O encontro dos antigos alunos de Agronomia, em Coimbra, começou com abraços, risos e aquelas perguntas que se fazem quando dez anos passaram: onde trabalhas, casaste, tens filhos, ainda estás na área?

O encontro dos antigos alunos de Agronomia, em Coimbra, começou com abraços, risos e aquelas perguntas que se fazem quando dez anos passaram: onde trabalhas, casaste, tens filhos, ainda estás na área? Tudo parecia normal até Beatriz entrar no restaurante.

Na faculdade chamavam-lhe Bia. Tinha um ar doce, quase infantil, que o tempo parecia não ter alterado. Olhos claros, cabelo apanhado num rabo-de-cavalo, calças de ganga, camisola branca e uma pequena mochila. Parecia uma estudante atrasada, não uma investigadora a viver na Alemanha.

«Não pensei que ela viesse,» murmurou Sofia, antiga delegada da turma.

«Foi convidada,» respondeu Miguel. «Como todos.»

Beatriz sorriu.

«Olááá.»

Aquele cumprimento cantado fez algumas pessoas sorrirem. Bia sempre fora assim: leve, amável, indefesa na aparência. Dava chocolates às colegas, elogiava professores, piscava os olhos quando não sabia uma resposta. Quase ninguém conseguia ficar zangado com ela.

Diogo muito menos.

Diogo Martins era o talento raro do curso. Um rapaz calado, de uma aldeia perto de Viseu, que falava pouco e observava muito. No laboratório, porém, parecia ver o que os outros não viam. No terceiro ano criou uma solução nutritiva para morangueiros experimentais que deixou os docentes impressionados. Crescimento forte, composto seguro, resultados quase perfeitos.

Todos diziam que Diogo iria longe.

Mas Diogo amava Beatriz.

Fazia relatórios com ela, explicava fórmulas, ficava depois das aulas para rever experiências. Bia dizia:

«Diogo, sem ti eu não conseguia.»

E ele acreditava que isso era quase amor.

No último ano chegou o professor alemão Hoffmann. Tinha de escolher um estudante para uma bolsa de investigação em Hamburgo. Uma única vaga.

Todos apostavam em Diogo.

Depois de várias provas, restaram três: Diogo, Rui e Beatriz. A etapa final foi numa estufa. Cada um preparou uma solução para tratar sementes. Caixas e tubos estavam identificados. Depois do tratamento, ninguém podia tocar em nada.

No dia da avaliação, Rui teve um resultado correto, sem brilho. Restavam duas caixas. Uma mostrava rebentos fortes e uniformes. A outra, fracos.

Antes de a comissão ler os nomes, Beatriz levou a mão à testa.

«Estou tonta…»

Houve confusão. Água, cadeiras, uma janela aberta. Diogo ficou junto às caixas, com o rosto vazio. Sofia viu-o. Nunca se esqueceu.

Quando a avaliação continuou, a melhor caixa era de Beatriz.

Diogo não protestou.

Bia partiu para a Alemanha. Casou com um professor, teve dois filhos, fez carreira. Agora contava tudo isso no jantar, com naturalidade.

«Continuo em Hamburgo. O meu marido lidera um grupo de investigação. Os meninos falam português em casa.»

«Tiveste sorte,» disse alguém.

Sofia olhou para ela.

«Sorte não.»

O silêncio caiu.

Beatriz pousou o copo.

«Queres dizer alguma coisa?»

«Quero. Que tu não ganhaste aquela bolsa.»

Miguel mexeu-se na cadeira.

«Sofia, já passou muito tempo.»

«Para ela passou. Para Diogo, não.»

Beatriz manteve o sorriso.

«A comissão decidiu.»

«A comissão viu etiquetas. Não viu quem as trocou.»

Alguém deixou cair um talher.

Sofia continuou:

«Tu fingiste o desmaio. Diogo trocou as etiquetas e os tubos. Porque tu lhe pediste. Porque sabias que ele era apaixonado por ti.»

Beatriz empalideceu.

«Isso é uma mentira cruel.»

«Cruel foi ele dizer, anos depois: “Dei-lhe o meu futuro porque ela chorou.”»

Ninguém falou.

«Tu foste embora,» disse Sofia. «Ele ficou. Tentou trabalhar, mas perdeu-se. Começou a beber. Afastou-se de todos. Morreu num acidente alguns anos depois. Sozinho.»

Beatriz levantou-se.

«Lamento o que aconteceu a Diogo. Mas não vou ficar aqui para ser insultada.»

Saiu.

Na rua, em vez de chamar um táxi, caminhou até perto do rio. Sentou-se num banco e começou a chorar. O choro veio com violência, como se durante dez anos tivesse estado fechado atrás de uma porta.

Sofia dissera a verdade.

Na véspera da avaliação, Beatriz procurara Diogo no laboratório. Chorou. Disse que sem a Alemanha não teria futuro. Que ele era brilhante e seria reconhecido de qualquer forma. Que ela precisava mais. Que ele a amava.

«E se eu também precisar?» perguntou ele.

Ela segurou-lhe a mão.

«Tu és mais forte.»

Ele não era.

Na manhã seguinte, no meio da confusão, Diogo trocou as marcas. E Beatriz aceitou os parabéns.

Dez minutos depois, ela levantou-se do banco. Limpou o rosto, ajeitou o cabelo e viu no telefone a confirmação do voo. Daqui a três dias regressaria à Alemanha. O marido esperava-a. Os filhos esperavam-na. O instituto esperava-a.

A vida estava feita.

A culpa não mudaria a agenda, nem a casa, nem o nome nos artigos publicados.

Beatriz caminhou de volta ao hotel. Por fora, continuava a mesma Bia doce, elegante, vitoriosa.

Por dentro, sabia que havia uma porta trancada com o nome de Diogo.

E que algumas portas não precisam de abrir para assombrar uma casa inteira.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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