Alma

A chuva fina e gelada de julho transformava o bairro de Santa Tereza num cinzeiro molhado. Augusto revirava a lixeira da Rua Mármore com a meticulosidade de um ourives, separando latas de alumínio de garrafas de vidro. Fazia isso desde as seis da manhã, quando o céu ainda estava escuro e os bares começavam a despejar o lixo da noite anterior. No carrinho de feira improvisado, já tinha juntado quase dois quilos de latinhas. Dava para uma cachaça e um pão com mortadela, se negociasse bem com o Seu Zé do ferro-velho.

A barba grisalha e por fazer pinicava o rosto. Há três anos ele tinha casa, carro e uma esposa que ainda o amava. Há três anos ele era engenheiro civil, projeto aprovado, obra entregue no prazo. Mas a Soraia foi embora num sábado de manhã, sem histeria, sem porta batendo. Disse que estava cansada de competir com um copo. Na segunda-feira seguinte, ele não conseguiu levantar da cama. Na terça, também não. Depois de um mês, a construtora mandou um e-mail seco demitindo-o por justa causa. E Augusto foi escorregando para dentro de si mesmo, devagar, como quem desce uma ladeira de terra molhada.

De uma sacola rasgada no fundo do container verde, ele puxou um embrulho de padaria. Cheirou. Pão de sal amanhecido, duro, mas sem bolor. Abriu a ponta para tirar a parte menos estragada e foi quando sentiu o olhar.

Embaixo do container, entre uma poça de água suja e um pedaço de papelão, dois olhos amarelos miravam o embrulho. O gato era pequeno, magro, pelo preto e branco grudado nas costelas. Tremia sem parar e não desviava o olhar da mão de Augusto. Não miou, não se moveu. Só olhava.

— Também quer? — perguntou, e a própria voz soou estranha, rouca, como um móvel arrastando no apartamento vazio.

Rasgou um pedaço do pão e jogou perto do animal. O gato recuou meio palmo, avançou dois, cheirou a migalha e engoliu. Depois olhou de novo para Augusto com a mesma fixidez elétrica. Ele jogou o resto. O gato comeu tudo, inclusive os farelos.

Augusto terminou de catar as garrafas e puxou o carrinho pela calçada irregular. Na esquina, parou. Olhou para trás. O gato estava sentado na beirada da calçada, imóvel, olhando-o sumir na garoa. Alguma coisa apertou dentro do peito dele, uma memória sem nome.

Voltou. Agachou-se. As mãos sujas e trêmulas passaram por baixo da barriga molhada do animal e o ergueram. O gato era mais leve que um par de meias. Augusto abriu o zíper da jaqueta xadrez, enfiou o bicho ali dentro e sentiu o pelo gelado encostar na camiseta. O carrinho rangeu ladeira acima.

O apartamento no terceiro andar do conjunto habitacional fedia a bituca, suor azedo e álcool. No chão da sala, uma muralha de garrafas vazias se equilibrava em pilhas precárias. A televisão de tubo estava ligada num programa de auditório antigo, sem som. Augusto fechou a porta e colocou o gato no sofá manchado.

Abriu a geladeira. Uma lata de sardinha pela metade, três ovos, um pote de margarina. Amassou a sardinha num pires lascado e colocou no chão ao lado do sofá. O gato desceu numa ginga desconfiada, cheirou, lambeu a borda e depois atacou o peixe como se não comesse há uma semana.

— Tu tava com fome mesmo, hein, bichinho.

Foi até o quarto e desabou na cama de solteiro, sem tirar os sapatos. O colchão afundou acolhendo o corpo exausto. Quando o gato terminou de comer, farejou o apartamento inteiro, encontrou uma toalha velha no banheiro e fez ali suas necessidades, com uma dignidade quase humana. Depois pulou na cama e subiu no peito de Augusto.

O homem gemia durante o sono, um gemido de criança perdida. O gato ronronou, ajeitou as patas dianteiras e deitou a cabeça sobre o esterno do novo dono. O ronco foi diminuindo, o pesadelo recuou. Augusto sonhou que estava numa pracinha de Ouro Preto, menino, e a mãe ainda viva empurrava-o no balanço. O céu do sonho era de um azul que ele já não via acordado há muitos anos.

Às quatro da manhã, o gato levantou, espreguiçou-se e olhou fixamente para o rosto de Augusto. Os olhos amarelos piscaram uma vez. Duas. Depois, como se nunca tivessem existido, evaporaram no ar. O animal dissolveu-se numa névoa fina que subiu e desapareceu pelo vitrô entreaberto. Sobre o peito do homem, restou apenas um calor pequeno, como o de uma mão espalmada.

Augusto acordou com a boca seca e a cabeça mais leve do que deveria. Sentou-se na cama devagar, procurando o gato com o olhar. Encontrou-o enrolado no travesseiro, como se estivesse ali há horas. Estranho — teve a impressão nítida de que, em algum momento da noite, o bicho havia sumido. Bobagem.

Olhou para o espelho do guarda-roupa. O reflexo deu-lhe um soco no estômago. Um desconhecido inchado, amarelado, de olhos vermelhos e barba por fazer que mais parecia um animal morto, olhava de volta. Desviou o rosto e uma golfada de nojo subiu pela garganta.

— Meu Deus, Augusto. Você virou isso.

Foi o que disse em voz alta. O gato levantou as orelhas.

Naquele dia, ele tomou banho por quarenta minutos, ensaboou-se três vezes, raspou a barba na frente do espelho embaçado, cortou as unhas com um alicate enferrujado que encontrou no fundo de uma gaveta. Vestiu a calça jeans menos suja e uma camisa polo que ainda mantinha a forma de um cabide. Depois, com uma determinação que não sentia desde os tempos em que virava noites ajustando projetos, começou a recolher as garrafas do chão.

Encheu oito sacos de lixo. Foram oito viagens até a lixeira do térreo. No meio do trabalho, ao afastar uma pilha de jornais velhos na cozinha, encontrou um envelope pardo atrás do armário. Dentro, quatrocentos e vinte reais em notas de cinquenta — uma reserva que a Soraia escondia para o caso de emergência e que sobrevivera aos anos de penúria alcoólica.

— Olha isso aqui — disse ao gato, as mãos tremendo de emoção. O animal lambeu a própria pata, desinteressado.

Naquela manhã, Augusto foi ao mercado. Comprou ração, uma caixinha de areia sanitária, sabão em pó, frango congelado, arroz, feijão, café. No caixa, viu uma coleira azul na prateleira de utilidades. Pegou-a. Na volta, parou em frente à lixeira onde encontrara o gato. Abriu o pacote de ração e despejou um punhado em três cantos diferentes. Cachorros magros e gatos de rua aproximaram-se, incrédulos.

Abasteceu o carrinho com os mantimentos e empurrou-o pela calçada. Passou pelo espelho do elevador do prédio sem desviar o olhar.

No apartamento, o gato esperava atrás da porta, miando. Não era um miado de fome nem de carência. Era um miado de cobrança, como se dissesse "demorou". Augusto abriu uma lata de atum, serviu metade no pires e guardou o resto para o dia seguinte. Depois instalou a caixa de areia no banheiro e mostrou ao gato, como quem dá uma orientação profissional. O bicho entrou, cheirou, fez o que precisava fazer e cobriu com uma pata meticulosa.

O telefone tocou.

Augusto havia esquecido que tinha telefone. O aparelho fixo, coberto de poeira, vibrava sobre a mesinha de cabeceira com um som eletrônico e agudo. Ele ficou parado, olhando o objeto como se fosse um artefato de outra civilização. Atendeu no quinto toque.

— Alô?

— Ô, seu Augusto! Tá vivo, homem! — A voz do outro lado era a de Nelson, antigo colega de obra, um mestre de armas que havia trabalhado com ele em meia dúzia de projetos. — Liguei ontem umas três vezes e nada.

— Tava… ocupado.

— Ocupado, o cacete. Olha, te liguei porque surgiu uma coisa grande aqui. Condomínio novo na Pampulha, seis torres, fundação está um caos e o engenheiro chefe sumiu do mapa. Precisam de alguém com experiência, pra ontem. Tu tá parado?

— Tô — respondeu, e a palavra queimou na garganta.

— Então. O contrato é amanhã, sete da matina. A kombi da obra passa na porta do prédio. Se quiser, tô te esperando. É agora ou nunca, parceiro.

O clique do outro lado fez o silêncio voltar ao apartamento. Augusto segurou o telefone junto ao ouvido por mais tempo do que o necessário, ouvindo o ruído surdo da linha muda. Colocou-o sobre a mesa com o cuidado que se coloca uma flor sobre um túmulo.

Sentou-se no sofá manchado e olhou o gato.

— Me chamaram de volta — disse, a voz pastosa. — Na construtora. Amanhã. Sete horas.

O gato encarou-o sem piscar. Virou a cabeça para a direita, depois para a esquerda, como um pássaro avaliando uma migalha. E então, não havia dúvida possível, os olhos amarelos se apertaram num sorriso felino completo. As pupilas dilataram e a boca entreabriu, mostrando as presas mínimas.

Augusto soltou uma risada baixa, incrédula, passando a mão pelo rosto liso e ainda desconhecido.

Dormiu aquela noite abraçado ao gato, o ronronar preenchendo o quarto como uma respiração extra. Sonhou que o telefone tocava de novo. Dessa vez, a voz do outro lado era a de Soraia, macia e hesitante, como no dia em que se conheceram na fila do bandejão da faculdade.

— Deu saudade — ela dizia. — Você está bem?

— Tô — respondia Augusto dentro do sonho, e era a primeira verdade inteira que dizia em três anos. — Tô bem. A gente podia… se encontrar? Depois do trabalho?

— Depois do trabalho — repetia a voz, e a ligação caía.

Acordou antes do despertador. O quarto estava em silêncio, a luz cinzenta da manhã coando pela persiana. O gato dormia no travesseiro, enrolado em si mesmo como uma rosquinha de pelo. Augusto levantou-se, tomou café, alimentou o bicho, trocou a água.

Vestiu a melhor camisa que ainda tinha, uma azul-marinho que a Soraia havia lhe dado num aniversário qualquer do início do casamento, e que por milagre não estava manchada. Checou os documentos na carteira, pegou uma caneta e um bloco velho.

Na saída, agachou-se para fazer um carinho atrás da orelha do gato.

— Volto logo. Obrigado.

O gato lambeu-lhe a mão, depois mordiscou os dedos sem força, e foi sentar-se ao lado da porta. Os olhos amarelos brilhavam com uma intensidade que iluminava o corredor mal-acabado do conjunto habitacional.

Augusto desceu as escadas. O elevador ainda o incomodava, mas era um incômodo suportável, como o de uma cicatriz que parou de doer mas não deixou de existir.

Lá fora, o dia nascia. A garoa da noite havia lavado o asfalto e o céu começava a clarear sobre os morros de Belo Horizonte. No meio-fio, uma Kombi branca parava com o motor roncando e um braço moreno acenava pela janela.

— Chegou cedo, homem. Que milagre!

Augusto atravessou a calçada com as mãos nos bolsos, sentindo a sola dos sapatos tocar o chão como se fosse a primeira vez. Antes de entrar na Kombi, olhou para a janela do terceiro andar.

Alguém estava lá. Ou talvez fosse só o reflexo do sol nascendo contra o vidro. Mas Augusto poderia jurar que viu dois olhos amarelos brilhando lá de cima, miúdos e atentos, e que piscaram uma vez — devagar, como quem fecha uma porta com cuidado para não acordar ninguém.

A Kombi arrancou. O cheiro de café e graxa encheu a cabine.

— Me fala desse projeto — disse Augusto, e a voz já não tremia.

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