# A Xícara Vazia

Todo mundo naquela mesa sabia. Menos eu.

O restaurante ficava no vigésimo andar, com aquela vista panorâmica da Avenida Paulista que custa mais caro que o aluguel de muito apartamento por aí. As toalhas brancas, os arranjos de orquídeas, os garçons de luvas pretas — tudo impecável. Comemoração de dez anos da agência, a Vera preparou cada detalhe como se fosse um casamento.

Só que na minha frente não tinha cartão com nome. Nem taça de espumante. Nem menu.

Tinha uma xícara de porcelana. Vazia. Com uma fita vermelha amarrada na alça.

— É brincadeira? — perguntei, baixinho.

Do outro lado da mesa, a Vera crispou os lábios num gesto satisfeito. Do lado dela, o Cássio, meu noivo, continuou enrolando o guardanapo entre os dedos, sem erguer a cabeça.

Era para ser um evento só para funcionários. Mas ali estava ele, de terno novo — um cinza-escuro que eu nunca tinha visto na vida. E a Vera usava o alfinete de prata que eu mesma comprei para ele três meses atrás, numa feirinha no MASP.

A ficha demorou uns segundos para cair. Mas quando caiu, veio inteira.

— O que você tá fazendo aqui? — perguntei para o Cássio.

— A Vera me convidou.

— Para quê?

A Vera levantou a taça de água, deu um gole pequeno. Pousou com força — fez aquele *toc* seco na mesa.

— Para conversarmos como adultos, Letícia. Sobre confiança. Sobre lealdade. E sobre pessoas que não sabem aceitar quando perdem.

O salão ficou mudo. Até o garçom que ia servir a entrada recuou.

Ela então anunciou — com voz alta, para todo mundo ouvir — que a nova campanha do cliente principal passaria a ser liderada por ela e pelo Cássio como consultor externo. A campanha que eu vinha desenvolvendo havia oito meses. Aquela que me fez dormir no escritório, comer marmita fria enquanto o Cássio dizia que estava com saudade. Que tinha orgulho de mim.

Na xícara, a fita vermelha tinha um detalhe que eu reconheci na hora. Veio da caixinha onde eu guardava o pen drive com a apresentação. Em casa. No meu apartamento.

Onde o Cássio tinha as chaves.

— Você entrou lá — falei. — Mexeu nas minhas coisas.

Ele riu sem me dar a cara:

— A gente morou junto quase três anos, Lê. Não faz cena.

A Vera inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa:

— Ninguém roubou nada de você. Só que certas ideias funcionam melhor quando quem as conduz tem estabilidade.

Estabilidade. Era assim que chamavam o fato de eu ter faltado três semanas, nos últimos dois meses, para cuidar da minha mãe, com um AVC que deixou o lado esquerdo paralisado. O fato de eu não ir nos jantares porque pagava cuidadora, fralda geriátrica, adaptação do banheiro. O fato de eu estar sempre com olheira.

— Vocês resolveram me tirar do projeto enquanto eu estava com a minha mãe? — perguntei.

Cássio ergueu o queixo e me dirigiu a palavra:

— Você não era mais a mesma. Vivia cansada. A Vera pelo menos sabe o que quer.

Ali partiu. Mas não de dor. Partiu de clareza.

Abri a bolsa. Tirei um envelope pardo, pequeno. A Vera acompanhou o movimento com uma expressão que foi se desmanchando, como quem vê uma porta se abrir onde não devia.

— O que é isso, Letícia? Mais drama?

— Reserva.

Dois segundos de pausa.

— Há um mês eu percebi que alguém acessava meus arquivos de madrugada, usando o login do Cássio. Não falei nada. Troquei a apresentação original por uma versão falsa na mesma pasta — números errados, gráficos vazios, projeções sem pé nem cabeça. Sabia que ela seria copiada. A versão verdadeira eu registrei no sistema interno da agência com carimbo de data e protocolo, quatro dias atrás. O conselho já tinha acesso à minha proposta original, documentada em ata. Ontem à noite, a Vera mandou a versão falsa para eles como se fosse a proposta dela. Quando o sistema cruzou os metadados, o IP da máquina do Cássio e o login dele apareceram no envio da adulteração — a fraude ficou provada em minutos.

A Vera largou a taça no lugar. Com muito cuidado. Como se pudesse quebrar.

— O que você fez?

— O mesmo que vocês. Me preparei.

O celular dela vibrou. Depois o do diretor financeiro. Depois o de mais duas pessoas da diretoria, todos com a notificação do conselho.

Cássio se levantou de repente, a cadeira arrastando no piso de mármore:

— Lê, espera… Você não precisava expor a gente assim.

— Expor? — repeti. — Vocês invadiram minha privacidade, roubaram meu projeto e ainda queriam me humilhar em público. Agora aguentem.

A Vera tentou articular uma defesa — “mal-entendido”, “falha de comunicação” —, mas o gerente do restaurante se aproximou da mesa. Não pelo escândalo. Ele segurava o telefone sem fio e disse, com discrição:

— Senhora Vera, o senhor Albuquerque ao telefone. Ele insiste em falar pessoalmente.

Ela empalideceu. Pegou o fone e virou o corpo, murmurando em tom baixo demais para que eu ouvisse. Vi seus ombros baixarem. Quando voltou, ainda tentou:

— Isso é uma confusão, Letícia está distorcendo os fatos. Precisamos resolver internamente.

O gerente interveio, pousando a mão no encosto da cadeira:

— O senhor Albuquerque pediu que eu informasse que a comemoração está suspensa e que a liderança do projeto será reavaliada imediatamente. A senhorita Letícia deve comparecer amanhã às nove horas para a apresentação oficial da versão verdadeira — ele marcou a reunião enquanto estávamos na linha.

Cássio olhou da Vera para mim, a respiração pesada. Ela ainda esboçou uma réplica, mas o diretor financeiro cutucou o braço dela, mostrando a tela do celular. Fosse o que fosse, calou-a.

Antes de sair, puxei a fita vermelha da xícara e a guardei no bolso da jaqueta. Deixei a xícara vazia sobre a mesa.

— Fiquem com ela. Combina com vocês.

Tirei a aliança do dedo. Não joguei. Não fiz cena. Apenas coloquei do lado do guardanapo do Cássio e saí com as costas retas.

O elevador demorou uma eternidade. Quando as portas se fecharam, o ronco do motor descendo foi o som mais bonito que eu já tinha ouvido.

Na manhã seguinte, a campanha foi aprovada. Sete dias depois, a Vera pediu demissão. O Cássio me mandou uma mensagem longa: “confuso”, “ela me manipulou”, “ainda te amo”. O clássico.

Não respondi.

A última vez que passei em frente àquele restaurante foi numa terça-feira, voltando de uma visita à minha mãe. Contemplei o vigésimo andar e lembrei do barulho que a xícara fez quando a deixei na mesa. Um *toc* seco. Pequeno. Mas definitivo.

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