Cento e cinquenta reais pela torneira, e o que vi na geladeira dela mudou meu dia

Sou encanador em Sorocaba há dezanove anos. Chamo Renato, tenho quarenta e três, e já destranquei ralo entupido com colher de pau, já troquei registro embaixo de pia às três da manhã porque o cano estourou e inundou a cozinha de alguém. Essas coisas não me abalam mais. Mas teve uma terça-feira, mês passado, que ainda me persegue.

O endereço era na Vila Haro, uma rua de casas baixas perto da linha do trem. Quem abriu o portão foi dona Zuleide — setenta e oito anos, um cardigã bege puído nos cotovelos, chinelo Havaianas gasto até quase não sobrar sola.

— Desculpa a bagunça — ela disse, baixinho, antes mesmo de eu entrar.

Não tinha bagunça nenhuma. A sala estava mais limpa que muito apartamento novo que já visitei. Só que era vazia demais. Um retrato do casamento dela na estante, um calendário de igreja pendurado na parede, e nada mais. Sem televisão ligada, sem rádio, sem barulho de gente. Só o relógio de parede da cozinha, daqueles de pilha, marcando cada segundo.

Ela me levou até a pia. O cano por baixo tinha rachado e formado uma poça no armário. Abaixei, abri as portinhas — e reparei numa coisa. Não tinha detergente. Não tinha esponja sobrando, não tinha saco de lixo, não tinha nada de produto de limpeza. Só uma prateleira vazia, forrada com uma folha de jornal já meio amarelada.

Troquei o cano, apertei as conexões, testei a água.

— Pronto, dona Zuleide.

Ela sorriu.

— Obrigada, meu filho.

Guardei as ferramentas. Ia embora quando ela perguntou:

— Aceita um cafezinho?

— Não precisa, dona Zuleide.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ela ficou parada um instante. Depois ofereceu um copo d'água. Aceitei. Foi até a geladeira — e quando abriu a porta, vi tudo.

Meio litro de leite. Um vidro de maionese quase no fim. Três sachês de mostarda que pareciam ser de lanchonete. Só isso. Nada de verdura, nada de fruta, nenhuma marmita, nenhuma sobra de almoço esperando o jantar.

Ela percebeu que eu tinha visto.

— É que compra é só quinta-feira — falou rápido, quase se desculpando, como se passar fome fosse coisa que precisasse justificar.

Balancei a cabeça.

— Entendi.

Serviu a água com a mão tremendo um pouco. Sentou na cadeira de fórmica da cozinha, aquela mesinha com pé de metal que toda casa antiga tem. Entreguei a nota.

— Cento e cinquenta reais.

Ela olhou o número. Abriu a bolsa devagar, tirou uma carteirinha de moedas e começou a contar. Uma de cada vez. Alinhando na mesa. Moeda de cinquenta centavos, de vinte e cinco, até de dez.

— Tenho umas notas guardadas no quarto — disse.

— Não precisa se apressar, dona Zuleide.

— Eu pago, viu.

— Eu sei.

Mas ela continuou contando. Deu uns doze reais em moedas ali na mesa. Doze reais ao lado de uma conta de cento e cinquenta.

Ela parou. Olhou pra baixo.

— Meu benefício cai sexta-feira.

Olhei as moedas. Depois a geladeira. Depois ela. E alguma coisa dentro de mim travou.

— Sabe de uma coisa — falei —, esqueci uma peça na van. Já volto.

— Mas o senhor já consertou.

— Eu sei.

— Tá faltando alguma coisa?

— Não, dona Zuleide. Lembrei de uma coisa, só isso.

Peguei a caixa de ferramentas e saí.

Não fui na loja de material de construção. Fui direto no Assaí, o atacadão perto do anel viário. Fiquei uns dois minutos sentado na van pensando na geladeira vazia, nas moedas enfileiradas, na frase "eu pago, viu" — como se a única coisa que ela tivesse medo de perder fosse a dignidade.

Entrei e comprei frango, sopa em pó, pão de forma, ovos, aveia, banana, laranja, legumes congelados, café, leite, achocolatado e um pacote de biscoito Maria. Nada sofisticado. Fui pensando no que seria fácil pra uma senhora de setenta e oito anos preparar sozinha, no que ia durar a semana, no que ia deixar a cozinha dela menos parada no tempo.

No caixa, deu cento e quarenta reais. Paguei do meu bolso, no cartão de débito mesmo, sem pensar duas vezes.

Voltei pra casa dela com as sacolas. Quando abriu a porta, estranhou.

— Demorou.

— Trânsito na Washington Luís.

Ela olhou as sacolas.

— O que é isso?

— A peça.

— Encanador tem peça esquisita, hein.

— Muito esquisita.

Entrei e fui pra cozinha, uma sacola por vez, ela atrás em silêncio. Abri a geladeira e comecei a guardar tudo. Frango. Leite. Ovos. Fruta. Legume. Sopa. Pão. Comida de verdade — daquela que faz uma cozinha parecer que alguém ainda espera o dia seguinte.

Fechei a porta da geladeira. Ela ficou olhando pra aquilo, a mão tapando a boca.

— O senhor não devia ter feito isso.

— Eu sei.

— Não tenho como pagar isso.

— A senhora não me deve nada.

Ela balançou a cabeça, os olhos já marejados.

— Não gosto de dar trabalho pra ninguém.

Encostei no balcão.

— Dona Zuleide, a senhora não é trabalho nenhum.

Ela olhou pro retrato na estante — o do casamento, moldura de plástico já meio amarelada.

— Meu marido cuidava de tudo isso — a voz saiu mais fina. — Faz três anos que ele se foi.

Não falei nada. Não tinha o que dizer.

Ela passou a manga do cardigã no rosto.

— Ainda compro pão de mais, às vezes. De hábito.

Aquela frase pesou mais que tudo o resto. Porque o luto às vezes não avisa. Às vezes é só isso: comprar pão demais, pôr dois pratos na mesa por engano, abrir a geladeira e lembrar que só sobrou uma pessoa pra alimentar.

— Nem percebi como isso aqui tinha esvaziado — ela disse, olhando as prateleiras cheias.

Sabia que ela não estava falando só da geladeira.

Ficamos calados. O relógio da cozinha continuou marcando. Por um instante, pareceu que a casa inteira tinha prendido a respiração.

Fui embora poucos minutos depois. Já perto da van, ela chamou da porta.

— Espera.

Voltei. Ela segurava um saquinho com um dos biscoitos que eu tinha comprado.

— Esqueceu isso.

Sorri.

— É pra senhora.

— O senhor consertou minha pia.

Peguei o biscoito.

— Combinado, então.

Ela ficou na porta até eu virar a esquina.

Comi o biscoito no sinal da Avenida Ipanema. Era um biscoito comum, desses de pacote de supermercado. Mas juro que teve outro gosto naquele dia — porque não conseguia parar de pensar na mulher que tinha contado moeda por moeda pra me pagar. Que pediu desculpa por uma casa impecável. Que disse que a compra era só quinta pra um estranho não desconfiar que ela estava sem comida. Que ainda assim me ofereceu água, tendo tão pouco pra ela mesma.

Não sou rico. Tenho conta de luz, tenho prestação da van, tem mês que conto o troco antes de encher o tanque. Não sou herói nenhum. Só sou um encanador que reparou numa coisa que não devia ter reparado, e não conseguiu fingir que não tinha visto.

Voltei lá umas três vezes depois daquele dia — sempre com desculpa de "peça que ficou faltando", sempre saindo do mercado antes. Numa dessas visitas, contei pra ela sobre um programa da prefeitura de entrega de cesta básica pra idoso, dei o telefone do CRAS do bairro, escrevi num papel e deixei preso na porta da geladeira com ímã. Ela ligou. Hoje recebe cesta toda quinzena.

Da última vez que fui até lá, ela tinha trocado o jornal amarelado do armário por um pacote de detergente e uma esponja nova. Reparei, mas não comentei nada. Ela também reparou que eu reparei, e só sorriu, servindo o café que dessa vez eu aceitei tomar.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: