— Queres que o teu irmão tenha uma vida confortável? Então ajuda-o tu. Foste tu que lhe arranjaste aquela viagem, — respondeu Antonieta à antiga cunhada.
Tudo começara no quinquagésimo aniversário de Alexandre.
Quase vinte e cinco convidados encheram a varanda. Antonieta preparou toda a comida com a irmã e a mãe idosa.
Alexandre recebeu dinheiro e planeava comprar um barco novo para pescar. Antonieta também adorava pesca e imaginava que o usariam juntos.
A mãe dele ofereceu-lhe uma estadia num centro termal.
Para uma pessoa.
— Porque não compraste também para a Antonieta?
— O aniversário é teu. Ela tem de cuidar da casa, das galinhas e dos patos. Assim descansas um pouco da mulher.
Antonieta ouviu.
Esperava que o marido trocasse a reserva, mas ele fez a mala.
— Não posso desperdiçar o presente.
Levou também o dinheiro das prendas.
Depois do regresso, Alexandre estava diferente. Passava o tempo ao telemóvel e recusava ir pescar.
Um mês depois confessou:
— Conheci uma enfermeira. Está grávida. Vou viver com ela.
— Tens cinquenta anos. Quando o bebé crescer, terás quase setenta.
— Ela tem trinta e três. Vai correr bem.
Antonieta pediu-lhe uma vez que ficasse. Ele recusou.
Então ela limpou as lágrimas.
— Leva tudo. Não haverá segunda oportunidade.
Alexandre quis dinheiro pelas obras e metade do carro.
— Fica com o carro. É a tua compensação.
Depois da mudança, Antonieta levou as roupas esquecidas para casa da sogra.
A mulher apareceu à noite para buscar ovos.
— Ele ainda pode voltar.
— Escolheu outra mulher.
— É apenas uma aventura.
— Uma aventura que a senhora incentivou ao mandá-lo descansar da esposa.
Antonieta entregou-lhe os ovos.
— Estes são os últimos gratuitos. Da próxima vez paga.
Passaram os anos.
A nova mulher de Alexandre cansou-se dele quando envelheceu e adoeceu. O filho mais novo não o respeitava.
Perto dos setenta anos, Alexandre foi expulso de casa.
Voltou para a casa vazia da mãe. Os filhos mais velhos visitavam-no pouco. O mais novo quase o esqueceu.
Um dia, a irmã dele procurou Antonieta.
— O Alexandre precisa de apoio. Vocês viveram juntos trinta anos.
— Ele decidiu trocar esses trinta anos por outra vida.
— Podes dar-lhe ovos, legumes e peixe.
— Posso vender. Comprem ao preço normal.
— Ele é o pai dos teus filhos.
— E é um homem adulto responsável pelas próprias decisões.
A cunhada saiu indignada.
Antonieta voltou ao quintal. Os filhos e netos viriam jantar.
Ela percebeu que ter compaixão não significava permitir que alguém voltasse apenas porque já não tinha mais ninguém para o servir.
