Estava a acabar uma salada na cozinha quando ouviu a porta abrir.

— Queria pedir-te uma coisa… a Cláudia pode ficar cá em casa uma semana?
Miguel apertou os lábios. Não gostava de ter pessoas estranhas em casa.

Estava a acabar uma salada na cozinha quando ouviu a porta abrir.

— Amor, chegámos! — gritou Sofia do corredor.

Miguel suspirou.

“Chegámos.”

Ou seja, Sofia não vinha sozinha.

Cláudia apareceu atrás dela. Era amiga íntima de Sofia. Vista de vez em quando, até parecia simpática. Mas quando passava mais tempo perto dela, tornava-se arrogante, crítica e sempre descontente.

Principalmente com Miguel.

Ele sempre fora educado. Era amiga de Sofia, e isso bastava para ele se controlar.

— Fizeste jantar! — disse Sofia, como se fosse algo raríssimo.

Miguel olhou para ela em silêncio. Nos últimos meses, era quase sempre ele que cozinhava.

Cláudia olhou para a mesa.

— Pelo menos hoje há comida.

Miguel fingiu não ouvir.

O jantar foi desconfortável. Para ele. As duas falaram sem parar, comeram bem e depois foram para a sala, deixando pratos e copos na mesa.

Miguel arrumou tudo sozinho.

Mais tarde, estava no pequeno escritório com o portátil quando Sofia entrou.

— Miguel… a Cláudia discutiu com o namorado. Não tem para onde ir. Pode ficar cá uma semana? Quando receber, procura um quarto.

Miguel ficou calado.

O apartamento era dele. Tinha-o comprado antes de conhecer Sofia. Era pequeno, mas era o seu lugar, o seu silêncio, a sua ordem.

Mas uma pessoa em dificuldade precisava de ajuda.

— Uma semana, disse.

Sofia abraçou-o.

— Obrigada! Só mais uma coisa… damos-lhe o quarto? Ela sente-se constrangida contigo. Nós dormimos na sala.

Miguel arrependeu-se no mesmo instante.

Uma semana virou quase três.

Miguel chegava cedo, fazia compras, cozinhava, lavava a loiça. Sofia e Cláudia chegavam tarde, fechavam-se no quarto e conversavam durante horas. Miguel dormia no sofá da própria casa.

Se via um filme, fazia barulho. Se fechava uma porta, era bruto. Se perguntava quando Cláudia ia sair, Sofia olhava para ele como se fosse cruel.

Um dia chegou com fome e encontrou o frigorífico vazio.

Bateu à porta do quarto. Cláudia demorou a abrir.

— Onde está o jantar?

— Eu já comi.

— Podias ter avisado. Eu passava no supermercado.

— Tu é que moras aqui. Devias prever quando tens visitas.

Miguel saiu para comprar comida antes de perder a calma.

No dia seguinte, Sofia anunciou que ia dois dias ao Porto em trabalho.

— A Cláudia fica, claro.

Miguel não disse nada.

No dia seguinte, depois do trabalho, não quis voltar para casa. Jantou fora, foi ao cinema e só regressou tarde.

Cláudia esperava-o no corredor.

— Onde andaste?

— Fora.

— E o jantar?

Miguel olhou para ela.

— Cozinha.

— Eu não sou empregada. Sou convidada.

— Uma convidada ajuda depois de três dias. Depois de três semanas, já é outra coisa.

Cláudia cruzou os braços.

— Sofia faz tudo por ti, e tu ainda tratas assim a melhor amiga dela?

Miguel riu sem humor.

— Sofia faz tudo por mim?

— Vou ligar-lhe e dizer que te meteste comigo.

Miguel ficou imóvel.

— Não faças isso.

— Vamos ver em quem ela acredita.

Cláudia ligou.

Miguel foi para a casa de banho. Não queria participar naquela farsa.

Quando saiu, ela empurrou-lhe o telefone para a mão.

Sofia gritava.

— Miguel, enlouqueceste? Saio dois dias e tu já andas atrás da Cláudia?

Miguel tentou falar.

Depois parou.

De repente, percebeu que não valia a pena.

Sofia já tinha acreditado.

Lembrou-se dos últimos meses: ele a cozinhar, a pagar, a limpar, a ceder. Ela a exigir cada vez mais. E agora nem sequer perguntava a versão dele.

— Acredita no que quiseres, disse.

Desligou.

Foi ao quarto, pegou na mala de Cláudia e pô-la em cima da cama.

— Tens uma hora.

— Para quê?

— Para sair.

— Não podes expulsar-me.

— Posso. A casa é minha.

— Sofia vai deixar-te.

— Então facilito o processo.

Cláudia gritou, ameaçou, chorou. Miguel sentou-se na sala, abriu o portátil e pôs um temporizador.

Quarenta minutos depois, ela saiu.

Na manhã seguinte, Miguel juntou as coisas de Sofia. Não partiu nada. Não atirou nada pela janela. Guardou tudo em sacos e malas.

À noite, Sofia esperava-o furiosa à porta do prédio.

— A minha chave não funciona! O que fizeste?

Miguel subiu com ela, abriu a porta e colocou os sacos no patamar.

— As tuas coisas.

Sofia olhou-o, incrédula.

— Estás a falar a sério?

— Sim.

— Miguel, vamos conversar.

— Conversar era antes de acreditares numa mentira sem me ouvires.

Tirou-lhe as chaves da mão.

— O meu erro foi confundir amor com utilidade.

Fechou a porta.

Sofia tocou, bateu, gritou.

Miguel não abriu.

Foi à cozinha, fez uma sandes, serviu chá e ligou um filme.

A casa estava silenciosa.

Mas não parecia vazia.

Parecia finalmente dele.

E duas semanas depois, ao voltar do trabalho sem medo de encontrar críticas, exigências ou vozes estranhas, Miguel respirou fundo.

Tinha perdido uma relação.

Mas tinha recuperado a paz.

Like this post? Please share to your friends:
Mass Effect
Leave a Reply

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!: