— Estás de licença de maternidade, não tens nada para fazer. Descasca batatas para a minha família toda, — disse Ricardo, sem tirar os olhos do telemóvel.

— Estás de licença de maternidade, não tens nada para fazer. Descasca batatas para a minha família toda, — disse Ricardo, sem tirar os olhos do telemóvel.

Marta pousou o biberão vazio em cima da mesa.

— Que batatas, Ricardo? A tua mãe, a tua irmã com o marido e os três filhos chegam daqui a duas horas. E só me avisas agora?

— Vinham a passar por Coimbra e resolveram parar. Qual é o drama? — respondeu ele. — Estás em casa o dia inteiro. A Clara é bebé, dorme sempre.

Marta respirou fundo.

— A Clara não dorme há três horas. Estão a nascer-lhe dentes, tem febre baixa. Eu não dormi esta noite.

Ricardo fez uma careta.

— Lá estás tu. Tudo é um problema. Compra um frango no supermercado lá em baixo. Batatas há. Vou tomar banho. E não faças cenas à frente dos meus.

Ele saiu a assobiar.

Marta ficou no corredor. Do quarto veio outro choro. Pegou na filha ao colo e começou a embalá-la. Desde que Clara nascera, ouvia sempre a mesma ideia: como estava em casa, devia estar disponível. Para a bebé, para a casa, para a roupa, para as visitas, para tudo. Como se a licença de maternidade fosse uma estadia num hotel onde a hóspede também faz a limpeza.

A campainha tocou antes de uma hora.

A sogra, Dona Teresa, entrou primeiro, com ar de quem vinha fiscalizar. Depois veio Inês, irmã de Ricardo, com o marido e três crianças barulhentas que deixaram sapatos e casacos espalhados.

— Marta, olá. Onde é a casa de banho? — perguntou Inês, já a passar pelo corredor.

— Ao fundo, à direita.

Dona Teresa espreitou para a cozinha.

— Então e o jantar? O Ricardo disse que ias fazer batatas com carne. Vimos com fome.

Ricardo saiu do banho, limpo e satisfeito.

— Mãe! Chegaram. Sentem-se, a Marta já trata. Marta, as batatas?

Marta olhou para ele.

— Não descasquei.

O silêncio caiu no hall.

— Como assim não descascaste? — perguntou Ricardo.

— Assim mesmo.

— Eu disse-te há duas horas.

— Disseste. Não perguntaste.

Inês abriu os braços.

— Marta, estamos de visita. Fiz viagem com três crianças. Tu estás em casa, podias ter adiantado alguma coisa.

— Estou com uma bebé com febre.

Dona Teresa suspirou.

— No meu tempo, cuidávamos dos filhos e ainda fazíamos jantar para dez.

Marta olhou para Ricardo. Esperou que ele dissesse qualquer coisa em sua defesa. Ele apenas fez uma expressão irritada.

— Vai para a cozinha, por favor. Não me envergonhes.

Nesse instante, Marta sentiu algo ficar muito claro dentro dela.

— Está bem, — disse. — Vou resolver.

Ricardo sorriu.

— Assim está melhor.

Marta entrou na cozinha. Pôs o saco de batatas na mesa, a panela maior ao lado e uma faca pequena. Depois foi ao quarto.

Vestiu Clara com um fato quente, arrumou fraldas, biberão, leite, termómetro, medicamento, documentos, cartão bancário e uma muda de roupa. Pegou nas chaves da casa da amiga Joana, que lhe dizia há meses: “Quando precisares de respirar, aparece.”

Ao voltar ao corredor com a bebé ao colo e a mala ao ombro, Ricardo ficou parado.

— Onde vais?

— Para casa da Joana.

— E o jantar?

— As batatas estão na mesa. A panela também. A faca também. A tua família veio, tu recebes.

Dona Teresa levantou-se.

— Marta, não vais sair agora, pois não?

— Vou. A Clara precisa de silêncio. E eu também.

Ricardo aproximou-se.

— Estás a humilhar-me.

— Não. Estou a deixar-te viver a tua própria decisão.

Inês murmurou:

— Por causa de umas batatas?

Marta olhou para ela.

— Não. Por causa de um ano inteiro a ouvirem dizer que eu não faço nada.

Ricardo baixou a voz.

— Se saíres agora, não esperes que tudo fique igual.

Marta abriu a porta.

— Ainda bem. Igual já não me serve.

Saiu.

Em casa de Joana, Clara finalmente adormeceu. Marta sentou-se à mesa da cozinha e chorou em silêncio. Joana não a interrogou. Fez chá, aqueceu sopa e disse apenas:

— Hoje dormes. Amanhã pensas.

O telemóvel vibrou sem parar.

“A mãe está ofendida.”
“As crianças estão com fome.”
“Onde está o descascador?”
“Marta, atende.”
“Isto é ridículo.”

Ela respondeu:

“Se é tão simples, conseguem fazer.”

Voltou no dia seguinte. A casa estava virada do avesso. Cascas de batata na mesa, pratos no lava-loiça, uma panela queimada. Ricardo estava sentado na cozinha, com ar cansado.

— Temos de falar.

— Temos.

Ele engoliu em seco.

— Ontem percebi que… talvez eu tenha sido injusto.

— Talvez não. Foste.

Ricardo baixou a cabeça.

— Desculpa.

— Eu quero mudanças. Visitas combinam-se antes. Se convidas, cozinhas ou encomendas. A tua mãe não entra aqui a dar ordens. Tu dás banho à Clara três noites por semana. Ao sábado de manhã, eu durmo.

— Está bem.

— E se alguém voltar a dizer que eu estou em casa sem fazer nada, respondes tu.

Ele assentiu.

Não se tornou perfeito. Esqueceu fraldas, queimou papa, ficou desesperado na primeira noite em que Clara chorou com ele. Mas começou a estar presente. E presença, às vezes, é o primeiro pedido de desculpa que vale alguma coisa.

Um mês depois, Dona Teresa ligou para dizer que vinham domingo almoçar.

Marta passou o telemóvel a Ricardo.

Ele ouviu e disse:

— Claro, mãe. Mas cada um traz qualquer coisa. A Marta não é restaurante.

Marta sorriu sem dizer nada.

Às vezes uma mulher não sai de casa para destruir a família. Sai por uma noite, com a filha ao colo, para mostrar que aquilo que todos chamavam “nada” era exatamente o que mantinha tudo de pé.

🔥 Leiam a continuação nos comentários e não se esqueçam de contar se a história correspondeu às vossas expectativas.

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