Marina Alexandrina escolheu alojamento à beira-mar com três exigências simples: quarto individual, pátio com sombra e silêncio. Não queria piscina, música ao vivo, pequeno-almoço com quarenta variedades de bolo, nem “ambiente familiar animado”. Essa última expressão, para ela, soava quase a ameaça.
Durante os últimos seis meses vivera em Lisboa rodeada de obras. No andar de cima furavam paredes, no de baixo substituíam canalizações, e no apartamento ao lado um adolescente aprendia bateria com a dedicação de quem acreditava que o mundo precisava urgentemente do seu ritmo. Por isso, quando decidiu ir passar três semanas ao Algarve, procurou uma coisa acima de todas: silêncio.
O anúncio da casa de hóspedes, numa rua afastada da marginal de Tavira, prometia:
“Lugar calmo e familiar, longe do ruído turístico. Pátio sombreado. Quartos virados para o jardim.”
As fotografias mostravam uma parreira, uma mesa de madeira vazia, duas cadeiras de ferro e um gato a dormir num degrau. Marina olhou para aquilo e quase sentiu o corpo agradecer.
Ouviu o galo ainda dentro do táxi.
Cantava duas casas antes do portão certo e continuou a cantar enquanto Dona Teresa, a proprietária, a recebia com um sorriso grande e uma voz ainda maior.
— Não ligue, Dona Marina. Ele é dos vizinhos.
No pátio das fotografias havia afinal uma pequena república familiar em pleno funcionamento. Dois miúdos jogavam à bola, um homem desmontava um motor de barco, uma vizinha perguntava por cima do muro quanto estavam os figos, e Dona Teresa respondia a todos ao mesmo tempo, como se tivesse nascido com três conversas na boca.
O galo estava em cima de um bidão, junto ao telheiro, a poucos metros da janela do quarto de Marina.
— Este é o galo dos vizinhos? — perguntou ela.
— Em termos administrativos, sim, — respondeu Dona Teresa. — Chama-se Senhor Álvaro. O meu neto é que pôs o nome. Disse que um galo com tanta presença precisava de tratamento.
— E porque dorme aqui?
— Porque na casa da minha irmã as galinhas ficam nervosas.
Marina devia ter percebido o aviso. Mas o quarto estava limpo, os lençóis cheiravam a sol, a janela dava para uma laranjeira e havia uma manta dobrada aos pés da cama. Pagou as três semanas.
Na primeira noite, o pátio só acalmou depois das onze. As crianças guardaram a bola às nove, como prometido, mas depois organizaram uma missão para salvar uma osga e discutiram em sussurros tão altos que pareciam uma assembleia secreta transmitida por altifalante. O senhor Joaquim, marido da proprietária, ligou o motor do barco “só para testar”. O teste durou sete minutos e quarenta segundos.
Às cinco e trinta e dois da manhã, o Senhor Álvaro abriu oficialmente o dia.
Marina sentou-se na cama, assustada, e concluiu que o galo vivia noutro fuso horário.
Ao pequeno-almoço, mencionou com cuidado o silêncio prometido no anúncio.
Dona Teresa ficou surpreendida.
— Mas de noite ninguém fez barulho.
— O galo.
— O galo não faz parte da casa de hóspedes.
— Está debaixo da minha janela.
— É porque gostou de si.
Marina não queria ser a hóspede problemática. Comprou tampões para os ouvidos, mas com eles ouvia a própria respiração com tal intensidade que começou a desconfiar dos pulmões. Pôs no telemóvel sons de chuva, mas a chuva digital foi derrotada pelo motor real do senhor Joaquim logo na primeira tentativa.
No terceiro dia descarregou uma aplicação para medir ruído. Junto ao motor, o telemóvel mostrou oitenta e dois decibéis. Na praia, junto ao mar, mostrou quase o mesmo.
Marina ficou ofendida com a aplicação. O mar não podia oficialmente fazer tanto barulho como um motor. O mar era voluntário.
Nessa tarde, a bola bateu na porta do quarto dela. O menino, Tiago, apareceu logo com ar culpado.
— Desculpe, Dona Marina. Vamos jogar mais para o fundo.
A irmã, Rita, espreitou atrás dele.
— Podemos falar?
— Podem. Só sem gritar.
Cinco minutos depois, os dois discutiam aos gritos em sussurro sobre quem estava a gritar.
Na manhã seguinte, Marina fez um horário. Escreveu à mão, com letras firmes, e pendurou num poste junto à parreira:
“HORAS DE SILÊNCIO: 14:00–16:00 e depois das 22:00.
Testes de motores, se possível, antes das 12:00.
Jogos com bola no fundo do pátio.
Não conversar aos gritos por cima do muro.”
No fim acrescentou:
“Senhor Álvaro: desejável contenção vocal antes das 7:00.”
Dona Teresa leu tudo com atenção e aprovou.
— Muito bem. Isto até dá categoria à casa.
O horário funcionou. Quase.
As crianças passaram a jogar no fundo. O senhor Joaquim testava motores de manhã. Dona Teresa deixou de gritar por cima do muro e passou a aproximar-se da vizinha, o que reduziu o volume, mas duplicou a duração das conversas.
Com o galo, a diplomacia falhou. A irmã de Dona Teresa informou que o Senhor Álvaro era “um espírito livre” e não reconhecia fronteiras humanas.
Apesar disso, entre as duas e as quatro, o pátio ficava calmo. Marina deitava-se com o livro e, em vez de ler, ficava à escuta para ver se alguém quebrava a regra. Se do outro lado da rua caía um balde, ela olhava para o relógio, embora a rua nunca tivesse assinado o horário.
Ao fim de uma semana, conhecia os sons da casa melhor que os próprios donos. Pelo passo sabia se vinha Rita ou Dona Teresa. Pelo ranger do portão adivinhava se o senhor Joaquim voltara. Se a bola passava muito tempo sem bater, espreitava, desconfiada, para confirmar se as crianças estavam bem.
— Dona Marina, a senhora já é inspetora-geral do pátio, — brincou Dona Teresa.
— Alguém tem de zelar pelo regime.
— Então amanhã podia acordar o Joaquim antes das oito. A senhora ouve tudo, não é?
— Há limites para o serviço público.
No sábado, a família saiu cedo. Iam a um casamento em Loulé. Dona Teresa engomava um vestido azul, o senhor Joaquim procurava uma camisa branca, as crianças corriam com sacos, e o galo seria levado para a casa da irmã.
— Hoje sim, vai ter silêncio verdadeiro, — prometeu Dona Teresa. — Aproveite.
Às nove, o portão fechou-se. Até o Senhor Álvaro foi levado, protestando.
Marina ficou sozinha.
A primeira meia hora foi maravilhosa. Café debaixo da parreira, livro aberto, folhas ao vento, mar ao longe.
Na segunda chávena, reparou no frigorífico da cozinha exterior. Fazia um zumbido irregular. Antes, aquele som desaparecia na vida do pátio. Agora, cada arranque parecia uma notícia. Um ramo raspava no telhado. Uma torneira pingava. No quarto, havia um relógio que ela nunca tinha ouvido.
Às duas, durante as suas próprias horas de silêncio, não lhe apetecia dormir. O pátio não parecia tranquilo. Parecia abandonado.
A rede balançava vazia. A bola estava encostada ao muro. Uma chave inglesa esquecera-se no banco de trabalho.
Marina ligou a aplicação: trinta e oito decibéis. Verde.
— Grande coisa, — disse ao ecrã.
Depois do almoço, o vento começou a bater o portão. Quando saiu para o prender, viu o Senhor Álvaro no meio da rua. Tinha fugido da irmã de Dona Teresa e estava ali como se fiscalizasse se a ordem sobrevivia sem ele.
— Senhor Álvaro, faça o favor de entrar.
O galo deu dois passos na direção oposta.
A perseguição durou vinte minutos. Marina tentou conduzi-lo com uma toalha, um chapéu e uma cadeira dobrável, até que uma menina vizinha atirou milho ao chão e o levou para dentro com calma humilhante.
— Era só chamar-me, — disse a menina.
Marina endireitou o chapéu, que lhe escorregara para uma orelha.
— Quis resolver sozinha.
Às três e cinquenta, o galo cantou. Ainda era hora de silêncio. Marina aproximou-se do bidão.
— Hoje abro exceção.
O Senhor Álvaro cantou outra vez, um pouco mais baixo. Como se aceitasse os termos.
Ao anoitecer, o silêncio tornou-se cansativo. Marina ligou o rádio, mas vozes desconhecidas não substituíam conversas em que se pode participar. Foi até à praia, voltou depressa e começou a ler em voz alta um parágrafo confuso. Não ficou mais claro, mas o pátio deixou de parecer desabitado.
O autocarro do casamento regressou depois das dez. Primeiro ouviu-se música, depois risos, depois Dona Teresa entrou descalça, com os sapatos na mão. As crianças dormiam de pé. O senhor Joaquim trazia uma caixa de bolos.
— O galo? — perguntou ela, vendo-o no bidão. — Como veio parar aqui?
Marina contou a versão curta. Infelizmente, a menina vizinha completou por cima do muro a versão com toalha, cadeira e chapéu.
O senhor Joaquim riu tão alto que, de acordo com o regulamento, merecia advertência.
Marina olhou para o relógio.
E não disse nada.
No dia seguinte, o papel do horário tinha novas anotações:
“O galo pode em emergências.”
“Motores por acordo.”
“Chá depois das 19:00 nunca é silencioso.”
Marina deixou o papel. Era o primeiro documento do pátio que todos liam.
Nos últimos dias, os vizinhos apareceram para conversar debaixo da parreira. Falavam do preço dos pêssegos, do casamento e de um tio que adormeceu durante o brinde. Dona Teresa espreitou para o quarto.
— Incomodamos? Se quiser, vamos para junto do telheiro.
Marina estava deitada com o livro. Lera metade do primeiro em duas semanas. Os outros dois nem tinham sido abertos.
Levantou-se.
— Não mudem de sítio. Mas ponham-me uma cadeira perto de si. Do quarto não consigo ouvir porque é que o noivo se zangou com o motorista.
Puseram-lhe a cadeira.
O senhor Joaquim começou a contar, Dona Teresa interrompeu, a irmã acrescentou outra versão pelo muro, as crianças sussurravam debaixo da mesa e o Senhor Álvaro instalou-se no bidão.
A aplicação marcou setenta e quatro decibéis.
Marina olhou para o ecrã, desligou-a e pôs o telemóvel virado para baixo.
No dia da partida, Dona Teresa perguntou:
— Então? Gostou do nosso lugar calmo e familiar?
Marina olhou para o pátio, para a rede, para as crianças, para o motor desmontado e para o galo que se preparava para a despedida.
— Familiar, sim. Calmo… talvez à sua maneira.
O Senhor Álvaro cantou quando ela saiu pelo portão.
Desta vez, Marina não olhou para o relógio.
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