartamento pra um rapaz sério, com desconto porque precisava ser rápido. Comprei uma casa pequena numa cidade de praia no litoral norte, nome que você nunca ouviu falar, e uma passagem só de ida. Suas coisas estão em três sacos pretos com a portaria. Pega lá. Faz a feijoada você mesmo. Seja feliz."

As letras dançavam na frente dos olhos de Rodrigo. Vanderlei tossiu sem jeito, coçou a nuca:

— Rodrigo, cara… acho melhor a gente ir. Vamos num boteco ali, comer um petisco. Você resolve as coisas de família. Parabéns, viu. Se cuida.

Os mecânicos desceram rápido, quase correndo, sem vontade nenhuma de testemunhar aquele vexame. O tio Osvaldo tentava recolher os potes de vinagrete espalhados, resmungando baixo. Dona Marlene respirava pesado, o rosto passando do vermelho pro roxo, olhando ora pra Cauê, ora pro filho, que estava plantado ali de braços caídos como boneco murcho.

— A gente não vai sair daqui! — berrou de repente, tentando passar por baixo do braço do gigante. — Vamos entrar e esperar ela aqui! Ela vai se arrepender! Vou processar! Vou anular essa venda! O senhor é cúmplice dela, é golpe!

Cauê não se moveu um centímetro. Só colocou a mão espalmada no batente, travando a passagem feito uma porta de cofre.

— Minha senhora — falou baixinho, mas com um peso que fez Dona Marlene recuar sozinha. — Sou fuzileiro naval reformado. Vinte anos de farda, já vi muita gente querendo abusar. Tenho documento limpo, registrado em cartório. Se em dez segundos vocês não saírem da frente da minha porta, eu desço vocês pela escada junto com essas sacolas e com o aniversariante aí. Contando.

Olhou o relógio no pulso, devagar, de propósito. Dona Marlene engasgou de indignação, mas o medo venceu o orgulho. Puxou Rodrigo pelo braço:

— Vem, Rodrigo! Vamos embora! Vou procurar advogado, vou acabar com essa mulher! Vem, filho, vamos pra minha casa!

Rodrigo não resistiu. Desceu atrás da mãe, degrau por degrau, os pés arrastando feito boneco de corda quebrado. A garrafa de cachaça escorregou da mão dele e se espatifou no piso do segundo lance, espalhando um cheiro forte de álcool pelo corredor.

Cauê ficou olhando até os passos sumirem de vez. Sacudiu a cabeça, deu uma risadinha na barba:

— Família e tanto. A moça tinha razão de sumir sem olhar pra trás.

Fechou a porta, trancou as três voltas da fechadura. O apartamento cheirava a massa nova e liberdade. Pegou a furadeira do chão, ligou o motor, e foi até a parede da sala — ia derrubar aquela divisória velha, deixar o espaço mais aberto, do jeito que sempre quis pra oficina de marcenaria que planejava montar em casa.

A mais de duas mil quilômetros dali, um avião descia sobre o litoral da Bahia. Lá embaixo, o mar batia numa faixa de areia clara cercada de coqueiros, o sol já baixo pintando tudo de laranja. Renata ia sentada perto da janelinha, queixo apoiado na mão, os olhos fixos naquela paisagem que ainda não conhecia direito.

No colo dela, uma pasta com a escritura da casinha de taipa e telhado colonial, cercada de aroeiras, que tinha comprado em Itacaré. Pegou o celular, ligou. As notificações choveram: chamadas perdidas de Rodrigo, áudios furiosos de Dona Marlene, mensagens desesperadas do tio Osvaldo. Ela não abriu nenhuma.

Com a ponta de um clipe, abriu o compartimento do chip, tirou o cartão que todo mundo da família de Rodrigo tinha o número guardado, e colocou dentro do saquinho de enjoo no bolso da poltrona da frente. No lugar, encaixou o chip novo comprado no aeroporto antes de embarcar.

O avião tocou a pista, os motores rugiram em reversão, os passageiros bateram palma. Renata sorriu — de verdade, leve, pela primeira vez em quatro anos.

Tirou um caderno da bolsa, abriu numa página em branco e escreveu a primeira coisa que veio à cabeça:

"Comprar pra casa: cafeteira, rede pra varanda, tinta pra pintar o muro. E nunca mais, em hipótese nenhuma, fazer feijoada."

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