Nunca imaginei que, aos setenta e oito anos, me tornaria o pior pesadelo de um homem que vivia a casar-se com viúvas para lhes roubar tudo.

Nunca imaginei que, aos setenta e oito anos, me tornaria o pior pesadelo de um homem que vivia a casar-se com viúvas para lhes roubar tudo.

Chamo-me Matilde. Sou viúva, reformada, moro numa pequena casa nos arredores de Coimbra, tenho uma bengala que faz mais barulho do que os meus joelhos e uma língua que, segundo o meu falecido marido, devia ter licença de porte.

A minha vida era simples. Cuidava das plantas, falava com a vizinha Rosa, fazia sopa ao domingo e via novelas à tarde, quase sempre adormecendo antes do primeiro intervalo.

Um dia, Rosa apareceu à minha porta aflita.

— Matilde, já soubeste?

— Se é sobre a filha da senhora Conceição ter voltado para o ex-marido, já sei e não aprovo.

— Não é isso. É grave.

Fiz café.

— Então senta-te e desembucha.

Rosa aproximou-se da mesa e baixou a voz.

— Lembras-te da Dona Elvira, de Montemor?

— A que fazia os melhores pastéis de Tentúgal caseiros?

— Essa. Casou-se com um homem mais novo.

— Lembro-me. Muito elegante. Parecia vendedor de seguros com alma de poeta.

— Ele roubou-a.

Fiquei parada com a chávena na mão.

— Roubou?

— Vendeu-lhe a casa, limpou-lhe a conta e deixou-a numa estação de autocarros. Sem documentos, sem dinheiro, quase sem saber o que fazer.

— Miserável.

— E não foi a única.

A história foi crescendo como uma mancha de azeite na toalha. Havia outras mulheres. Uma fora deixada junto a um hospital. Outra acabou num lar, depois de ele dizer à família que ela “já não estava bem da cabeça”. Outra perdeu as poupanças de uma vida e foi viver com uma sobrinha.

O homem aparecia sempre da mesma forma.

Bem vestido. Educado. Flores. Chocolates. Ajuda com sacos. Frases doces. Beijos na mão. Dizia que a solidão também lhe pesava, que não queria dinheiro, queria companhia.

Depois vinha o casamento.

Depois os papéis.

Depois o vazio.

— Um dia vai meter-se com a pessoa errada, — disse eu.

Rosa olhou para mim.

— Que Deus te ouça.

Duas semanas depois, ele bateu à minha porta.

Abri e quase me ri.

Era exatamente como o tinham descrito. Cabelo impecável, casaco escuro, sapatos limpos, sorriso de galã antigo e um ramo de flores na mão.

— Boa tarde. A senhora é a Dona Matilde?

— Depende. Vem vender enciclopédias, cobrar impostos ou apaixonar-se?

Ele ficou meio perdido. Depois sorriu.

— Gosto de mulheres com humor.

— Ainda bem. É o que me sobra quando falta paciência.

Chamava-se Artur. Pelo menos naquele dia. Disse que era viúvo, que tinha trabalhado em hotelaria, que se mudara para a zona para “recomeçar com calma”. Falava como quem embrulha veneno em papel de seda.

Eu deixei.

No mesmo dia liguei ao meu sobrinho Duarte, advogado em Coimbra. Depois fui com Rosa à GNR. Já havia suspeitas, queixas soltas, nomes diferentes, mulheres envergonhadas demais para contar tudo. Faltava apanhar o homem com provas.

— Se ele tentar agir consigo, precisamos de acompanhar, — disse o agente.

— Acompanhem, então. Eu ofereço o palco.

Artur começou a visitar-me. Trazia flores, arranjava coisas pequenas, elogiava o meu chá, dizia que eu tinha olhos vivos. As vizinhas começaram logo:

— Matilde arranjou namorado!

Eu sorria.

Porque sabia que ele achava estar a caçar.

E ainda não tinha percebido que entrara no terreno errado.

Uma tarde, enquanto comíamos bolachas, disse-me:

— Nunca conheci uma mulher tão especial.

— Isso é curioso. As outras também devem ter ouvido coisa parecida.

Ele empalideceu por meio segundo.

— Como?

— Nada. Estava a falar das bolachas.

Um mês depois, pediu-me em casamento.

— Matilde, a vida é curta. Quero passar o que me resta consigo.

— O que lhe resta ou o que me resta a mim? Convém esclarecer.

Ele riu, nervoso.

— Falo de amor.

— Cuidado, que açúcar a mais faz mal.

Aceitei.

Meio bairro achou que eu enlouquecera. Rosa representou muito bem o papel de vizinha chocada. Mas, à noite, sentávamo-nos à mesa com Duarte e preparávamos cada passo.

Antes do casamento, pus tudo em ordem.

A casa passou para uma fundação de apoio a idosos isolados, com tudo legal. O dinheiro ficou num fundo administrado pelo meu sobrinho. As joias verdadeiras foram para um cofre, e na caixa de veludo deixei bijuteria comprada na feira. Até troquei a televisão boa por uma antiga que precisava de paciência, três rezas e um toque lateral para ligar.

Quando Artur veio morar comigo, começou logo a observar.

— Não tinha uma televisão maior?

— Tinha. Mas esta ensina humildade.

— E as suas poupanças?

— Estão onde devem estar.

— No banco?

— Na segurança.

Ele foi ficando nervoso. Eu fazia-me distraída.

— Ai, não sei onde pus a caderneta…

Ele procurava.

Uma noite fingi dormir. Ouvi gavetas, armários, caixas, colchão, vasos. Abriu até a lata onde eu guardava rebuçados de mentol.

Não encontrou nada.

Ao fim de algumas semanas, atacou.

— Talvez devêssemos vender esta casa e mudar-nos para um apartamento pequeno. Mais prático para si.

— Excelente ideia.

Os olhos dele brilharam.

Fomos ao notário. Quando o notário leu a documentação, Artur ficou sem cor.

— A propriedade pertence a uma fundação desde antes do casamento.

— Como assim? — perguntou ele.

— Assim mesmo, — respondi. — A casa tem dono. E não é o senhor.

Nessa noite ele explodiu.

— Enganou-me!

— Não. Apenas cheguei primeiro.

— Onde está o dinheiro?

— Longe das suas mãos.

— Quero o divórcio!

— Que coincidência. Eu também.

No dia seguinte, tentou ir embora com malas cheias. Levou o que julgava valioso: caixas de joias falsas, papéis, relógios antigos, uma salva de prata. Não sabia que alguns objetos tinham sido colocados ali com a polícia — peças de outras vítimas, identificadas e marcadas.

Cinco ruas depois, foi mandado parar.

Nas malas encontraram documentos, relógios, anéis e provas que ligavam Artur a várias mulheres lesadas.

Quando o levaram, gritou:

— Velha bruxa!

Levantei a bengala e sorri.

— Obrigada, meu filho. Há muito tempo que ninguém me faz um elogio tão bonito.

As vizinhas vieram para a rua. Rosa ria e chorava ao mesmo tempo.

— Matilde, apanhaste-o!

— Não, querida. Ele tropeçou sozinho. Eu só puxei o tapete.

Desde esse dia, sempre que aparece um senhor demasiado perfeito na vida de uma viúva do bairro, chamam-me primeiro.

— Matilde, investigamos?

E eu digo:

— Tragam café, pastéis e os óculos. Já não vemos tão bem ao perto, mas os vigaristas distinguimos de longe.

A idade não nos torna indefesas.

Às vezes, torna-nos exatamente a armadilha que eles não esperavam.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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