Mariana ia sentada junto à janela do autocarro com a filha mais nova, Leonor, adormecida nos braços

Mariana ia sentada junto à janela do autocarro com a filha mais nova, Leonor, adormecida nos braços. O filho, Tomás, de nove anos, estava entretido com um jogo.

Iam passar o fim de semana com a avó, nos arredores de Braga. O marido, Ricardo, estava supostamente numa viagem de trabalho ao Porto.

O autocarro parou junto a um café onde tinham celebrado um aniversário de casamento.

Mariana olhou pela janela.

Ricardo estava sentado na esplanada com uma mulher jovem.

Ela ria. Ele inclinava-se para ela com um sorriso que Mariana não via em casa havia muito tempo.

Nessa noite, escreveu:

“Como está a viagem?”

“Reuniões intermináveis. Tenho saudades.”

Mariana não dormiu.

Na segunda-feira, Ricardo voltou com flores e histórias detalhadas sobre negociações.

No dia seguinte, Mariana abriu o computador dele.

Num chat escondido chamado “Projeto Norte”, encontrou as mensagens.

“Quando voltamos a encontrar-nos?”

“Mariana vai com as crianças para casa da mãe. Sábado.”

“Tenho saudades.”

“Contigo sinto-me vivo.”

A mulher chamava-se Beatriz, tinha vinte e seis anos e trabalhava na mesma empresa.

Ricardo regressou inesperadamente.

— Descobriste.

— Há seis meses?

— Sim.

— Porquê?

— Sentia-me velho. Tudo era trabalho, casa e contas. Com ela era diferente.

— E nós éramos o peso?

— Não. Vocês são a minha vida.

Durante dias, viveram como estranhos. Ricardo dormia no sofá. Mariana reuniu documentos e falou com uma psicóloga.

Ele afirmou ter terminado tudo. Mariana exigiu que telefonasse à outra mulher à sua frente.

— Disseste que comigo eras feliz, — chorou Beatriz.

— Foi um erro.

Mariana percebeu que Ricardo tinha usado as duas.

Alguns dias depois, encontrou Beatriz no supermercado. A jovem desviou o olhar e afastou-se.

Foi então que Mariana começou a pensar em si.

Quando deixara de ser uma mulher para se transformar apenas em mãe e esposa?

Inscreveu-se em yoga, comprou roupa nova e voltou a encontrar-se com amigas.

Ricardo reparou.

— Estás diferente.

— Porque não quero continuar a ser apenas a tua mulher.

Começaram a falar verdadeiramente. Sobre medo, envelhecimento, solidão e invisibilidade.

Talvez o casamento sobrevivesse.

Talvez não.

Mariana sabia, porém, que já não dependia dessa resposta para continuar a viver.

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