Depois de onze anos a viver sozinho, convidou uma mulher para partilhar a casa. Menos de um mês depois percebeu que a companhia que desejava não era a mesma coisa que uma vida totalmente partilhada

Depois de onze anos a viver sozinho, convidou uma mulher para partilhar a casa. Menos de um mês depois percebeu que a companhia que desejava não era a mesma coisa que uma vida totalmente partilhada

Fiquei viúvo aos cinquenta e dois anos.

A minha mulher, Clara, morreu depois de uma doença longa. Durante muito tempo, o silêncio da casa pareceu castigo.

Havia uma chávena que ninguém usava, um lado vazio na cama e roupas que demorei anos a conseguir doar.

Com o tempo, a dor mudou.

Criei hábitos novos. Acordava cedo, caminhava, fazia o almoço e passava as tardes a restaurar móveis antigos.

Os meus filhos diziam que eu devia conhecer alguém.

— A mãe não quereria que ficasses sozinho.

Essa frase incomodava-me. Ninguém podia saber exatamente o que Clara queria para os anos que nunca viveu.

Ainda assim, havia noites em que sentia falta de conversar.

Conheci Helena numa associação cultural. Ela era separada, tinha sessenta anos e uma forma tranquila de fazer perguntas.

Começámos a sair.

Gostava de estar com ela. Também gostava do momento em que fechava a porta depois de a deixar em casa e regressava ao meu silêncio.

Não percebi que as duas coisas eram igualmente importantes.

Quando Helena teve problemas com o senhorio, ofereci-lhe a minha casa.

— Podemos experimentar, — disse.

Ela perguntou se eu estava mesmo preparado.

Respondi que sim porque queria estar.

As primeiras semanas começaram bem. Helena trouxe plantas, toalhas novas e fotografias dos netos.

Passámos a tomar o pequeno-almoço juntos. À noite víamos televisão no sofá.

A casa parecia habitada.

Depois comecei a sentir-me inquieto.

Helena gostava de deixar a televisão ligada enquanto fazia outras coisas. Eu precisava de silêncio. Gostava de telefonar aos filhos durante o jantar. Eu preferia comer sem conversar.

Nada disso era grave.

Mas a acumulação tornava cada dia mais cansativo.

Ela reorganizou a cozinha. Eu não encontrava as chávenas. Colocou almofadas no meu sofá e guardou objetos antigos numa caixa.

Quando lhe perguntava, explicava tudo com lógica.

— Assim fica mais bonito.

Eu concordava.

Não queria que se sentisse uma visita.

Ao mesmo tempo, cada sinal de que ela se sentia em casa fazia-me sentir menos em casa.

Comecei a acordar mais cedo para ter uma hora sozinho. Helena passou a acordar comigo porque pensava que eu queria companhia.

Comecei a ficar mais tempo na oficina.

— Não gostas de estar comigo? — perguntou.

— Gosto.

Era verdade.

Só não gostava de estar sempre com alguém.

No vigésimo sexto dia, Helena começou a falar em entregar definitivamente a casa que ainda mantinha arrendada.

Senti medo.

Compreendi que estava à espera de uma saída de emergência. Enquanto ela ainda tinha outro lugar, eu conseguia fingir que a situação era temporária.

Pedi que não entregasse a casa.

— Queres que eu volte para lá?

Fiquei calado.

Helena começou a chorar.

Contei-lhe que tinha confundido saudade de companhia com desejo de partilhar todos os dias. Que queria jantar com ela, viajar e acordar ao lado dela algumas vezes.

Mas não todas.

— Queres uma relação à medida da tua solidão, — disse.

Talvez tivesse razão.

Mas viver junto contra a minha natureza não seria amor. Seria medo de parecer egoísta.

Helena não queria casas separadas. Precisava de um companheiro presente na rotina e não apenas nos momentos escolhidos.

Separámo-nos.

Os meus filhos ficaram zangados.

A minha filha disse:

— Pai, tens de aprender a ceder espaço.

— Eu sei. Mas Helena merece alguém que não sinta cada cedência como perda.

Depois de ela sair, encontrei uma planta que tinha deixado na janela.

Cuidei dela.

Não queria apagar a passagem de Helena pela minha vida.

Na primeira noite, a casa pareceu demasiado vazia. Senti falta do som dos passos e da luz acesa no corredor.

Mesmo assim, dormi profundamente.

De manhã, bebi café em silêncio.

Não senti vitória.

Senti reconhecimento.

Estar sozinho não era apenas o resultado da morte de Clara. Ao longo dos anos tornara-se a forma de vida em que eu conseguia descansar, pensar e continuar inteiro.

Algumas pessoas precisam de companhia constante para não sentir o vazio.

Outras precisam de ligações que respeitem grandes espaços de silêncio.

Nenhuma forma é superior.

O problema surge quando tentamos viver segundo o modelo que parece mais aceitável, mesmo que esse modelo nos faça desaparecer lentamente dentro da própria casa.

🌷 Todos os detalhes e a continuação estão nos comentários. Ficaremos gratos se partilharem as vossas impressões.

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