Ela me chamava de mãe e discutia minha morte no chat

Meus chinelos não estavam ao lado da porta, onde eu os deixava há quinze anos. Estavam enfiados atrás do aparador, como se tivessem vergonha de aparecer. Meu casaco de lã, aquele que o Renato me deu no último inverno antes de partir, pendurado dentro do armário, num cabide, igual visita que a gente esconde. Na maçaneta do quarto grande, uma chave com um pingente de coração. Da Patrícia.

Tentei girar a maçaneta. Fechada.

— Patrícia?

— Mãe, tô na cozinha!

Mãe. Três anos e eu ainda sentia um arranhão toda vez que ela usava essa palavra com aquele tom adocicado de propaganda de margarina.

Na cozinha, Patrícia estava sentada, fone de ouvido, mexendo no celular. Quando me viu, abriu um daqueles risos coreografados, coisa de story do Instagram.

— Mãe! Chegou do trabalho? Aí, a gente fez uma surpresa pra você.

— Surpresa?

— O Rafael já tá vindo, foi comprar um vinho. Vem ver!

Me puxou pelo cotovelo com a firmeza falsa de quem te conduz a uma cadeira de dentista. O quarto pequeno — antigo escritório onde eu corrigia provas e tomava chá ouvindo chuva — estava de porta aberta.

Lá dentro, minha cama. Minha cômoda de jacarandá que minha avó me dera quando casei, com aquele puxador lascado. Meu criado-mudo, minha escrivaninha. As roupas de frio em duas malas embaixo da cama. O retrato do meu casamento, eu e Renato com os cílios grudados de chuva, encostado no canto, sem prego na parede.

— Viu que aconchegante? Mãe, a senhora acorda cedo, fica mais perto da cozinha, do banheiro. Não precisa atravessar o apartamento inteiro de pantufa. E é mais silencioso, a janela dá pro fundo.

Fiquei parada, olhando a gaveta entreaberta da cômoda onde eu guardava as cartas do Renato.

— E o quarto grande?

— Aí, o quarto grande… eu e o Rafael. A gente tá planejando o bebê, mãe. Precisa de mais espaço, botar o berço. Eu até montei um projetinho no aplicativo, quer ver?

A fechadura da porta de entrada estalou. Rafael entrou com uma sacola da Adega Via Veneto, um vinho chileno de trinta reais e uma expressão de quem ensaiou a fala no carro.

— E aí, mãe, viu? A gente caprichou. A senhora vai ficar bem mais confortável. A dona Selma, mãe da amiga da Pati, fez a mesma coisa e tá super feliz. Não é difícil, né?

Olhei pro rosto do meu filho. A covinha no queixo, os olhos cinza-azulados — a cara do pai. Só que o Renato jamais teria dito uma frase assim.

— Não, Rafael. Não é difícil.

E entrei no quarto pequeno. Fechei a porta.

Dois dias depois, colocaram uma fechadura nova na porta do quarto grande. “Mãe, cê entende, né, a gente precisa de espaço íntimo, somos uma família constituída. Depois te dou uma chave, se precisar de alguma coisa.” Nunca me deram chave nenhuma.

E eu fui ficando miúda. Cozinhava pra três. Lavava a roupa deles — a Patrícia uma vez deixou uma carga na máquina e esqueceu por dois dias, e dali em diante eu só assumi tudo. Pagava o condomínio, o IPTU, a luz, a internet — quase mil e duzentos reais por mês. Fazia a feira no Assaí, mais uns dois mil só de mercado. Meu salário líquido: cinco mil e duzentos. Os remédios da tireoide: quatrocentos. O plano de saúde: setecentos. Eu não comprava uma blusa havia oito meses. Rafael ganhava, segundo ele, “oito mil limpos” como analista de sistemas. Patrícia não trabalhava. “Tô me encontrando, mãe.” Três anos se encontrando. Gravava stories fazendo yoga no chão da minha cozinha com a hashtag #nossocantinho.

Rafael vivia dizendo que juntava pra dar entrada num financiamento. Um ano depois, chegou com um Fiat Fastback zero, parcelado em sessenta vezes. “Mãe, precisava de carro, a Pati merece conforto.” Um ano e meio depois, Patrícia viajou sozinha pra Bali, “retiro de autoconhecimento com as meninas”. Eu, de curiosidade, pesquisei: doze mil reais. Dois anos depois, Rafael comprou um computador gamer de sete mil e quinhentos. E o financiamento nunca saía.

Renato morreu em março de 2020. Infarto fulminante no escritório, quarenta e oito anos. Rafael estava no mestrado, veio ao enterro e voltou no mesmo dia. Patrícia nem apareceu — “não conseguiu liberação da loja”. Eu fiquei sozinha no apartamento do Água Verde. Dois anos. Não era bom, não era ruim. Era vazio. Rafael ligava uma vez por mês: “Mãe, como cê tá?” “Tô bem.” “Que bom.” E desligava.

Em abril do ano passado, Rafael apareceu com Patrícia. “Mãe, a gente quer te apresentar de verdade. Vamos casar em junho.” Sentaram na minha mesa, Patrícia com uma torta de limão da confeitaria, Rafael com um buquê de gérberas. Depois do chá, Rafael falou, sem me encarar:

— Mãe, ó. A gente pensou. O casamento vai ser simples, grana curta. A gente paga aluguel de um cubículo no Portão, mil e oitocentos, mais comida, mais guardar pro financiamento. Será que a gente não podia voltar pra cá? Só uns seis meses, até eu ser efetivado no projeto novo, aumentar a renda. A gente ajuda, e a senhora sozinha há dois anos, eu sei que é pesado.

Eu só ouvi “ajuda” e “sei que é pesado”.

— Venham. Fiquem no quarto grande.

— Valeu, mãe. A gente vai ser eternamente grato.

Patrícia estendeu a mão por cima da mesa:

— Mãe, posso te chamar de mãe desde já? A minha mora longe, em Foz, quase não falo. Você vai ser tipo uma mãe de verdade pra mim.

Deixei.

Dois meses depois, Patrícia começou a trocar os porta-retratos do corredor. “Mãe, vou pendurar um espelho aqui, e essa foto da senhora com o seu Renato fica melhor no quarto pequeno, lá você vê todo dia.” Deixei. Um ano depois, Rafael me pediu pra assinar uma procuração. “Mãe, é uma treta de trabalho, precisa de uma assinatura rápida, a senhora assina aqui?” Assinei sem ler.

O retrato do casamento, Renato de terno claro, eu com um buquê de margaridas, foi parar no corredor. Depois sumiu “durante uma limpeza”. Encontrei ele no armário da área de serviço, atrás do aspirador, virado pra parede.

O tablet da Patrícia eu encontrei numa terça-feira. Ela deixou na mesa da cozinha, tela acesa, e correu pro quarto pegar um casaco. Rafael estava em viagem a trabalho. Eu enxaguava a louça quando a palavra “sogra” saltou na notificação de um chat com uma tal “Lari”.

Seguei as mãos no pano de prato e sentei. Li a conversa inteira.

“Lari, cê não acredita, a véia trouxe sacolinha de verdura de novo.”

“Amiga, a minha sogra é um capeta, briga por tudo. A sua é um sonho.”

“Ô, amiga… a minha é uma ovelha mansa. Já dominei ela todinha. Três anos e nunca deu um pio.”

Deslizei a tela pra cima.

“O Rafael fala que daqui a pouco ela aposenta, aposentadoria de professora deve dar uns dois mil. Vai sobrar pra gente sustentar.”

“Amiga, calma. Cê já garantiu o apartamento?”

“Tô levando. Ela assinou a procuração sem ler. O testamento é pro Rafael, eu conferi.”

“E se ela adoecer?”

“A gente paga uma cuidadora. O importante é o imóvel não sair da família, né?”

E um emoji de carinha rindo com lágrima.

Fechei a tampa do tablet e recoloquei do mesmo jeito que estava. Não tremi. Não chorei. Só me deu uma certeza gelada, daquelas que não ardem, só pesam: eu não era mãe, não era sogra. Eu era um plano de saúde. Um apartamento de três quartos com IPTU em dia. Uma máquina de lavar que nunca reclamava.

Na sexta-feira seguinte, saí mais cedo do colégio e fui até o escritório da doutora Sofia, advogada que já resolvia as coisas da família desde o inventário do Renato. Contei tudo. Ela me escutou coçando a caneta na orelha.

— Helena, vamos revogar a procuração. Testamento: você quer mudar?

— Quero. Tenho uma sobrinha em Maringá, a Talita. Do mesmo sangue, mas nunca me pediu nada.

— Pronto. Sai em seu nome. E a desocupação?

— Eles estão registrados aqui?

— Estão.

— Então quero tirar. Por via judicial, se precisar. Mas antes…

— Antes, você troca as fechaduras. A lei te respalda. Você é a única proprietária. Eles que procurem a Justiça.

Paguei mil e quinhentos reais pela consulta e pelos papéis. Saí de lá com uma pasta e uma sensação de coluna ereta que eu não experimentava desde os quarenta anos.

O plano era simples. Rafael e Patrícia viajariam no feriado de Tiradentes pra uma chácara em São José dos Pinhais, aniversário da tal Lari. Dois dias fora. Perfeito.

Às oito da manhã da sexta, Rafael enfiou as malas no porta-malas do Fastback. Patrícia me deu um beijo no rosto. “Mãe, tem comida pronta na geladeira.” Na geladeira tinha uma travessa de macarrão que eu mesma cozinhei na véspera.

Às nove, comecei a juntar as coisas deles. As roupas do Rafael em duas malas grandes e uma mochila de ginástica. As da Patrícia em três malas e duas sacolas de grife falsificada da 25 de Março. Perfumes, maquiagens, o tablet, o notebook, o computador gamer desmontado em caixas. A cadeira ergonômica arrastei pro hall.

Trabalhei quatro horas sem parar. Ao meio-dia, tudo estava empilhado no corredor do prédio, do lado de fora do apartamento. Nada quebrado, nada sujo — cuidei de cada peça com o mesmo zelo que tive a vida inteira.

O chaveiro chegou à uma. Trocou o segredo da porta de entrada em quarenta minutos. A esta altura, a dona Zilda do 502 apareceu pra ver a movimentação, assustada com as pilhas de bagagem e o Caramelo, o vira-lata dela, latindo no elevador.

— Dona Helena, o que houve?

— Faxina, dona Zilda. Faxina de primavera.

Peguei o bilhete que eu havia impresso na biblioteca do colégio e colei na porta com fita crepe:

“Rafael e Patrícia. Vocês planejaram uma vida sem mim. Comecem agora. O apartamento é meu. Os documentos estão com a advogada. Testamento alterado. Procuração revogada. Não deixei chave na portaria. Dentro do quarto pequeno, em cima da cômoda, tem uma foto sua aos três anos com o seu pai no colo. Pode levar. O resto vocês já tiraram sozinhos. Helena Soares.”

Helena Soares. Assinei com nome completo. Há anos ninguém me chamava assim — só “mãe”, “dona Helena”, “a sogra”. Gostei.

Tranquei a porta. Desliguei o interfone. Coloquei o celular no modo “não perturbe”.

Voltaram às duas da manhã de sábado. O Rafael esmurrava a porta. A Patrícia berrava no corredor, subiu no capô do carro pra tentar olhar pela janela da sala. “Mãe, abre essa porta! Nossas coisas tão na rua!” Os vizinhos chamaram a polícia. Dois PMs chegaram às três. Eu abri, mostrei a escritura, o RG, a certidão de óbito do Renato. O sargento leu os documentos, coçou o bigode e virou pro Rafael:

— Senhor, afaste-se da porta. A cidadã é a proprietária legal. O senhor possui registro, mas não direito de moradia. Divergências são resolvidas no Fórum.

E foram embora. Rafael e Patrícia empilharam o que coube no carro e voltaram pra buscar o resto às cinco da manhã. Eu, deitada no quarto pequeno, escutava o barulho do elevador subindo e descendo, as rodinhas das malas no piso frio. Pela primeira vez em anos, não chorei.

Na manhã seguinte, abri a porta do quarto grande. Vazio. Só a cama box deles, o guarda-roupa de MDF e um tapete de crochê que a Patrícia comprou e largou. Arrastei minha cômoda de volta. Pendurei o retrato do casamento na parede principal. Abri a janela e deixei o cheiro de mofo sair.

Um ano se passou. A sobrinha Talita veio de Maringá passar um fim de semana. Sentou na cozinha, tomando chá de camomila, enquanto eu descrevia a pintura que eu mesma fiz no teto do quarto grande, em cima de uma escada. Foi quando a Dalva do 601, minha amiga de tricô, apareceu no apartamento.

— Helena, coisa que eu ouvi ontem no salão. Não sei se te conto.

— Fala.

— A Patrícia teve uma menina. Chamaram de Alícia. E sabe quem tá morando com eles? A mãe dela. Veio de Foz. A mulher dorme num colchão na cozinha do apartamento alugado no Hauer, porque no quarto fica o casal e o berço. A coitada faz tudo: lava, cozinha, leva a bebê pra passear de manhã. O Rafael chama ela de ‘dona Cida, dá um gás aí’. E a Patrícia… bom, a Patrícia continua postando story de ‘vida de mãe real’.

Talita parou de mexer o chá. Eu continuei quieta, sentindo a alça da xícara morna contra os dedos.

— Helena, você não diz nada?

— Digo. Que a cama deles mudou de endereço, mas o colchão na cozinha continua o mesmo.

Dalva não entendeu. Mas a Talita, sim. Ela se levantou, me abraçou pelas costas e ficou ali, o queixo apoiado na minha cabeça.

Lá fora, a chuva de Curitiba começou a cair, fina e constante, lavando a calçada da rua. Dentro, o retrato de casamento estava no lugar certo. Eu não tinha raiva. Não tinha alegria. Só uma canseira limpa, daquelas que a gente sente depois de um dia inteiro arrumando a casa. Peguei a xícara e dei um gole. A camomila já estava fria.

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