A noite em que a sogra descobriu que o apartamento era meu

— Fora da casa do meu filho! — gritou dona Zélia, empurrando a porta com a ponta do sapato de salto grosso.

Aline largou o rodo no balde e se apoiou no batente da cozinha. O chão da sala ainda brilhava. Eram quase dez da noite de uma terça-feira chuvosa em Curitiba, e ela só queria tomar um banho e esquecer as últimas semanas.

— Boa noite, dona Zélia. A senhora pode tirar o sapato? O piso acabou de secar.

— Tirar o sapato pra você? Tá achando que eu sou visita? Eu vim buscar a dignidade do meu filho.

A mulher atravessou a sala sem tirar os olhos da nora, deixando marcas escuras no porcelanato claro. A bolsa de verniz foi parar em cima da mesa de centro, ao lado do gato que dormia enrodilhado.

— O Renato saiu daqui há duas semanas, e você continua aí, se espalhando como se fosse dona. Pra fora. Hoje.

Aline respirou fundo. Renato tinha feito as malas depois que ela encontrou prints no e-mail — conversas com uma tal de Vanessa do trabalho. Não houve barraco. No sábado de manhã, enquanto ele foi comprar pão, ela colocou as malas no corredor e passou a chave. Ele foi embora bufando. Pelo jeito, a versão que chegou até a mãe foi bem diferente.

— Dona Zélia, a senhora quer um café? — Aline foi até a pia e torceu o pano, ainda de costas.

— Não vim tomar café. Vim dizer que amanhã de manhã eu quero você e suas tralhas fora daqui. O Renato não quer trocar o segredo da porta por pena. Mas eu não tenho pena nenhuma.

Aline virou. Conhecia bem aquela fala. Durante cinco anos, o marido sustentou uma mentira para a mãe: de que ele havia comprado o apartamento com o próprio suor, um financiamento de trinta anos, prestações que comiam o salário. Na verdade, quem comprou foi Aline. Seus pais venderam o sítio que a avó deixou em Morretes e deram o dinheiro para a filha. Escritura no nome dela, quitada antes do casamento. Renato pediu para não contar. Disse que a mãe nunca aceitaria um filho que “vivia de favor”.

Na época, Aline deu de ombros. Agora, aquela omissão voltava em forma de escândalo.

— A senhora acha mesmo que eu vou sair de casa à meia-noite com uma criança de três anos? — Aline cruzou os braços.

— Isso não é problema meu. Te vira. Você ficou três anos em licença, mamando nas tetas do meu filho. Ele se matava de trabalhar, fazia bicos de motorista de aplicativo, vendia almoço, fazia hora extra. E você aí, de unha feita. Aí o cara toma uma cerveja com os amigos e você expulsa ele como se fosse cachorro?

— Cerveja com os amigos? Foi isso que ele contou?

— E o que mais seria? — dona Zélia apontou o dedo para o armário planejado. — Esse armário novo aí, ele que pagou. A pia de granito, idem. O porcelanato, o ar-condicionado do quarto. Tudo ele. E você quer ficar com o apartamento depois de chutar ele?

Aline foi até o quarto dos fundos, abriu o guarda-roupa que ainda tinha algumas camisas sociais de Renato e voltou com uma caixa de papelão lacrada com fita crepe. Dentro fazia barulho de ferramentas.

— Leva isso também. São as chaves de fenda e a furadeira que ele esqueceu. No hall de serviço ainda tem a cadeira de rodinha quebrada que ele disse que ia consertar.

— Para de desviar o assunto! — dona Zélia estalou a mão na mesa. — O apartamento é do meu filho! Eu vi os comprovantes! Todo mês ele pagava o banco, eu mesma vi quando ele fez o DOC no celular, estava do lado dele na agência!

Aline cansou. Pegou o celular do bolso do short e colocou sobre a mesa, com a tela virada para cima.

— Então vamos esclarecer agora. A senhora liga para o Renato. No viva-voz. E pergunta para ele o que ele pagava.

— Eu vou ligar sim, e ele vai vir aqui te colocar pra fora!

Dona Zélia abriu a bolsa com pressa, catou o celular em uma capinha vermelha e discou. O telefone chamou quatro vezes. Atendeu com a música alta ao fundo.

— Alô, mãe? — a voz de Renato veio arrastada, como se tivesse acabado de sair da pista de dança.

— Meu filho, eu tô aqui na sua casa, com essa… essa aí! Ela não quer sair! Fala pra ela que o apartamento é seu, fala que você pagou as prestações, fala que a mobília é sua! Ela tá achando que pode te expulsar!

Silêncio do outro lado. A música foi sumindo. Ele devia estar indo para a área externa do bar.

— Mãe… onde a senhora se meteu? Eu mandei não ir lá. Isso é assunto meu e da Aline.

— Assunto seu nada! Você vai deixar ela dormir na sua cama enquanto você tá dormindo no sofá da sua tia? Fala logo, Renato. Fala que a casa é sua!

Aline se aproximou do telefone. A gata pulou no colo dela.

— Oi, Renato. Sua mãe está exigindo que eu desocupe o imóvel. Disse que você pagou o financiamento sozinho. Que o armário e a pia você que comprou. Se for verdade, eu saio agora com a Lara e durmo na rodoviária. Mas se não for, você assume a sua mentira. Agora.

— Aline… — ele gaguejou.

— Renato! — gritou dona Zélia. — Você pagou ou não pagou essa espelunca? Anda!

— Mãe… eu não pagava prestação nenhuma.

Dona Zélia ficou pálida. A mão que segurava o celular começou a tremer.

— Como não? E os comprovantes? Aqueles que você me mandou no WhatsApp?

— Eram do empréstimo do carro, mãe. Eu troquei de carro há dois anos, a senhora não lembra? O apartamento é da Aline. Os pais dela venderam o sítio da avó e deram o dinheiro. Tá no nome dela desde antes de casar. Para de passar vergonha e vai embora. Depois eu converso com você.

— Mas… mas você me disse que era seu! Você me mostrou aquele boleto, aquela pasta azul…

— Eu nunca mostrei escritura nenhuma, a senhora que inventou essa história. Pronto, falei. Vai embora, mãe. Deixa a Aline em paz.

E desligou.

O som dos gotejados da chuva na janela preencheu a cozinha. Dona Zélia ficou olhando para o tampo da mesa, a bolsa caída, o batom que rolou para o chão. O castelo de cartas desmoronou. Seu filho não era o provedor que ela imaginava. Era um homem que mentiu para ela durante cinco anos e que traía a esposa com uma colega de trabalho.

— A senhora vai me desculpar, dona Zélia. — Aline falou baixo, mas firme. — Ele não saiu de casa porque bebeu com os amigos. Saiu porque eu descobri que ele estava tendo um caso com a Vanessa, do financeiro. Há quase um ano. Se quiser mais detalhes, pergunta para ele.

A mulher não conseguiu responder. Apenas fechou a boca, os olhos marejados. Levantou devagar. A empáfia secou. Pegou a bolsa, e Aline a acompanhou até a entrada. No chão da sala, as marcas escuras de terra e asfalto ainda brilhavam sob a luz amarelada.

— Leva as coisas dele. — Aline apontou para a mala esportiva ao lado do sapateiro. — E a caixa de ferramentas também. O resto das camisas eu ponho num saco e deixo na portaria amanhã.

Dona Zélia pegou a mala pesada com uma mão e a caixa com a outra. Saiu sem olhar para trás, arrastando os saltos pelo corredor do prédio. A porta se fechou.

Dois dias depois, Aline trocou o segredo da fechadura com a ajuda de um vídeo no YouTube. Gastou vinte minutos e uma chave Allen. O Renato mandou uma única mensagem: “Põe as camisas num pacote, por favor.” Ela nem respondeu. Naquela noite, fez questão de estender o edredom limpo na cama, abrir a janela e deixar o vento gelado de Curitiba levar o resto do cheiro que ainda insistia em ficar.

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