Ricardo viu-as da estrada. A filha, Matilde, estava agachada junto à vedação e, ao seu lado, havia uma grande forma castanha-avermelhada.
Atirou as chaves para o banco e saiu do carro sem fechar a porta. A gravilha estalava debaixo dos sapatos.
«Matilde!»
A menina levantou a cabeça.
«Pai, fala baixo. Vais assustá-la.»
Junto à sua perna estava deitada uma cadela grande, de pelo ruivo, com uma cicatriz antiga numa orelha.
«Levanta-te e vem para junto de mim.»
«Ela é boa.»
Ricardo agachou-se. Queria pegar na filha, mas temia provocar o animal.
Quando avançou, reparou num fio metálico escondido entre as plantas.
A pata traseira da cadela estava presa num laço enferrujado. Estava inchada.
Matilde segurava uma garrafa de água.
«Dei-lhe de beber. Ela não consegue sair.»
«Por que saíste sozinha do portão?»
«Ouvi-a choramingar.»
Ricardo sentiu a raiva crescer. A mãe dele devia ter adormecido dentro de casa. Ele próprio voltara a chegar tarde.
Foi buscar um alicate.
«Matilde, recua.»
«Não a deixo sozinha.»
«Eu fico.»
Cobriu a cadela com o casaco e cortou cuidadosamente o fio. O animal tremia, mas não rosnou.
«Calma, Canela», disse Matilde.
«Por que Canela?»
«Porque é da cor da canela.»
Quando o laço se soltou, a cadela tentou levantar-se e caiu novamente.
Ricardo ligou para o veterinário.
Nesse momento, a avó saiu de casa, assustada.
«Adormeci apenas por alguns minutos.»
Ricardo ia repreendê-la quando Matilde disse:
«A Canela não me deixou ir para a estrada.»
«Como assim?»
«Quando tentei correr para chamar a avó, ela pôs-se à minha frente e empurrou-me para a vedação.»
Um carro surgiu na curva e passou a grande velocidade.
Ricardo percebeu que a cadela, mesmo ferida e presa, impedira a filha de atravessar a estrada.
Na clínica descobriram que a pata não estava partida. A veterinária viu ainda antigas marcas de corrente no pescoço.
«Teve crias há pouco tempo.»
«Onde estão?» perguntou Matilde.
Ninguém sabia.
No dia seguinte, Ricardo procurou nas redondezas. Junto a um barracão abandonado encontrou uma corrente, uma tigela partida e vários laços de arame.
Um vizinho contou que um homem criava cães naquele local e partira de repente.
O caso foi comunicado às autoridades.
Canela permaneceu internada alguns dias. Matilde levava-lhe desenhos. Num deles, escreveu CASA por cima de uma menina e de uma grande cadela ruiva.
Quando um funcionário do abrigo foi buscá-la, Canela deitou-se junto aos pés da criança.
«Pai, já a abandonaram uma vez.»
Ricardo pensou nos custos e nas responsabilidades.
Depois lembrou-se de que Canela tinha protegido a filha.
«Fica connosco por enquanto.»
O “por enquanto” tornou-se definitivo.
Canela dormia diante do quarto de Matilde e esperava todas as noites o carro de Ricardo. Ele reparou a vedação, substituiu as tábuas e retirou todos os arames perigosos.
Semanas depois, a polícia localizou o antigo proprietário. Vários cães foram retirados de outra propriedade. Dois animais jovens podiam ser crias de Canela.
No reencontro, ela cheirou-os demoradamente e deitou-se entre eles.
Ricardo virou o rosto.
«Pai, estás a chorar?»
«Entrou-me pó no olho.»
Matilde olhou para o pátio limpo, mas não respondeu.
Ricardo sempre pensara que proteger significava chegar primeiro e controlar tudo. Naquele dia compreendeu que a coragem também pode ter uma pata ferida, o pelo sujo e nenhum lugar para onde voltar, mas ainda assim escolher ficar entre uma criança e o perigo.
😲 A continuação já está nos comentários! Escrevam sem falta se o final foi inesperado para vocês.
