Foram cinco anos de injeções na barriga, exames humilhantes e ciclos de esperança que terminavam em um choro trancado no banheiro. Quando Larissa finalmente engravidou de trigêmeos, Bento, Clara e Tomás, os médicos avisaram que a gestação seria de altíssimo risco. Ela quase morreu na mesa de parto. Três paradas cardíacas. Duas transfusões. Mas sobreviveu.
Quem não sobreviveu foi o casamento. O Henrique simplesmente evaporou.
Enquanto Larissa passava as madrugadas trocando fraldas, dando mamadeira e tentando acalmar três bebês com cólica ao mesmo tempo, ele chegava do escritório e ia direto jogar videogame no escritório. O argumento era sempre o mesmo:
— Eu trabalho o dia inteiro, Larissa. Você está em casa. Não é tão difícil assim.
Ela passou a emendar uma soneca na outra, comia barrinha de cereal em pé e tomava banho com a porta aberta para ouvir o choro. Os olhos fundos denunciavam o esgotamento, mas Henrique fazia questão de ignorar.
Numa terça-feira, ele largou a bomba no café da manhã.
— Vou viajar com o pessoal do trabalho, cinco dias em Maresias. Preciso de um tempo para descansar.
Ela ficou parada com uma colher de papinha na mão.
— Henrique, nós temos três bebês de seis meses. Você acha mesmo que agora é hora?
Ele deu de ombros, bebeu um gole de café e respondeu como quem comenta o clima:
— Você não merece descanso. Fica em casa o dia todo. Além do mais, eu mereço. Trabalhei muito esse ano.
A frase "você não merece descanso" entrou na pele de Larissa como um pedaço de vidro. Ela não respondeu. Só continuou dando a papinha para a Clara, com a mão firme enquanto o vidro afundava um pouco mais.
Na manhã da viagem, Henrique saiu de fininho antes de o sol nascer. Larissa acordou com Bento chorando e, quando foi até a garagem buscar o carrinho, descobriu que os dois carros estavam sem chave. Ele havia levado os dois controles.
A intenção era clara: trancá-la em casa.
O pediatra havia marcado a consulta dos seis meses dos trigêmeos havia semanas. Larissa não ia faltar. Ligou para o irmão, Caio, que chegou em quinze minutos com uma cadeirinha emprestada. Juntos, os dois encaixotaram os bebês e foram para a clínica.
Foi na sala de espera, enquanto segurava o Tomás enrolado no sling, que Larissa olhou para o irmão e disse, baixinho:
— Eu não aguento mais. Mas não vou deixar esse homem me desmontar.
Caio assentiu. Não precisava de mais explicação.
Naquela mesma tarde Larissa ligou para a mãe. As duas passaram a noite empacotando fraldas, bodies, mantinhas e as cadeirinhas de refeição. Ela tirou foto de cada cômodo da casa, anexo por anexo, mostrando que só estava levando os pertences pessoais e as coisas das crianças. Cada clique do celular era uma sentença assinada.
Enquanto Henrique postava stories com os pés para cima, bebendo cerveja na beira da piscina e legendando "férias merecidas", Larissa se mudava para um sobrado antigo em Jundiaí, herança dos avós.
Ela também contratou uma advogada. Deu entrada no pedido de divórcio na quarta-feira. Guardou a cópia do processo em uma pasta azul e esperou.
No sábado à noite, Henrique estacionou na garagem. Vinha filmando a própria chegada, rindo sozinho. Abriu a porta da sala e sentiu o silêncio.
Um silêncio estranho.
As cadeirinhas de alimentação não estavam mais no canto. O tapete de borracha, os mordedores espalhados, a banheirinha — tudo limpo. Tudo vazio.
Larissa estava sentada na mesa da cozinha, com a luz amarelada batendo no rosto. Na sua frente, a aliança de casamento brilhava ao lado da pasta azul.
— Cadê as crianças? — a voz dele saiu mais aguda do que ele gostaria.
Ela não levantou os olhos.
— Em casa.
— Como assim "em casa"? A casa é aqui.
— Não. A casa deles agora é em Jundiaí. Onde eu não preciso carregar três crianças e um marido que acha que ser pai é um favor que se faz à esposa.
Ele largou a mala no chão. Tentou se aproximar, mas parou no meio do caminho.
— Você está louca? Me tira da internet, sua irmã postou um monte de indireta e eu tive que ouvir piada dos meus amigos. Vocês destruíram minha reputação.
Larissa finalmente ergueu o queixo. Seus olhos estavam secos, o cansaço havia dado lugar a uma calma densa.
— A sua reputação, Henrique, foi você quem destruiu. Postando foto de praia enquanto eu dava banho em três bebês sozinha e com febre.
Ele engoliu seco. Abriu a boca para argumentar, mas ela apontou para a pasta.
— O processo está aí. Advogada está me esperando segunda-feira.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Três semanas depois, Henrique apareceu no sobrado de Jundiaí no horário de visita estipulado pela decisão judicial. Estava com um pacote de fraldas na mão e uma expressão de quem ainda achava que um presente consertava tudo.
— Eu vim ajudar — disse, como se estivesse fazendo um grande gesto.
Larissa recebeu as fraldas na porta, colocou-as de lado e chamou a mãe para ficar com os trigêmeos na sala. Depois encostou o corpo no batente e falou com uma voz que não tremia:
— Ajudar, Henrique, a gente ajuda um vizinho a carregar compra. Ser pai não é ajuda. É obrigação. E você nunca entendeu isso.
Ele tentou insistir, dizer que agora seria diferente, que tinha percebido o erro. Mas ela apenas balançou a cabeça, devagar.
— Você teve seis meses e cinco dias de praia para perceber. Agora o tempo é meu.
Fechou a porta com cuidado, para não assustar as crianças. Do outro lado, os passos dele se afastaram devagar pelo cascalho da entrada.
Larissa foi até a varanda, sentou-se na rede e puxou Bento para o colo. A casa cheirava a leite morno e lavanda. Ela encostou a cabeça no tecido da rede, sentindo o balanço suave, e fechou os olhos por um instante.
Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não doía.
