Mariana esfregava os azulejos da cozinha como se pudesse apagar, com a esponja, os últimos meses da sua vida.
O apartamento novo cheirava a tinta fresca e detergente. Era antigo, precisava de obras, tinha armários gastos e janelas que fechavam mal.
Mas era dela.
Dela e da Sofia.
Pouco tempo antes, Mariana ainda acreditava que a sua família estava segura. O marido, Rui. Dez anos de casamento. Uma filha de sete anos. Uma vida comum, com problemas comuns.
Depois veio a viagem de trabalho ao Porto.
Tinha de ficar três dias. Sofia ficou com a avó. Rui abraçou-a antes de ela sair.
— Vou morrer de saudades.
Mariana sorriu e acreditou.
Terminou tudo um dia mais cedo e resolveu voltar sem avisar. Comprou um vestido bonito, um perfume pequeno e decidiu passar primeiro por Catarina, a melhor amiga. Catarina podia ajudá-la com o cabelo, a maquilhagem e talvez emprestar aqueles sapatos vermelhos de salto alto que Mariana sempre adorou.
Não telefonou. Catarina estava quase sempre em casa à noite.
Tocou à campainha, feliz com a surpresa.
Rui abriu a porta.
Estava de calças confortáveis, com ar assustado, como se tivesse sido apanhado dentro de uma vida que não era suposto Mariana ver.
— Rui? — perguntou ela.
Ele não respondeu.
De dentro veio a voz de Catarina:
— Já chegou o jantar, amor? Pagaste?
Catarina apareceu no corredor, arranjada demais para estar sozinha em casa, com os sapatos vermelhos nos pés.
Mariana percebeu tudo.
— Há quanto tempo?
Catarina começou a falar depressa. Um cano estragado. Rui veio ajudar. Um mal-entendido.
Mariana olhou-a de cima a baixo.
— Sim. E para arranjar canos usas saltos vermelhos.
Rui tentou aproximar-se.
— Mariana, vamos falar com calma.
— Calma? A minha melhor amiga chama-te amor e tu queres calma?
Ela tirou da mala o vestido novo e atirou-o para junto dos pés de Catarina.
— Fica com isto. Já ficaste com o resto.
No dia seguinte, pediu o divórcio.
Rui implorou. Chorou. Disse que foi uma fraqueza, um erro, uma coisa sem importância.
Mas para Mariana tinha importância. Toda.
Venderam a casa. Como Sofia ficou com ela, Mariana conseguiu comprar um pequeno apartamento. Não era novo. Precisava de reparações. Mas ali ninguém a enganava.
Tirou férias para limpar e arrumar tudo.
Enquanto esfregava a cozinha, pensava no casamento. Dez anos. Tantos planos. Tantas fotografias. Tantas promessas.
— Mãe, já limpei a prateleira, — disse Sofia, entrando na cozinha. — Posso limpar a janela também?
Mariana olhou para a filha.
Sofia tinha o cabelo preso de qualquer maneira, uma mancha de pó na cara e uma seriedade que não devia pertencer a uma criança.
Mariana abriu os braços.
— Sabes que eu te amo muito?
— Sei.
— Desculpa por tudo isto com o pai. Um dia explico-te melhor.
Sofia abanou a cabeça.
— Não precisas. Eu entendo. A mãe da minha amiga Leonor também chorou quando o pai dela foi viver com outra senhora. Eu vejo que tu choras, mesmo quando fechas a porta.
Mariana sentiu as lágrimas cair.
— Tu não tens de tomar conta de mim.
— Mas posso ajudar. Somos meninas. Ficamos juntas.
Mariana riu e chorou ao mesmo tempo.
Pouco depois, Sofia pediu para ir à padaria comprar pães de queijo. Mariana deu-lhe dinheiro e ficou à janela, vendo-a atravessar a rua com passos pequenos e decididos.
O telemóvel vibrou.
Rui escreveu:
“Como estão?”
Mariana olhou para a mensagem.
Depois respondeu:
“A seguir em frente.”
Guardou o telemóvel.
O apartamento ainda não parecia uma casa.
Mas já parecia um lugar onde a dor podia descansar.
E isso era o primeiro passo.
