O portão da casa do senhor Joaquim não fechava desde o verão anterior. O ferrolho partira-se quando ele o empurrou com o ombro, porque levava dois baldes nas mãos. Desde então, a madeira ficara inclinada e o vento fazia-a bater contra o muro durante a noite.
Parecia que alguém entrava no quintal, hesitava por alguns segundos e ia embora sem bater à porta.
Joaquim habituara-se ao barulho.
Também se habituara à cadeira vazia da esposa, falecida três anos antes. Às chamadas rápidas do filho uma vez por mês. À horta cheia de ervas, porque as costas já não lhe permitiam trabalhar curvado.
Não queria contratar ajuda. Para ele, seria o mesmo que admitir que já não conseguia governar a própria vida.
A gata apareceu em setembro. Era cinzenta, tinha uma mancha branca no peito e uma orelha rasgada.
Sentou-se junto aos degraus e olhou para a porta.
«Escolheste mal», disse Joaquim. «Aqui mal chega para mim.»
A gata não saiu.
Ele trouxe-lhe um pedaço de peixe cozido. Ela comeu, limpou a pata e voltou a sentar-se.
«Então fica.»
Em outubro, já dormia no corredor. Joaquim dizia que nunca a deixara entrar. A pequena janela da cozinha não fechava bem, e ela passava por ali.
Ele não a arranjou.
O pequeno Miguel, de nove anos, passava diante daquela casa todos os dias depois da escola. No outono, apanhava maçãs pequenas debaixo da velha árvore atrás do barracão. Quando deixaram de existir, continuou a espreitar pelo portão aberto.
Gostava de ver a gata à janela.
Numa quinta-feira, viu Joaquim no alpendre com um grande saco de pano.
O saco mexia-se.
Algo arranhava lá dentro.
Miguel ficou imóvel. Joaquim levou o saco até ao carro antigo e colocou-o no banco traseiro. Depois voltou a casa e trouxe uma caixa de cartão. Da caixa vinham pequenos miados.
Miguel lembrou-se de uma história da avó. Antigamente, algumas pessoas levavam gatinhos indesejados num saco até ao rio.
Quando o carro partiu, correu para casa.
A mãe, Helena, preparava o jantar.
«Mãe, o senhor Joaquim meteu a gata num saco!»
«Talvez vá ao veterinário.»
«Não se leva um animal num saco!»
Helena viu o medo no rosto do filho.
Disse que falaria com o vizinho quando ele regressasse.
«E se nessa altura já for tarde?»
Saíram de carro.
Miguel apontou a estrada do rio. Helena não acreditava verdadeiramente que Joaquim pudesse fazer algo cruel. Era um homem calado e distante, mas sempre reparara bicicletas e fechaduras para os vizinhos.
Junto à velha ponte não encontraram o carro.
«Ele não veio para aqui.»
Miguel olhou para a água.
Helena viu então marcas recentes de pneus numa estrada lateral. O caminho levava à pequena clínica veterinária da vila.
O carro de Joaquim estava estacionado à porta.
Na sala de tratamentos, a gata cinzenta encontrava-se deitada sobre uma manta. Respirava depressa. Na caixa estavam três gatinhos recém-nascidos.
Joaquim virou-se.
«Porque vieram atrás de mim?»
Miguel apontou para o saco.
«Pensei que a ia levar ao rio.»
O rosto do homem endureceu.
«Achas que eu seria capaz disso?»
Helena explicou o que o filho tinha visto.
Joaquim respirou fundo.
«Ela começou a ter as crias esta noite. Nasceram três, mas ficou outra presa. De manhã já não conseguia andar. Não tenho transportadora. Na caixa ficou desesperada. Forrei o saco com uma manta para não se magoar.»
A veterinária disse que precisava de operar imediatamente.
Joaquim tirou um envelope do bolso.
«Use este dinheiro.»
Helena reconheceu as poupanças.
«Era para reparar o telhado.»
«O telhado aguenta mais algum tempo.»
«Podemos pedir ajuda aos vizinhos.»
«Depois. Agora salvem-na.»
Durante a operação, Miguel sentou-se ao lado dele.
«Desculpe.»
«Devias ter vindo perguntar.»
«Tive medo.»
«De mim?»
«O senhor parece sempre querer que toda a gente vá embora.»
Joaquim ficou em silêncio.
«Quando a minha mulher morreu, as pessoas vinham muito. Depois começaram a vir menos. Cada despedida deixava a casa ainda mais vazia. Então deixei de convidar.»
«E deixou de sentir falta delas?»
«Não.»
A veterinária regressou depois de quase duas horas.
«A gata está salva. A quarta cria também.»
Joaquim apertou o boné entre as mãos e baixou a cabeça.
Chamou Rosa à gata, como a esposa. A cria mais pequena recebeu o nome Esperança.
Nas semanas seguintes, Miguel visitou-o diariamente. Pesava os gatinhos, mudava as mantas e verificava se estavam a crescer. Helena levava sopa e toalhas limpas.
Joaquim protestava sempre.
«Não era preciso.»
Mas todas as tardes esperava Miguel junto à janela.
Três gatinhos foram adotados. Esperança ficou com ele.
Na primavera, Miguel apareceu com um ferrolho novo.
«Comprei com o meu dinheiro.»
Arranjaram o portão juntos. Finalmente, fechava sem dificuldade.
«Agora ninguém entra sem autorização,» disse o rapaz.
Joaquim tornou a abri-lo.
«Então por que o deixa aberto?»
«Porque antes estava aberto por estar estragado. Agora fica aberto porque eu escolhi.»
A partir desse dia, o portão permaneceu aberto durante as tardes. Miguel entrava depois da escola. Helena ficava por vezes para tomar café. Outros vizinhos voltaram a aparecer.
Joaquim sempre acreditara que ser forte significava não precisar de ninguém. Só muito mais tarde compreendeu que há uma solidão ainda maior do que viver sozinho: passar anos a convencer os outros de que não são bem-vindos, enquanto se espera em silêncio que alguém ignore o aviso e entre.
😲 A continuação já está nos comentários! Escrevam sem falta se o final foi inesperado para vocês.
