Dona Lúcia estava de cócoras junto ao canteiro de pimentões, as mãos sujas de terra vermelha, quando o motor do carro morreu bem em frente ao portão de madeira. Ela ergueu a cabeça e viu o Fox prata do genro, a poeira ainda pairando sobre a estradinha de terra. A filha desceu primeiro, de óculos escuros e sandália de dedo, sem despender um aceno. Atrás dela, Fábio esticava as pernas para fora do banco do motorista. No banco de trás, um casal que Lúcia nunca tinha visto.
Renata empurrou o portão sem pedir licença e foi se aproximando do varal coberto de mudas de tomate-cereja. Não tirou os óculos.
— Dona Lúcia, a gente tá vendendo a chácara. Precisamos dar entrada no apartamento — ela falou como quem anuncia o preço do quilo da cebola. Atrás dela, o marido acenava para os dois estranhos, que desciam do carro e olhavam para os lados feito fiscais.
Lúcia largou a muda de pimentão que segurava e se levantou devagar, apoiando as mãos no cós da calça de brim. O suor escorria pela testa, e ela nem se deu ao trabalho de limpá-lo.
— Como assim, vender? — a voz saiu baixa, quase afogada pelo canto insistente de um bem-te-vi pousado no abacateiro.
— Uai, essa aqui, uai! — Renata bateu a mão espalmada no tronco do jambeiro. — Tá no meu nome, a senhora lembra, né? Os compradores já tão aí. Vieram ver o terreno. A senhora vai juntando as coisinhas, que o Fábio leva a senhora pra cidade de noite.
Os dois visitantes já tinham invadido o terreiro. O homem, de camisa polo azul, cutucava a parede da casa com a unha, testando o reboco. A mulher, com uma prancheta na mão, apontou para a horta e fez um comentário em voz alta que o vento trouxe até a varanda:
— Aqui a gente vai arrancar tudo. Vai virar um piso de concreto, com quiosque e churrasqueira. Esses canteiros velhos só estragam a vista.
Lúcia ficou parada, vendo aqueles dois calçarem a grama que ela mesma plantou, carregando os rolos de leiva cinco anos antes, quando vendeu o apartamento que herdara da mãe. O dinheiro todo tinha ido para aquele pedaço de chão. A documentação, sim, ficara no nome de Renata. Na época, a filha trabalhava na prefeitura e disseram que havia uma linha de crédito especial para servidora pública que tivesse imóvel declarado, e Lúcia, que acabava de se aposentar, achou mais simples não se meter com escritura e imposto. Combinaram no fio do bigode: o sítio era da mãe, a filha não se metia.
Agora Renata estava ali, metendo-se até o pescoço.
Lúcia passou as mãos na saia do vestido e foi para a cozinha, uma portinha estreita que dava para o fogão a lenha. Encheu uma bacia de água fria da cisterna e foi enxaguando os dedos, um por um, enquanto via pela janela Fábio conduzir o casal em direção à horta, gesticulando como quem vende um carro usado.
A filha entrou logo atrás, puxou a porta e tirou os óculos. Estava com a raiz do cabelo escurecida, a maquiagem borrada no canto dos olhos.
— Não começa, mãe. A senhora precisa entender: o apartamento é pro Gabriel. O Fábio não conseguiu a promoção, e a gente só aprova o financiamento se der uma entrada maior. Tá tudo caro. E a senhora aqui, sozinha, com esse mato pra carpir… a pressão sobe, a coluna dói. Qualquer emergência, o SAMU vai levar quarenta minutos. Na cidade não, tem UPA pertinho, ar-condicionado, televisão. A senhora vai viver pra quê? Pra nós, pro neto. Ajuda aí.
Lúcia fechou a torneira, enxugou a mão no pano de prato pendurado no prego e demorou um segundo a mais olhando para a própria imagem refletida no fundo da panela de alumínio pendurada na parede.
— Sai da minha casa, Renata.
— No documento é minha, mãe. — A filha endureceu a boca. — Eu tô vendendo. Os compradores já gostaram e vão pagar o sinal. O Fábio vai mostrar o poço artesiano e a gente assina a promessa. Vai arrumando as mudas aí.
Renata rodou nos calcanhares e saiu batendo o pé na tábua corrida. Lúcia continuou parada junto à pia, sentindo um cansaço tão fundo que quase lhe entortava os joelhos. Olhou pela janela mais uma vez e viu o genro apontando para a velha mangueira, os compradores anotando qualquer coisa.
Foi quando um vozeirão rouco estourou do outro lado da cerca de arame farpado:
— Ô de casa! Tá fazendo o quê com o meu mourão aí, sô!
Era o Seu Antônio. Vizinho da direita. Uns setenta e poucos anos, sempre de calça de tergal suja de graxa e um chapelão de palha. Criador de encrenca profissional. Brigava com Lúcia toda semana: porque o pé de acerola dela gotejava no telhado dele, porque o cachorro vira-lata dele cavava buracos no jardim, porque a fumaça da queima de folhas invadia a varanda. Vivia escrevendo carta para a prefeitura. Mas naquele momento, ele estava encostado no esteio da cerca, com uma foice na mão, encarando o casal de compradores como se fossem ladrões de igreja.
— O senhor é da família? — perguntou o homem de camisa polo.
— Sou vizinho. E o senhor tá querendo comprar essa bagunça aí? — Antônio cuspiu de lado, sem tirar o olho deles.
Fábio se apressou, quase tropeçando na mangueira:
— Seu Antônio, o senhor dá licença? A gente tá mostrando o terreno.
— Eu tô vendo. — O velho nem piscou. — Já falaram pra vocês do esgoto?
O comprador franziu a testa.
— Que esgoto?
— A fossa séptica foi enterrada fora das normas. Aqui o lençol freático é alto. Na época das águas, a porcaria toda volta e desce pro poço. Não recomendo beber dessa água, não.
Renata disparou do alpendre, os óculos balançando na mão:
— O senhor tá maluco! Vou chamar a polícia pra difamação!
— Chama. — Antônio deu de ombros. — E já aproveita pra chamar um topógrafo também. — Ele batia distraído com o cabo da foice na estaca da cerca. — E aí, seus compradores, sabiam que essa cerca tá um metro e meio pra dentro do meu terreno?
O casal se entreolhou. A mulher fechou a prancheta.
— Isso aqui tá documentado. Eu já protocolei ação de demarcação na semana passada. Amanhã mesmo vou pedir a liminar pra bloquear a matrícula do imóvel. — Antônio deu um sorriso que mais parecia careta. — Eu adoro um processo. Isso aí vai correr uns três anos, no mínimo. Mas comprem, comprem. Fiquem aí na mala esperando.
O homem de camisa polo recuou um passo. Olhou para Fábio, que estava lívido, e depois para a esposa.
— A gente não quer dor de cabeça, não. Tem outro sítio em Carmo do Cajuru, vamos dar uma olhada lá. Boa tarde.
Entraram no carro sem apertar a mão de ninguém. Fábio ainda tentou segurar a porta, mas o motor já roncava e as rodas levantaram poeira na curva.
Renata ficou parada no meio do terreiro, os olhos arregalados para o velho.
— O senhor estragou tudo, seu velho encrenqueiro! Que demarcação? A cerca tá aí há vinte anos!
— Tá. Mas pela planta tá errada. E enquanto eu tiver vivo, vocês não vendem. Vou encher isso aqui de perícia. — Antônio guardou a foice no ombro e ia se virando, quando deu de cara com Lúcia, que saíra da cozinha e observava tudo com o pano de prato ainda na mão.
Renata subiu os degraus do alpendrezinho e foi pra cima da mãe:
— A senhora armou isso! Foi a senhora que pediu pra ele fazer esse barraco!
— Eu não falei com ele desde quarta-feira — respondeu Lúcia, sem alterar a voz. — Mas ele tá sendo mais honesto que minha própria filha.
— Pois fica aí, então! — Renata chutou o tamborete de madeira, que saiu rodando e bateu na parede. — Fica enfiada nesse barro! Não vai ver mais um centavo nosso!
Fábio nem entrou. Buzinou da estrada, e a filha saiu correndo, deixando o portão escancarado.
Lúcia abaixou-se, endireitou o tamborete, e foi sentar na escadinha da cozinha. O sol estava baixo, as cigarras começavam a cantar. O sabiá-laranjeira já ensaiava o fim do dia. Ela não chorava; não tinha lágrima, só um nó seco e espinhoso no peito.
Ouviu o arrastar das botinas no chão de terra. Era Seu Antônio, sem pedir licença, entrando no terreiro. Puxou um cigarro de palha do bolso da camisa, riscou o fósforo na sola do sapato e soltou a fumaça para o outro lado, por educação.
— Não amolece não, Dona Lúcia. — Ele puxou mais uma vez. — E nem me olhe com essa cara, que a cerca não tem erro nenhum. Mas pra essa gente da cidade, é só falar em “ação judicial” que eles fogem igual diabo da cruz.
— Por que o senhor fez isso, Antônio? A gente não se suporta.
— Isso é verdade. A sua acerola suja o meu telhado. — Ele deu um pigarro. — Mas a senhora é a dona daqui. A senhora põe a mão na terra. Aqueles dois chegaram de dedo duro dizendo “vai virar tudo concreto”. Hoje jogam a senhora fora, amanhã infernizam a minha vida. Eu não gosto dessas coisas, não.
Ele bateu as cinzas numa panelinha velha que ficava ao lado da escada.
— A senhora ainda tem os comprovantes da época que comprou isso aqui? Transferência, recibo do antigo dono?
Lúcia franziu a testa.
— Eu tirei da minha poupança na época. Acho que tem extrato. E o recibo de compra e venda… tá na pasta de documentos, lá no quarto.
— Então procura. Meu sobrinho é advogado. É meio enjoado, mas é competente. A senhora vai lá amanhã e leva tudo. Ele vai propor uma ação de enriquecimento sem causa contra a sua filha. Ou declaratória de propriedade. Ele que veja. O importante é pedir bloqueio na matrícula. Aí ela que tente vender.
— Processar minha filha? — Lúcia baixou os olhos para as mãos, que ainda guardavam vestígios de terra preta sob as unhas.
— E ela jogar a senhora no olho da rua na sua idade, pode? — O velho cortou seco. — Acorda, Dona Lúcia. Ela já te jogou. Na cabeça dela, a senhora já não existe mais. Se a senhora não defender o que é seu, eles engolem e não vão nem sentir o gosto.
Jogou a bagana na panelinha e voltou para o seu lado da cerca, assoviando entre os dentes.
No outro dia, Lúcia acordou de madrugada, pegou o ônibus das seis para a cidade. Ficou três horas numa agência do Banco do Brasil, sentada numa cadeira de plástico, esperando a atendente vasculhar os extratos do ano doze, até encontrar a transferência que comprovava a saída do valor integral da conta dela — R$ 180 mil na época. O recibo da mão do antigo proprietário, um senhor de Divinópolis, estava amassado, mas nítido: declarava que recebera a quantia de Dona Lúcia, ainda que a escritura definitiva tivesse sido lavrada em nome de Renata, por aquela história de subsídio da prefeitura.
O tal sobrinho, Dr. Marcelo, atendeu-a num escritório minúsculo, abarrotado de processos, e ficou um tempão esfregando o queixo enquanto lia os papéis.
— Dá para pedir a declaração de nulidade do registro por simulação, não vai ser fácil, mas temos bons indícios. — Ele pousou a caneta na mesa. — Vamos ajuizar uma ação declaratória com pedido liminar de bloqueio de matrícula. A senhora arcou com tudo, e ela não tem prova de doação. O juiz costuma conceder a tutela de urgência nesses casos.
— E quanto vai custar, moço?
— O Seu Antônio me disse que se eu cobrasse muito, ia furar os pneus do meu carro. — O advogado esboçou algo que não chegava a ser um sorriso. — Só as custas do cartório.
Um mês se passou. Renata não deu notícia. Lúcia plantou as mudas, carpindo os canteiros com o rádio de pilha ligado na moda de viola. A angústia ainda estava lá, pontual, sempre que um carro diferente encostava na estrada.
Em meados de outubro, a filha apareceu sozinha, num fim de tarde abafado. Veio de ônibus, a pé do ponto até a chácara. Entrou pelo portão sem bater, jogou a bolsa no banco de pau e sentou pesado, o suor escorrendo pelas têmporas.
Lúcia estava agachada amarrando as varas de tomate. Largou o barbante, endireitou as costas.
— Boa tarde.
— Boa tarde. — Renata não levantou os olhos. — Chegou a notificação do fórum lá em casa. Bloquearam a matrícula da chácara.
— Bloquearam.
— A senhora sabe o que a senhora fez? — A filha ergueu o rosto, com as pálpebras inchadas. — A gente tinha achado comprador. Ele topava levar mesmo com o risco da cerca, só pedia um desconto. O Fábio pegou um empréstimo com o chefe pra tapar buraco enquanto a venda não saía. Aí veio o bloqueio e o negócio desandou. O financiamento foi negado sem a entrada. O chefe quer o dinheiro de volta. O Fábio falou que se a gente não resolver, ele vai embora. A senhora tá destruindo a minha família!
A voz foi subindo, misturada a um choro que mais parecia uma acusação do que um pedido. Ela escondeu o rosto nas mãos e soluçou, esperando que a mãe se precipitasse, afagasse a sua cabeça, dissesse “tudo se ajeita, filha”.
Lúcia não se mexeu. Ficou de pé, sentindo o aroma do manjericão que subia do canteiro recém-regado.
— Se o seu marido quer ir embora porque vocês não conseguiram me roubar a casa, então é porque ele não vale o pão que come.
Renata deixou cair as mãos no colo.
— A senhora é cruel. Gosta mais dessas plantas podres do que do meu filho.
— Eu gosto da minha vida. E você achou que ela já tinha acabado, que dava pra trocar por uma entrada de apartamento. Você nem perguntou. Só chegou e disse: “aruma as coisa”.
— No documento é meu!
— Na consciência, é meu. O dinheiro foi meu. O trabalho é meu. — Lúcia sentiu que a voz não tremia, pela primeira vez em semanas. — O processo vai andar, Renata. O advogado disse que a gente vai pedir prova pericial, ouvir testemunha. Os vizinhos vão atestar que eu estou aqui há anos, que eu pago luz e IPTU. E ainda tem a ação de cobrança do valor corrigido. Cento e oitenta mil mais juros. Você tem esse dinheiro pra me devolver?
O silêncio que se seguiu foi ocupado pelo zumbido da abelha na flor de abóbora. Renata respirava pesado. A velha equação — a mãe que sempre sacrifica tudo — finalmente dera erro.
— O que a senhora quer? — a voz da filha saiu pequena, derrotada.
— Quero que você vá no cartório e assine uma escritura de doação dessa chácara pra mim. Me devolver o que é meu. Assim que a matrícula passar pro meu nome, eu peço pro Dr. Marcelo desistir da ação. — Lúcia limpou as mãos na saia. — Só isso.
— E a gente? O que eu faço com o Fábio?
— Vocês que se virem. São jovens. Trabalhem, juntem dinheiro. Como todo mundo faz.
Renata ficou uns segundos parada, o maxilar trincado. Pegou a bolsa e se levantou.
— A senhora nunca mais vai ter notícia minha.
— Isso eu aguento. — Lúcia falou para as costas da filha, que já caminhava para o portão.
Duas semanas depois, um motoboy deixou um envelope pardo na porteira. Dentro, a certidão de escritura de doação, lavrada no cartório de notas, e uma carta com duas linhas: “Tá aí. Assina e registra.” Sem saudação, sem assinatura.
Lúcia levou ao registro de imóveis, pagou a taxa e voltou para casa com o protocolo no bolso da bermuda.
Dezembro chegou com chuva e sol forte. A horta explodiu. Os tomateiros se curvavam de tanto fruto, e Lúcia passou três dias fechando vidros de conserva. Numa tarde, depois de tirar do fogo a última panela de pimenta biquinho em calda, ela saiu para a varandinha com um vidro ainda morno entre as mãos.
Do outro lado, Seu Antônio estava no seu quintal, remendando uma tela de galinheiro. O cachorro Bolinha, um viralata preto de orelha em pé, latiu para Lúcia como se ela fosse uma forasteira, mas logo abanou o rabo.
— Ô, Antônio!
O velho se aproximou da cerca, sem largar o alicate.
— O que foi agora, Dona Lúcia? A goiabeira já tá pingando fruta no meu telhado de novo?
— Vem cá, pega isso aqui.
Ela estendeu o vidro de pimenta sobre o mourão. Antônio olhou desconfiado, mas pegou. A calda brilhava contra a luz do entardecer.
— Isso é por causa do seu sobrinho. — Lúcia hesitou um segundo. — E pela demarcação da cerca também.
Antônio virou o vidro nas mãos grossas, fungou de leve e soltou um riso curto e áspero.
— A demarcação ainda vou cobrar. Dessa vez a senhora não escapa.
— Quero só ver. — Lúcia deixou um canto da boca se erguer, e voltou para a cozinha, onde as panelas ainda fumegavam no fogão. Tinha mais vidros para esterilizar, e o cheiro de vinagre e alho invadia a casa toda. Amanhã, o pé de acerola ainda ia gotejar no telhado do vizinho, e ela já sabia que ele viria bater na porta, bufando. Mas isso era assunto para o dia seguinte. Agora, só a terra molhada, o coaxar dos sapos no brejo e o trabalho que esperava.
