— Deixa os morangos e põe o balde vazio junto à entrada, — disse Madalena.
Vasco ficou imóvel.
— Estás a expulsar o teu irmão por causa de fruta?
— Estou a mandar embora alguém que só aparece para comer e levar.
Rui parou de trabalhar no telhado.
Vasco chegara horas antes. Tinha almoçado, bebido sumo e dormido à sombra, enquanto o casal trabalhava.
— Sou convidado!
— Os convidados trazem alguma coisa. Não chegam com recipientes vazios.
Vasco atirou o balde ao chão e foi-se embora.
A casa pertencera à avó. Quando Madalena a herdou, o terreno estava abandonado. Ela e Rui gastaram dinheiro e meses de trabalho a recuperá-lo.
Quando o jardim começou a produzir, os familiares voltaram.
A prima Beatriz apareceu com os filhos.
— Queríamos colher framboesas.
— Podem comer. Para levar, têm de tirar as ervas das cenouras.
— Viemos descansar.
— Vocês descansam. Eu trabalho.
Beatriz saiu ofendida.
Mais tarde chegou o tio António.
— Preciso de três sacos de maçãs.
— A escada está no armazém. E o Rui precisa de ajuda com a vedação.
— Estás a impor-me condições?
— Estou a pedir uma troca justa.
António acabou por trabalhar. Ao jantar, admitiu:
— Depois do esforço, tudo sabe melhor.
— Porque não foi retirado do trabalho dos outros.
Uma placa surgiu no portão:
Ajudou — prove. Não ajudou — admire.
No fim da estação, Beatriz regressou com plantas de frutos silvestres.
— Quero plantá-las. Eu faço os buracos.
Madalena abriu o portão.
Depois ofereceu-lhe dois frascos de doce.
— Ganhaste-os.
Beatriz emocionou-se.
— Antes eu achava que, por sermos família, tudo estava disponível.
— Família não significa que uns trabalham e outros levam.
À noite, Rui perguntou:
— Valeu a pena enfrentar todos?
Madalena sorriu.
— Valeu. Agora quem entra sabe que está a entrar numa casa, não num armazém gratuito.
