Minha avó, Dona Zilda, morreu num abril de chuva grossa em Campina Grande. No enterro, enquanto jogavam terra na urna, minha tia Sônia me puxou pelo cotovelo e disse que precisávamos conversar sobre a fazenda. Achei que era sobre dívida, imposto, cerca caída. Meu pai tinha deixado uns alqueires perto de Boa Vista, terra seca que só dava mandioca braba e pedra. Nunca imaginei que a conversa era sobre uma dívida antiga, de onze anos, que minha avó cobrava em silêncio. Uma história de choro, de canga e de susto.
Depois do sétimo dia, subi de ônibus até o Cariri. A estrada esburacada, poeira vermelha entrando pela janela. Levei uma mochila e um terço que era da minha mãe. Na fazenda, o portão da frente, caído. O curral vazio, sem um bicho. Só um jumento magro, de nome Cristal, pastando perto do velho açude. A casa cheirava a mofo, mas na parede da sala tinha um retrato de São Francisco, com a moldura torta, minha avó ali sentada na poltrona de palha. Parecia que ela tinha acabado de sair pra colher umas flores de mandacaru.
No fundo do quintal, a surpresa: uma pequena criação de cabras. Sete cabras brancas, de orelhas caídas, e um bode cinzento, velho, meio cego, que batia o casco no chão quando eu me aproximava. Minha tia Sônia chegou no fim da tarde, dirigindo a caminhonete do marido. Desceu buzinando, espantando as cabras. Ela falava alto, como quem tem pressa de ir embora.
— Você precisa decidir isso logo. Não tenho tempo pra ficar aqui cheirando bosta de bode.
Ela mostrou um papel dobrado em quatro. Um documento. Minha avó tinha deixado a propriedade em testamento, mas com uma condição. Minha tia queria vender tudo. Eu sabia que ela já tinha conversado com um comprador de João Pessoa, um tal de Doutor Peixoto, que oferecia cento e vinte mil reais pela terra. Segundo ela, era um bom negócio. O comprador queria derrubar tudo e plantar palma forrageira.
Mas a condição da minha avó era outra. E essa condição tinha nome e bigode: Raimundo, um velho vaqueiro que morava atrás do açude. Ele tinha a posse vitalícia de uma faixa de terra e o direito de pastorear as cabras na propriedade enquanto vivesse. Minha avó comprou as cabras dele numa seca braba, pagou menos do que valiam, e depois ficou com esse peso na consciência. Ela registrou em cartório. Minha tia achava aquilo um absurdo.
— Esse velho é um aproveitador. Vive até hoje de graça nas terras da família.
Mas não era de graça. Raimundo acordava às quatro da manhã, tirava leite, limpava o curral, consertava as cercas. Onze anos sem faltar um dia. Eu lembrava do cheiro dele, uma mistura de suor, fumo de rolo e leite azedo. Quando eu era menino, ele me levava na garupa do cavalo até o lajedo. Ensinava a pegar calango com as mãos.
Naquela noite, tia Sônia sentou na cozinha, debaixo da lâmpada amarela. Tomou café num copo de alumínio. Três goles e já estava falando de novo:
— Se você não assinar, Antônio, perde dinheiro. Esse velho não dura mais um ano. Depois que ele morrer, a terra valoriza o dobro. Você não entende? É só esperar.
Ela queria que eu renunciasse à condição. Que eu dissesse ao cartório que Raimundo não morava mais lá. Que eu contasse uma mentira pequena pra ajeitar o documento.
— A gente não vai despejar ninguém. Ele fica até morrer. Só que no papel, deixa de existir. É assim que as coisas funcionam.
Fiquei calado. O jumento relinchou no pasto. O bode cinzento bateu o casco na madeira do chiqueiro. Foi a resposta da casa.
No outro dia, fui cedo ao cartório da cidade de Boa Vista. Levei o papel da minha avó. No balcão, uma moça de óculos na ponta do nariz digitava devagar, conferindo os dados de vez em quando. O cartório cheirava a papel velho e cera. Ela leu o documento, passou a mão no carimbo e perguntou:
— O senhor quer formalizar a renúncia?
Eu ia dizer que sim. Minha tia estava do lado de fora, encostada na caminhonete, com os braços cruzados. O comprador já tinha ligado duas vezes. Mas na hora, lembrei de uma manhã qualquer, anos atrás, quando minha avó me mostrou Raimundo no pasto. Ele estava de cócoras, com uma cabra no colo. A cabra tinha rejeitado o filhote, um cabritinho de corda fina, que não parava de tremer. Raimundo segurava a cabra pelos chifres e cantava. Uma melodia antiga, que ele dizia ter aprendido com o avô vaqueiro, um canto de acalanto que as pessoas chamavam de "canto do deserto". A cabra chorava. Lágrima de bicho, escorrendo pelo focinho. E aos poucos, o canto foi baixando. A cabra se ajoelhou. O filhote se encaixou e mamou. Raimundo ficou ali, passando a mão no dorso da bicha, e dizia baixinho: "Pronto, mãe. Pronto."
Isso não é história que se venda por cento e vinte mil reais.
Eu disse à moça do cartório:
— Não. Não vou renunciar.
Minha tia entrou logo atrás, os passos duros.
— Você tá me envergonhando! Depois que aquele velho morrer, você vai ver. Vai ficar sem terra, sem dinheiro, sem nada.
Ela bufou, pegou a bolsa e saiu batendo o salto. Eu fiquei ali, com o papel na mão. A moça dos óculos perguntou:
— O senhor quer certificar o direito do vaqueiro?
— Quero.
Assinei, reconheci firma, paguei a taxa de cento e quarenta reais. Saí com a via do velho e fui direto pra casa dele. Era uma tapera de dois cômodos, telha vã, chão de terra batida. Na parede, uma lamparina apagada. Raimundo estava sentado num toco de madeira, descascando mandioca. Quando me viu, levantou, tirou o chapéu de couro. Entreguei o papel. Ele olhou pra mim e depois pro papel.
— Não sei ler, menino.
Eu li em voz alta. Quando terminei, ele ficou parado, com a mandioca na mão. Não falou nada. Ele só voltou pro toco, descascando a mandioca. Mas vi a mão dele tremer. E uma gota cair no facão.
Minha tia ainda tentou na justiça. Perdeu. Doutor Peixoto desistiu. A terra continua no nome da família, mas Raimundo vive no canto dele, com as cabras. Todo fim de semana, subo a serra. Levo minha filha, que gosta de montar no Cristal. Ela faz carinho no bode e canta uma moda de roda. Raimundo ensina o canto do deserto a ela. Ela canta, baixinho, do jeito que o velho ensinou. E a cabra branca para de mastigar, levanta a cabeça, escuta.
