Quando comprei uma bicicleta usada depois dos sessenta, a minha filha levou um dedo à testa

Quando comprei uma bicicleta usada depois dos sessenta, a minha filha levou um dedo à testa. No sábado passado percorri quarenta quilómetros até uma lagoa com um grupo de mulheres tão «velhas e malucas» como eu. Ontem, a minha filha telefonou para perguntar se podia vir connosco no domingo.

Um ano antes eu teria rido. Nessa altura, os meus dias seguiam sempre o mesmo caminho: casa, supermercado, cemitério, casa.

O meu marido, Manuel, morrera três anos antes de cancro do pâncreas. Quatro meses separaram o diagnóstico do fim. Tínhamos vivido juntos durante trinta e oito anos.

No primeiro ano, a nossa filha Helena vinha quase dia sim, dia não. Cozinhava, trazia compras e levava o lixo. No segundo ano passou a vir uma vez por semana. No terceiro, telefonava.

Eu não a culpava. Tinha dois filhos, um emprego na câmara e um marido que chegava tarde. Mas compreender a vida dos outros não torna a solidão menor.

Durante quarenta anos trabalhei como costureira. Manuel chamava ao meu quarto «o ministério das agulhas». Depois da morte dele cobri a máquina de costura e deixei de aceitar trabalhos.

Vi o anúncio da bicicleta num pequeno supermercado:

«Bicicleta de senhora, pouco usada, 100 euros.»

Durante três dias, o número ficou junto ao telefone.

Por fim liguei.

A bicicleta era verde, com cesto e selim largo. O dono explicou que a mulher a usara uma vez no parque e decidira que preferia caminhar.

Quando Helena a viu no corredor, ficou espantada.

— Mãe, tens sessenta e dois anos.

— Eu sei. Estive em todos os aniversários.

— Vais cair e partir a anca.

— Nesse caso, telefono para uma ambulância.

Nas primeiras semanas pedalei apenas pelas ruas do bairro. Tinha medo dos carros, das curvas e dos passeios. À noite doíam-me as pernas.

Mesmo assim, na manhã seguinte voltava a sair.

Primeiro fui até ao jardim. Depois até ao rio. Mais tarde comecei a sair da cidade.

Numa zona de descanso conheci a Emília. Tinha sessenta e oito anos, um capacete vermelho e uma bicicleta com sacos dos dois lados.

— Anda sempre sozinha?

— Por enquanto.

— Aos domingos somos seis. Vamos devagar, paramos muito e ninguém compete.

A primeira viagem teve quinze quilómetros. A meio pensei que não conseguiria regressar.

Emília, Rosa, Luísa, Teresa e Conceição esperavam por mim.

Quando subi uma pequena colina sem descer da bicicleta, bateram palmas.

Chamávamos ao grupo As Rodas Prateadas.

Todos os domingos íamos mais longe. Falávamos de viuvez, divórcio, filhos protetores, joelhos doridos e médicos que recomendavam exercício como se a coragem viesse numa receita.

Helena fazia piadas.

— Outra aventura com as velhas malucas?

— Trinta quilómetros na semana passada.

— Mãe, tem cuidado. Se acontecer alguma coisa, sou eu que tenho de organizar tudo.

A frase ficou comigo.

— Não pedalo para te criar problemas.

— Só estou preocupada.

Eu sabia. Mas a preocupação também pode prender alguém dentro de casa.

No sábado passado planeámos quarenta quilómetros até uma lagoa. Na noite anterior preparei água, sandes, impermeável e uma bomba pequena.

Partimos às sete.

A estrada atravessava pinhais, campos e pequenas aldeias. Junto à água bebemos café. Rosa levou bolo de maçã.

— Há um ano estaria agora no sofá, disse eu.

— Agora é o sofá que sente a tua falta, respondeu Emília.

Os últimos quilómetros foram difíceis. As pernas ardiam e as costas doíam.

O contador marcou 40,7 quilómetros.

Enviei uma fotografia a Helena.

Ela telefonou imediatamente.

— Fizeste mesmo quarenta quilómetros?

— Fiz.

— E estás bem?

— Estou cansada. Não estou incapaz.

Depois de um silêncio, perguntou:

— Posso ir convosco no domingo?

Lembrei-me do dedo junto à testa.

— Podes. Mas não esperamos muito pelas jovens.

Helena apareceu num bicicleta emprestada, com capacete novo e roupa de desporto.

Ao fim de dez quilómetros perguntou quando seria a pausa. Na primeira subida teve de caminhar.

Não me ri.

Fui ao lado dela.

Junto à lagoa sentou-se entre as outras. Ouviu histórias de mulheres que tinham começado a pedalar depois de divórcios, doenças ou anos de solidão.

Mais tarde disse:

— Mãe, aqui pareces diferente.

— Diferente como?

— Mais viva. Como se não fosses apenas minha mãe ou viúva do pai.

— Porque não sou apenas isso.

No regresso, pedalou junto de mim.

— Quero voltar na próxima semana.

— Compra primeiro uma bicicleta tua.

— Já procurei anúncios.

Em casa retirei o pano da máquina de costura. Fiz sete pequenas bolsas refletoras para o guiador.

Numa delas bordei o nome de Helena.

A bicicleta não trouxe Manuel de volta. Continuo a visitar o cemitério e ainda existem noites silenciosas.

Mas agora há também caminhos, árvores, água, risos e pessoas que dão pela minha falta quando não apareço.

Durante muito tempo pensei que envelhecer significava apenas não perder o pouco que ainda restava.

Agora sei que também se pode conquistar.

Não a juventude.

Mas espaço, coragem e uma estrada onde a própria filha tenta acompanhar-nos numa subida.

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