Teresa estava na cozinha quando ouviu as portas do roupeiro a bater no quarto.

Teresa estava na cozinha quando ouviu as portas do roupeiro a bater no quarto.

— Já acordaste? Vem tomar o pequeno-almoço, estou à tua espera!

Joaquim não respondeu. Quando ela entrou, encontrou-o diante do espelho com um fato escuro comprado vinte anos antes, quando ele completara quarenta.

— Porque te vestiste assim? Esse modelo já não se usa.

— Ainda serve, — respondeu ele, observando-se.

— Há alguma cerimónia no trabalho? Lembra-te de que o médico proibiu o álcool.

— Nesta cerimónia não vou precisar de beber.

— Que cerimónia é essa?

— Uma espécie de reunião. Alguns talvez bebam, mas eu só vou olhar.

Teresa riu com ironia.

— Tu só vais olhar? Conheço-te bem.

Joaquim passou as mãos pelas lapelas.

— Passa-o bem a ferro. Vou precisar dele em breve.

Durante o pequeno-almoço parecia pálido e preocupado.

— É o coração? Vou buscar o aparelho da tensão.

Ele segurou-lhe a mão.

— Não tenho nada. Apenas tive um sonho mau.

— Que sonho?

— Sonhei que tinha morrido. Estava deitado com este fato e todos os que vinham despedir-se diziam que eu estava elegante.

Teresa ficou séria.

— Guardaste o fato para o teu próprio funeral?

— Às vezes pensei nisso. Se acontecer alguma coisa, quero ser vestido com ele.

— Sabes mesmo como alegrar uma manhã.

A tensão estava normal.

Pouco depois, Joaquim sentiu um cheiro.

— Não sentes algo queimado?

Teresa sorriu.

— Sinto.

— Há alguma coisa no forno?

— Não.

— Então o que está a arder?

— Talvez o teu querido fato.

Joaquim correu para o quarto.

— Teresa! Deixaste o ferro em cima do casaco! Fizeste um buraco!

— Ótimo! Agora não tenho roupa para te enterrar. Vais ter de viver mais quarenta anos!

Joaquim resmungou, mas não conseguiu ficar verdadeiramente zangado.

As semanas passaram. Voltaram às pequenas discussões, ao chá na cozinha e às noites diante da televisão.

Teresa, porém, começou a reparar em gestos que antes lhe pareciam normais. Joaquim preparava-lhe a chávena todas as manhãs. Ajustava-lhe a gola do casaco. Guardava-lhe sempre a melhor fatia do bolo.

Uma noite, aproximou-se dele, abraçou-o pelos ombros e encostou o rosto aos cabelos grisalhos.

— O que foi? — perguntou Joaquim.

— Nada. Só me apeteceu.

Depois acrescentou:

— Quando esse dia chegar de verdade, compro-te outro fato. Mas não tenhas pressa. Ainda preciso muito de ti.

Joaquim apertou-lhe a mão.

— Então ainda fico por cá.

O mais assustador não é saber que um dia alguém partirá.

É esquecer de dizer à pessoa ao nosso lado quanto a amamos, enquanto ainda existe tempo.

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