Durante quinze anos, Helena viveu sozinha. Completamente sozinha, num silêncio que ela aprendera a tratar como paz

Durante quinze anos, Helena viveu sozinha. Completamente sozinha, num silêncio que ela aprendera a tratar como paz.

Depois do divórcio, aos quarenta e cinco anos, não procurou outro relacionamento. Não sentia falta de partilhar a casa. Sentia alívio por já não precisar de se adaptar constantemente a outra pessoa.

Com o tempo, organizou a vida exatamente como desejava. A chávena ficava onde a deixava. As toalhas eram penduradas corretamente. O comando da televisão tinha um lugar certo. Ninguém deixava roupa espalhada nem esperava que ela adivinhasse tudo o que precisava de ser feito.

Aos sessenta, conheceu António.

Ele tinha sessenta e dois anos, era educado, elegante e parecia saber ouvir. Depois de alguns meses, sugeriu mudar-se para casa dela.

«A vida a dois será mais divertida.»

Helena acreditou.

As primeiras semanas foram agradáveis. Jantares, filmes, conversas até tarde. Ela gostava de ter alguém por perto.

Depois, António começou a agir como se a casa sempre tivesse sido dele.

Deixava chávenas em todo o lado. Na mesa, no parapeito, no quarto e até na casa de banho. As meias apareciam no sofá, debaixo das cadeiras e uma vez sobre a mesa da cozinha.

«Podes colocar a loiça diretamente na máquina?»

«Claro. Esqueci-me.»

Esquecia-se todos os dias.

A televisão estava sempre demasiado alta. António reduzia o volume quando ela pedia, mas pouco depois voltava a aumentá-lo.

Deitava-se tarde e dormia até ao meio-dia. Helena levantava-se às sete, como sempre, mas agora precisava de caminhar em silêncio dentro da própria casa.

Na primavera, a vizinha perguntou:

«Estás mais magra. Está tudo bem?»

Helena respondeu que andava cansada.

Não sabia explicar que a convivência lhe roubara a sensação de estar em casa.

Quando chegou o verão, sugeriu uma viagem ao Algarve.

«Só alguns dias. Quero descansar.»

António franziu o rosto.

«Para quê? Tenho a casa da aldeia. É preciso apanhar as batatas.»

«Estou a falar de férias.»

«Não digas disparates. As batatas são mais importantes.»

Helena respirou fundo.

«Então vou sozinha.»

Naquela noite, António apareceu à porta do quarto.

«Ou vens comigo e ajudas, ou tenho de pensar se esta relação faz sentido.»

Helena olhou para ele.

«Está bem.»

«Está bem o quê?»

«Pensa.»

António soltou uma pequena gargalhada.

«Vais terminar uma relação por causa de batatas?»

«Não. Vou terminar porque tudo o que tu queres é uma obrigação, e tudo o que eu quero é tratado como uma parvoíce.»

«Estás a exagerar.»

«É isso que dizes sempre que eu peço respeito.»

No dia seguinte, António anunciou que partiriam na sexta-feira.

Helena colocou uma caixa vazia sobre a mesa.

«Tu partes hoje. E levas as tuas coisas.»

Ele ficou imóvel.

«Não podes estar a falar a sério.»

«Estou.»

Vieram então as acusações. Ela era ingrata, difícil e demasiado habituada a viver sozinha. Na idade dela, deveria agradecer por ainda haver um homem disposto a ficar.

Helena sentiu a última dúvida desaparecer.

«Não tenho de agradecer apenas porque um homem quer ocupar a minha casa.»

«Nenhum outro vai suportar as tuas regras.»

«Então não haverá outro.»

António arrumou duas malas. Deixou algumas coisas no armário, talvez esperando regressar.

Helena guardou tudo em caixas, pediu-lhe que viesse buscar e mudou a fechadura.

Na primeira noite sozinha, não conseguiu dormir.

Perguntou-se se teria sido demasiado rígida. Talvez a vida a dois significasse aceitar desordem. Talvez algumas meias e uma televisão alta fossem um preço pequeno para não envelhecer sozinha.

Na manhã seguinte, acordou às sete. A casa estava silenciosa. Não precisou de andar em bicos de pés. Abriu as janelas e respirou profundamente.

Percebeu então que não terminara por causa das chávenas.

Terminara porque deixara de se sentir dona da própria vida.

Nessa tarde, reservou alguns dias numa pequena pousada junto ao mar.

Foi sozinha.

Caminhou pela praia, almoçou quando quis e passou horas a ler. Conheceu duas mulheres da mesma idade que também viajavam sem companheiros.

Riram-se da ideia de que uma mulher sem homem devia necessariamente sentir-se incompleta.

Quando regressou, encontrou várias mensagens de António.

Primeiro, acusava-a. Depois, pedia desculpa. Por fim, prometia mudar.

Helena respondeu:

«Não te pedi para sair por deixares chávenas espalhadas. Pedi porque só levaste as minhas palavras a sério quando perdeste o teu conforto.»

Nunca mais discutiram o assunto.

Meses depois, a vizinha disse:

«Pareces novamente tu própria.»

Helena sorriu.

Não escolhera a solidão em vez do amor. Escolhera não chamar amor a uma relação em que uma pessoa vivia livremente e a outra trabalhava para tornar essa liberdade possível.

Naquela noite, deixou uma chávena no parapeito.

Na manhã seguinte, arrumou-a.

E sorriu, porque a diferença era simples: aquela desordem era sua, naquela casa ninguém esperava que ela servisse outra pessoa e agradecesse pela oportunidade.

😲 A continuação já está nos comentários! Escrevam sem falta se o final foi inesperado para vocês.

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